terça-feira, 13 de junho de 2017

The Weeping Song – Zé

Se o que inicialmente o paralisou foi a surpresa de sentir a água pastosa a escorrer por entre as pernas, agora também o incomoda o cheiro. Quando já se julgava em segurança, ter deixado o Ernesto para trás, recuperado a cabeça da descarga de pensamentos. Quando finalmente voltava a sentir as pernas no chão, a barriga prega-lhe esta partida. Uma borrasca sem aviso que o atira por uma porta aberta para um esconso vão de escadas de madeira castanha, entre o amarelado e o desmaiado, carcomida por gerações de larvas, famílias inteiras, que roem a infindável herança, não só a escada, mas o prédio todo, onde cada qual parte à aventura, traçando sulcos, rásrás, rásrás. Mas, àquela hora, o que se ouve é uma criança. Chora no andar acima, enquanto um cheiro almiscarado lhe entra pelas narinas. Uma mistura de bicho e madeira, em partes que não consegue discernir. Destes segredos são feitos os perfumes. Pungentes, como as tempestades que ensopam até aos ossos. Instalam-se e desencadeiam um rumor que rompe nas extremidades. A criança não se cala. Já chega, diz uma voz de homem, quando é que o puto para. Estou farta, responde uma mulher. Uma porta bate com força. O prédio estremece. Deve ser isso que explica as pequenas perturbações encontradas nos sulcos. Bichos cegos não são dados a sobressaltos. Talvez não tenham assim uma vida tão sossegada. Tentam, mas o mundo não é só feito de boas intenções. Não é só o prédio, são as pessoas que o fizeram, que acham que também têm direito. Ou, pensáveis, bichos que o prédio tinha sido feito para vós? Para a vossa delícia? Afonso faz tenção de se ir embora, mas sente as pernas paralisadas por uma cola peganhosa. Delícias. Larvas transparentes, sem vitamina D, assomam cá fora apenas pela calada da noite. E mesmo assim muito a medo. Quase por engano. Uma ida fugidia a uma sessão de esclarecimento. Apanhados à porta. Trazidos para dentro. Passei por aqui, mas já estou de saída. A vida não é só delícias, diz o conferencista. Usa uma qualquer analogia. Forte, como uma boa analogia. Inútil, como uma boa analogia. Analogias são como as cerejas, pensa Afonso. Cada uma tão convincente que nos faz esquecer a anterior. Esta é que é essa. Delícias. Afinal estas minúsculas lagartas também têm os seus alvoroços. Espasmos. Pasmo, pai, neste esconso de escada. Cheguei aqui num transe, não consigo recordar bem porquê. Tremem-me os dedos. Doem-me os ossos. Suores. Vai passar. Daqui a pouco já estou em casa. Só mais um pouco. É como se já tivesse aí. Não te preocupes. Já percebi. Delícias. O choro redobra de intensidade. A porta abre-se e o peso de um corpo pesado solta uma chuva de pó sobre Afonso. Foda-se, cheira a merda, anuncia a voz do homem sobre a sua cabeça, enquanto dedilha os degraus, a um a um, fechando a porta do prédio com estrondo. Passos precipitados trazem a mulher à entrada do apartamento. Com uma praga que dilata o edifício, atira, não penses que voltas, cabrão. Bate a porta com força para se proteger da reverberação da sua imprecação.

sábado, 3 de junho de 2017

Poor Little Alfie – Amália, Madalena e Sílvia

Mais do que a cara mergulhada no vomitado, onde os restos de uma encenação de almoço navegam à vista num banho de gin que foi fazer a apneia ao estômago, o que realmente incomoda é o cheiro. Um cheiro acre, que recorda a existência das entranhas e, finalmente, de um ser vivo formado à volta do tubo digestivo. Como se o aparelho respiratório fosse a consciência, e um esbirro invejoso, do outro, o único que atravessa o corpo de lés a lés. Por isso mete duas vezes dó Romeu no chão. Mete dó porque tolhe ver um homem emborcado na manifestação externa das suas vísceras. Dó, porque não consegue levantar o rosto, entontecido que se encontra pelos vapores que não retornou. Catarina ainda o tenta erguer, mas Romeu faz-se pesado e começa a gatinhar combalido, numa passada cega de animal possante. Bamboleia o corpo com o nariz roçando o chão. Pelos lábios semiabertos passa ar em ambos os sentidos, trazendo dos pulmões o bafo que vai soltando num rasto que marca o caminho. Catarina passa-lhe uma toalha molhada pela cara. Romeu interrompe a caminhada, surpreendido. Os lábios alargam e sente por dentro o ardor da água que apaga o fogo. Começa a sugar levemente a toalha, fazendo com que pequenos jatos de líquido passem por entre os dentes, apaziguando a língua. Levanta uns olhos vagos e vê Catarina, desfocada, balançando-se de um lado para o outro. Faz um esforço para conciliar a vista com o cérebro, e vê a cabeça de Catarina desdobrar-se em duas, agarrada pelo tronco. A visão provoca-lhe náuseas e fecha os olhos. Na escuridão, o cérebro dá um mortal, desequilibrando Romeu que aterra a cabeça no chão. Duas mãos seguram-no pelos ombros e sustêm o que ainda pudesse haver de queda. Aproveita então para rodar o pescoço, repousando sobre a face direita. O solavanco deixou-lhe os braços ao longo do corpo. Mas as pernas não se dão por rendidas e, mais por descontrolo que por desobediência, insistem em avançar. A força do desgoverno desencadeia um ligeiro arrasto que, se consegue deslocar as mãos alguns milímetros lá atrás, cá à frente apenas serve para repuxar o lábio inferior, expondo a gengiva com despudor. Encostas de carne luzidia sob um castelo de esmalte que se abre para deixar passar uma corrente de ar que resvala pelo carreiro de baba até ao chão. Fica assim, prostrado, como um animal a repousar sobre o pasto. Quando as pontas dos dedos de Catarina lhe tocam a face, reabre o olho esquerdo e procura fixar um mundo sem profundidade onde três rostos sorridentes o observam. Lado a lado, trocam impressões sem deixarem de o fitar. Olhos dilatados, em simpatia com os lábios que descobrem dentes alinhados. Lábios que ondulam com doçura, nunca encobrindo os dentes, por onde as línguas enunciam danças do ventre. Bailam à vez, e em sintonia, reafirmando a mesma frase musical. As cabeças acenam, de baixo para cima, reproduzindo sins. Vão-lhe assim chegando melodiosas ondas sonoras que procura captar com ligeiros movimentos da cabeça. O olho de Romeu dilata quando reconhece Amália, Madalena e Sílvia.

sábado, 13 de maio de 2017

Hollow Hills – Ernesto

Um Deus triste com o sofrimento do mundo. Foi quando finalmente refreou o passo que Afonso se questionou se Ernesto estaria mesmo morto. Invadiu-o um sentimento de culpa. Se calhar estava vivo. Precipitou-se quando o viu revirar os olhos com a agulha ainda na veia. Eh pá, Ernesto, deixa-te de merdas. Disse-lhe duas vezes, abanando-o com cautela. Mas ainda assim, a seringa a balançar, decaindo do antebraço para o chão. O gajo já tinha ido, nada mais havia a fazer ali, melhor pôr-se na alheta. Era a primeira vez que estava no apartamento. Parece que era de um primo do Ernesto, que estava fora. Surripiou a chave à mãe, fez uma cópia, e agora era um paraíso. Ideal para dar um chuto na boa, dizia. Sem stresses. Não tinha culpa de nada, certificou-se. Não conhecia o local. Sabe-se lá quem podia por lá aparecer. O Ernesto dava-se com gajos bué de esquisitos. Pessoal da pesada. Não andavam só a curtir, tinham responsabilidades, e na merda deste negócio não se brinca, meu. Na ausência do direito, um bom nome é tudo. Perdes o nome e tás fodido. Fazem de ti gato-sapato. Pagas uma meia, dão-te uma quarta. E depois riem. Puta de vida. Sempre a lutar entre o cavalo e a dignidade. Cada um a puxar para seu lado. A vida é um paradoxo. O cavalo exige dignidade para ser montado e depois passa o tempo a tentar atirar-te ao chão. Dizem que há gajos que se aguentam. Andam anos nisto. Tratam o bicho por tu. Em todo o lado há tipos regrados. Calculistas. Cavalgam e não se entusiasmam. Parece que o Ernesto não é um deles. Se é que já foi. Senão, sabe-se lá. A filha da puta desta vida dá voltas. Partes numa viagem e nunca sabes como regressas. Até podes regressar cínico, dizem. É capaz de ser verdade, mas o pior é ficar-se com a cabeça atrofiada. Nos últimos tempos o Ernesto andava mais para o contemplativo. Devia ser de ter deixado de meter na rua. Estas merdas contam. Condições são condições. Não venham com tretas. Com um pouco de conforto até a miséria dá frutos. Sim, contemplativo. Podes crer. Passava horas a olhar para as estrelas. Somos só um ponto no universo, dizia, e metia para dentro. Não sei por onde andaria, pois quando regressava voltava a olhar para as estrelas. Será que tirou por lá alguma selfie? Somos só um ponto do universo. Repetia. Coitado do Ernesto. Foi nesta fase meditativa que começou a usar o chapéu de abas. Ficava-lhe bem. O corcovado do alto fazia pendant com as maçãs do rosto chupado. Não, o gajo tinha pinta. Tinha vaidade no chapéu. Somos assim. Afeiçoamo-nos a estas pequenas merdas. É isso que nos traz agarrados à vida. Um mundo oco este. Se não for isso. Se não forem as estrelas. Estamos cá para quê? Comer, beber e cagar. Não, tem que haver mais alguma coisa. O chapéu do Ernesto. Devia-lho ter posto antes de sair. Ele havia de ter gostado de ser encontrado assim. Com a seringa e tudo. Mas foi tudo a correr. Não se faz nada com calma nesta vida. Não há tempo para nada. Ao menos ele teve uma vida cheia. Antes isto que morrer velho e passar uma vida a vegetar. O gajo era tramado, a contemplar, apenas um ponto no universo.

domingo, 7 de maio de 2017

A Strange Day – Romeu

Quando o rosto de Romeu entrou por entre os seios de Catarina imaginei que iria ser tão grande e intensa como uma obra prima da literatura russa. Grandiosa por fora e por dentro. Na imensidão das descrições dos campos de batalha, na acutilância dos detalhes da complexidade psicológica dos personagens. Mas não é que, nesse preciso momento, me sobreveio um tremor que me acanhou a mão e me impediu de expor, como pretendia, o que tinha para narrar. Assustada, agarrei-me à esperança que seria uma convulsão à Dostoiévski. Daquelas que por vezes o atravessavam. Um ataque de génio. Fui, na realidade, tomada por um rufar repetitivo que se instalou em mim como um vírus. Peço-vos desculpa, porque cada palavra que se atreve é imediatamente amassada, escravizada por esta batida. A epopeia que tinha em mente ficou reduzida a muito pouco, um dia apenas. Um dia bem estranho. E mesmo assim, só o favor da literatura concede transformar num dia os escassos momentos que a cabeça embriagada de Romeu passou ali. Poderia exprimir tudo numa única palavra, contradição. Romeu de joelhos. Com os olhos abertos de um cego. Brancos e revirados para dentro. Envolto num mar com uma praia de pedras. Enjoado do doce navegar. Precipitado em queda livre pelas contrações do estômago. Falhando-lhe as pernas. Sem a gravidade do planeta terra. Encho-me de vergonha com a trama psicológica que me foi destinada. Que paga por tanto desejar. É assim a juventude feita a correr. Mais um pouco. Por favor, só mais um pouco, depois faço de mim uma mulher. Só mais esta canção. Uma contradição. Um atropelado numa passadeira que se atira para fora da zebra. O corpo ao ralenti, à deriva entre o céu e o chão. Batalhando. Os braços trespassando inimigos invisíveis. Cada golpe um homem ao chão. Uma oportunidade para o seguinte. Estranhos inimigos, que desejam a morte do companheiro para poderem ver chegada a sua vez. Irónicos inimigos, que num sorriso dizem, esbraceja Romeu, esbraceja. Um dia bem estranho. E o chão que nunca mais chega. Negando-lhe o descanso em paz. E os tambores que não se calam. Rufam, rufam. Parem, estou farto desta guerra, diz Romeu, enquanto involuntariamente carrega no replay. E, quando se sente finalmente a chegar ao chão, uma mudança na batida, mais longa, como uma ordem de recarregar, eleva-o em nova exaltação, esbracejando agora mais que nunca. Como um batalhão cego de cansaço, vendo no campo inimigo o lar doce lar. Doce miragem. Como correm. Como abrem e boca e gritam. Mãe, pai, voltei da guerra, são e salvo. Os braços como asas. Fora da passadeira. Abraçando a Catarina. E pobre de mim. Preparada que estava para as paisagens. A bateria sobre a colina. A névoa lá em baixo. Envolvendo as árvores do bosque. O bosque que regurgita homens. Cegos do que os espera. Envoltos na humidade onde lhes vai brotar o sangue. A metralha cuspida lá de cima. Caem atordoados. Épico, sonhei. Mas coube-me em destino este chão de cozinha.

sábado, 29 de abril de 2017

Spellbound – Susana

Não se consegue separar o som da luz. A sua intermitência mergulhada em fumo. Fumo que se agarra ao suor dos corpos, apanhado entre os encontrões. Sou testemunha da descontinuidade. Afonso viu Susana num clarão. Depois fez-se escuro de novo. Esperou até voltar a haver luz. Ela já lá não estava. Fechou os olhos antes de se fazer noite outra vez. Concentrou-se nas guitarras e numa voz que repete uma palavra mágica. Quando reabre os olhos está ao seu lado. O que fazes aqui? Vim com a minha irmã. Onde está ela? Foi à casa de banho fazer um caldinho. Ah. E tu? Eu não. Não? Não. Fez-se noite de novo de novo. Afonso fecha os olhos. Ondula o corpo. Reabre os olhos e Susana continua à frente dele. Séria. Diz-lhe, salva-me. De quê? Não sei. Preferia ter ficado em casa. São empurrados, ficando lado a lado. Na música repete-se again, and again. Onde já ouvi isto, pensa Afonso. Quem ficou em tua casa? Ninguém. Porque viestes? Tenho medo de ficar sozinha. Uma bateria bate em cadência de combate. É só disso que tens medo? Não. Uma luz atravessa os olhos de Susana. Grita-se um refrão qualquer em unanimidade. Costumas vir aqui? Às vezes. Às vezes. Às vezes. A resposta reverbera. Afonso faz tenção de ir embora. Susana não se move. Afonso fecha os olhos. Deixa que tremores lhe percorram os músculos. Entreabre os olhos para que alguma luz vá entrando. Solta o corpo ao compasso da música, deixando-se surpreender por cada novo acorde. Susana pergunta-lhe. E tu, costumas vir aqui? Às vezes. Queres uma cerveja. Sim. Serpenteia em direção ao bar. Quando regressa, a Susana não está. Deixa-se ficar. Pouco há no que acabastes de que presenciar, mas são disso feitos os feitiços. Se tivessem substância não seriam feitiços. Os feitiços, como os ardis, contêm um pedido de ajuda seguido de uma espera. No pedido exalta-se a matéria. Na espera forma-se o caráter. Como se forja uma espada, com fogo e água. Sei que levantais dúvidas. Dizeis, pobre rapariga, pobre rapaz. Quem os deixou lá ir. Dizeis isso porque nunca lá estivestes. Ignorais o êxtase de um cão que se deita no chão, de barriga para o ar, com uns olhos suplicantes ao fundo de um focinho molhado. Ou o ardor de seguir um desconhecido pelas intrincadas ruelas duma cidade marroquina para nos levar a um vago lugar prometido. Tudo coisas que o bom senso não aconselharia. Mas voltemos ao feitiço. Imaginemos um feitiço cheio de bom senso. Como uma aventura paga. Empolgada no cartaz. Inócua e assética na realidade. Como uma prostituta legalizada. Tudo by the book. Sem o mais ligeiro ameaço de ardor. Sem um assomo de súplica. Que feitiço é esse? Com que fogueiras podereis intimidar tais feiticeiras? As do IVA, talvez. Achais mesmo que o que atormenta a alma de Afonso é o IVA. Que quando a sua mão aperta a garrafa molhada da cerveja o que sente escorrer por entre os dedos é a percentagem do imposto. Que por isso passa horas sem fazer nada. Deixando-se perturbar por todas as músicas que vai ouvindo. Achais mesmo? E da Susana? Uma miúda ainda atrapalhada com o fogo. Uma aprendiza de feiticeira.

sábado, 22 de abril de 2017

Zona de Conforto – Catarina

Envolvo a carraça bem encrustada sob o pelo do cão. Podem dizer mal dela. Apontar-lhe a acomodação. Mas qual é o bicho que quer deixar a sua zona de conforto? Andam agora por aí com essa conversa. Até parece que pretendem que se transformem em melgas e partam à aventura, a sugar por aqui e por ali. Não sabem que é assim que se apanham as doenças? O próprio Napoleão tinha mais respeito por uma corrente de ar que por um batalhão de cossacos. Um inimigo bem mais traiçoeiro, dizia, que de manhas percebia ele. Não deveis estranhar, por isso, que a carraça se aconchegue lá fundo, junto à raiz dos pelos, como um vinhedo costeiro protegido por um canavial. E depois é toda uma impossibilidade construída pelo hábito. Acomodou-se, criou rotinas, arredondou-se, passou a almoçar sempre no mesmo restaurante, às quintas, tripas à moda do Porto, por vezes, que uma vez não são vezes, ou melhor, quase sempre, a tarte de coco, hum, delícia, tome lá uma ginjinha para ajudar, bem bom. Devido a tanto divinal suco, tornou-se mais sangue que músculo. Malditos hábitos que nos fazem fracos. Soubesse e teria sido pirata toda a vida. Não passava agora por isto. Perder peso. Ganhar asas. Mas eu não abandono os meus. Por isso, ali vou, feita passarola, vela enfunada, bandeira desfraldada, a caveira com os ossinhos a fazer um laçarote. Ou pensáveis que a iria deixar ficar sozinha? Exposta. Não, comigo é até que a morte nos separe. Afeiçoei-me a ti minha carraça, meu pirata. Também os estúdios se tinham tornado a zona de conforto de Romeu. Mas, quando saiu não levava vontade de regressar, tanta era a revolta. Mantendo uma aparente compostura, quem dele se acercasse poderia sentir uma vibração resultante de um linguajar interior, indistinguível. Um zunzum, em que discorria razões, inconformado com a decisão de cancelar a novela. Uma enorme injustiça. As audiências estavam altas. É verdade que o tio bem o tinha avisado, naquele dia em que o apresentou ao Dr. Magalhães Osório. Há mais para além do Dr. Osório, disse-lhe, quando saíram. Ligou ao tio, agora já não há nada a fazer, assegurou-lhe, desculpa, mas eu próprio me devo manter afastado. O regresso a casa é feito aos ziguezagues. Já duas vezes se enganou no caminho e voltou atrás. Quando abre a porta, Catarina imediatamente se apercebe como vem. Lança-lhe um olhar interrogativo. Não lhe apetece falar. Vai à cozinha, recusa o copo de vinho e retira a garrafa do gin. Apenas se ouvem os ruídos da rua abafados pelas janelas de vidro duplo. Serve-se outra vez de gin. Catarina está expectante. Romeu tomba sobre os joelhos e senta-se no chão, encostando-se às pernas da mesa. Catarina junta-se a ele. Romeu bebe o resto deste segundo gin de um trago, enquanto estica o braço para trazer a garrafa. Serve-se de novo. Então? Pergunta-lhe Catarina. Cancelaram a novela. Mas as audiências não estavam boas? Estavam. Então? Dizem que exagerei. Exageraste nada! Vais ver que é um mal-entendido e que tudo se resolve. Abraça-o. Romeu coloca a cabeça entre os seios de Catarina.

sábado, 15 de abril de 2017

Chama – Afonso

Quando abre a mão revela uma chama bem no meio da palma, que vai do azul junto à pele ao laranja das extremidades. Sou como a chama que arde no coração de Cristo, em antigas gravuras que ornamentavam casas modestas. Um Cristo belo. Sim, o fogo fascina, eu sei. As chamas têm chamamento. Atração que captura os olhos. Chama que desperta uma loucura que se quer calada, como um amor secreto, escondido dos comentários comezinhos dos outros. Por isso vivo no segredo guardado pelo punho fechado de Afonso. Sou uma pontada de calor bem no centro, onde as linhas se cruzam. Dormente, persevero-me na ânsia do oxigénio que me dá forma. Afonso sente-me ali como um incómodo, mas mantém a mão cerrada. Sou a presença constante que o acompanha ao longo do dia. Por isso é ligeiro. Sorri. Não se atormenta perante as dificuldades pois sabe que mais tarde soltará a mão e abrirá os olhos à minha chama. Talvez por isso, por ter a felicidade periclitante dos que acreditam, o pai não procure mais. Dirão que é desleixo para um psiquiatra, mas na azáfama de concertar as almas dos outros, com os próximos, tal como consigo próprio, vive numa espécie de alheamento. O enfado de quem por cautela não traz trabalho para casa. Já da mãe não poderei dizer o mesmo. As mulheres não se conseguem desligar dos seus rebentos. Mas prefere não saber. Engendra uma multitude de pequenas causas que expliquem o que suspeita. Causas sociais. Objetivas. Alicerçadas num materialismo dialético que coloca tudo numa rede lógica que traga os novos factos e os digere em velhas associações. Mas Joaninha está enganada. Como vos disse a minha origem é de uma ordem religiosa, que não se explica. Não que não se tenha tentado. A religião é o ópio do povo. Ah, ah, ah. Não posso deixar de crepitar de riso. O que seria do Afonso sem mim? Como seriam os seus dias se não tivesse a garantia da celebração da chama. De se ajoelhar perante a minha redenção. Pobre Joaninha, sempre tão perspicaz e tão cega para o essencial. Deveis estar a pensar que sou como a canção na cabeça do Afonso. Sim é verdade, não sou é tão passageira. A canção é a fuga do Afonso, eu sou o Afonso. Dou-lhe o desprendimento que faz a camaradagem. Um afastamento do material consubstanciado numa desambição mãe da partilha. Quem não é generoso depois de um farto almoço? Ou, após soltar a alma numa adoração? Tudo isso eu dou a Afonso e há, contudo, nele um sofrimento de ter de fechar a mão. De se sentir obrigado a esconder a chama. Não, não sou eu que, como uma amante possessiva, o atormento com a necessidade de declarar publicamente o seu amor. Não sou vítima dessa insegurança. Não há no fogo condições para a consciência. O sofrimento do Afonso advém da minha força. A dúvida atormenta qualquer relação e Afonso teme que possa abrir a mão e já lá não encontrar a chama. Por isso a dor na palma da mão. A forma como ele não a consegue separar de mim. A inquietação de não perceber claramente onde termina a dor e começa a paixão. Como se de uma crise de fé se tratasse.

domingo, 9 de abril de 2017

Mercado – Romeu

Ficastes pendentes do homicídio do Capitão Simões? Tenho então más notícias para vós. L’Ancien Regime não terá continuação, fica-se por uma única temporada. E não é por causa das audiências, essas até são razoáveis. Romeu esmerou-se a colocar todos ingredientes necessários. Nem sequer necessito de vos dizer quais, uma vez que chegastes até aqui, semana após semana, vítimas das ênfases, insinuações, ausências e prolongamentos. Por conseguinte, quando soube da notícia, que não tiveram a gentileza de lhe comunicar pessoalmente, Romeu sentiu-se injustiçado. Andava tão entusiasmado a conceber a novela, a acrescentar-lhe fios narrativos, a atar-lhe as pontas, criando uma rede sem princípio nem fim, feita para durar, fadada a apenas desaparecer por enjoo, por excesso, quando os espetadores já são dependentes, e não necessariamente poucos, mas doentes, e, como tal, quando a sua conclusão pode ser justificada como um ato de saúde pública. Nessa situação, até o realizador está de acordo, pois, o píncaro do sucesso de um ilusionista é desmontar o truque, mostrando a sua grandeza. A grandeza da criação e a grandeza da renuncia, juntas numa só. Quando finalmente ouviu da boca do Dr. Magalhães Osório, diretor de programas da estação de televisão, pois é, meu caro, as coisas nem sempre são como nós gostaríamos, Romeu apenas conseguiu balbuciar, mas, e as audiências? As audiências, ai as audiências, repetiu abanando a cabeça o Dr. Osório, com alguma incredulidade. Olhe, sabe o que eu acho? O Romeu entusiasmou-se. Mas deixe estar, é frequente, especialmente no princípio. Todos gostamos que gostem de nós, e depois as audiências sobem, e lá vamos repetindo o que resultou, aumentando-lhe a amplitude. Sabe, fica o realizador tão viciado como o seu público. Mas qual é o problema? Insistiu Romeu. Não são as audiências que atraem a publicidade, que dá lucro, que viabiliza a estação? Meu caro Romeu, nunca pensei, saiu-me um neoliberal. Bom eu, também o sou, mas você é do tipo ingénuo. Como é que pensa que funciona o mercado? Julga que funciona sozinho? O mercado tem que ser regulado, senão é o caos, e começa a tragar as pessoas. Romeu, mostra-se surpreendido. Ai Romeu, Romeu, um neoliberal ingénuo é pior que um comunista. Sei que foi o que apendeu na escola. Compreendo, uma boa educação faz-se com uma base teórica sólida. Mas tem que ser cimentada na prática. Quer dizer que não foi por causa audiências que cancelaram a próxima temporada? Interrompe Romeu. Olhar só para as audiências é muito redutor, caro Romeu, responde-lhe pedagogicamente o Dr. Osório. Mas eu coloquei tudo o que era necessário, justificou-se Romeu, como um bom aluno numa revisão de provas. Não nego que se esforçou, Romeu, mas exagerou, frisou o Dr. Magalhães Osório, está tudo de acordo com a teoria, feito como deve ser feito, não nego, até lhe dou os parabéns. Mas, vejo-me obrigado a repetir-lhe a pergunta, como pensa que funciona o mercado? E perante a expressão espantada de Romeu, explica-lhe. São as forças vivas da sociedade civil que fazem do mercado o mercado.

domingo, 2 de abril de 2017

in extremis –

Uns grunhidos? In extremis? Não é coisa bonita. Estávamos à espera de mais. Uma carta dedicada a uma causa não pode deixar que as suas últimas palavras sejam uns grunhidos. Se a Igreja se regozija com a conversão in extremis dos não crentes, uns grunhidos não poderão com certeza ser interpretados como uma conversão, um arrependimento no momento da partida, mas dão margem ao pequeno comentário. Pobre diabo, tanta conversa e lá foi como todos os outros. Se calhar pediu para ser recebido do lado de lá. Lá está. Se calhar. Venho por isso em defesa da carta republicana. Não, não houve arrepiar de princípios. Achais porventura que uma carta fadada para ser engolida pela boca negra de um diabo vermelho teme a morte, ou parte na esperança de um além. Ah, dizeis vós, pois é, mas entram com a certeza de serem entregues ao Destinatário. Tendes aí um ponto, concedo, mas isso é porque usais as imagens deste mundo para inventar um outro. Dir-vos-ei mais. Apenas podeis empregar esse argumento porque é o progresso que garante a entrega da mensagem. É a vitória da civilização, da máquina racional, que com os seus bem oleados mecanismos assegura que chegam ao destino. Nessa idade média, de que éreis senhores, poucas missivas escapavam à intempérie, à desventura, ao acaso. E o que dizíeis então? Vede como as mensagens do homem para o homem são nada. E tínheis então um ponto. O que perfaz dois pontos. Mas não vos parece que foram somados com alguma batota? Dais agora uma volta sobre as vossas razões, revoltados, e atirais que um homem sem alma é como um animal. Por isso grunhiu. Não, não foi falta de alma, foi falta de ar. Pois foi, vireis vós de volta, mas se tivesse alma, teria a vontade que não cala, não precisaria de ar para falar. Mas que falar é esse sem ar? Um milagre? Bom, contra milagres já nada posso. Desdenhais dos milagres, dizeis a rir, esperai o momento da morte e depois falamos. Acho que voltámos ao princípio. Um elo, como o que enlaça a carta republicana no seu leito. Coitada, perdeu a cor rósea, está lívida, presa na mão do Sr. Capitão Simões, que jaz no chão. Tombado da cadeira, tem em volta do pescoço o garrote com que foi estrangulado. A polícia diz que deve ter sido alguém em que ele tivesse confiança, para se ter colocado por detrás do capitão antes de este dar o alarme. Não costumava estar no gabinete aquela hora. Era um homem de hábitos. Alguma situação excecional o deve ter levado a romper a rotina. Foi um encontro combinado, com certeza. Uma amante? Para o garrote é necessário um pulso forte, determinado a não parar. Um golpe certeiro. O corpo foi deixado no local onde ficou, paralisado com a falta de ar. Não há sinais luta ou de ter sido arrastado. Também não se deu pela falta de nada, gavetas e armários não têm aspeto de terem sido mexidos. Qual seria o motivo do encontro? Um assunto pessoal? O que ocorreu in extremis? Terá percebido a razão do seu triste destino? O que terá dito? Com a carta do Dr. José Galvão na mão, esse ateu confesso.

domingo, 26 de março de 2017

Papillon – do Bigode

Pois é, quando parecia não ter fim, eis que tudo se precipita. Não, não foi o corte no canto superior da folha cujo ângulo até lhe deu um ar marialva, tivesse ela um palito entre dentes. Foi o bigode chinês. Não tinha já dito, antes caísse. Pois é, mas não caiu. São os apegos. E pasmai, nem sequer foi obra da carta anónima. Coitada. Muito ela ficou surpreendida. Quer porque tinha planeado retalhar a republicana pedaço a pedaço. Quer porque tinha planeado poupá-la. Vá-se lá saber o que vai na alma de uma anónima. Aconteceu tudo muito de repente. Não podemos isentar de culpas o bigode, mas também terá como desculpa que apenas foi o que é, e o que é o que é a mais não é obrigado. Um bigode passa uma vida a robustecer-se em balanços constantes, como resultado dos movimentos da carta. Uma verdadeira cordoaria ao ar livre. E depois fica como aqueles homens que, após passarem largas temporadas no ginásio, olham-se ao espelho e sentem bruscamente um enorme vazio. Então, pobre daquele coitado que se lhe atravessa à frente. Ainda mal o viu e já está em cima dele. Pumba, que tu és isto. Pumba, que tu és aquilo. E o azarado pode ser todo ouvidos, mas dificilmente compreende. Pois é. Aquilo que no duelo se tinha tornado diversão para a carta republicana, para o seu bigode foi o alimentar de uma ânsia, uma cega vontade de agarrar na anónima e a apertar tanto que viesse a desfalecer. E tomem nota na palavra cega. Um bigode pode ter fibra, mas falta-lhe retina. Se os derradeiros acontecimentos são da irresponsabilidade do bigode, um observador externo até pode atribuir todo o mérito à carta anónima, que se aventurou numa manobra arriscada. Desdenhou da fibra do bigode com o objetivo de provocar desconcentração e reduzir a precisão de movimentos da carta republicana. Para isso, aproveitou o breve desacerto resultante do corte no canto superior para deslocar o teatro das operações mais abaixo, na zona onde o bigode permanecia pespegado. Entrou então num jogo do gato e do rato, chamando o bigode a si e rapidamente se lhe esquivando. Estava, portanto, a parte cerebral da carta republicana a refazer-se do corte enquanto o bigode entrava em roda livre, como um desaçaimado cão treinado para matar. E não é que na sua cegueira se atira ao próprio dono?! A ponta comprida do bigode deu uma volta, entrelaçando-se com a ponta curta, enlaçando a carta republicana a meio, convencida que estava apertando a anónima, que olhava sarapantada. Nenhuma forma de morrer é bonita, mas esta tem requintes de malvadez. O aperto começa por selar, amarfalhando a parte atrevida da folha que ficou enredada na língua do envelope, soltando pequenos grunhidos. A asfixia provocada pelo nó fez engrandecer os lados, que aumentaram de volume e enrubesceram como dois pulmões à procura de ar. Ao centro, o laço dado pelo bigode aumenta de força, pois a falta de oxigénio destruiu as zonas de controlo e a fibra do bigode contrai irrefletidamente. No seu aperto máximo, quando de dentro só vinha silêncio, a carta tinha a forma de um papillon. Não é uma forma bonita de morrer.

sábado, 25 de março de 2017

Mas Quando É Que Acaba – o Duelo

Mas Quando É Que Isto Acaba? Sim, faço questão de perguntar assim, começando cada palavra com maiúscula, com os faróis acessos para a condução da noite. E pergunto-o na preguiça de quem sabe que chegou a hora de terminar e se deixa estar. Por isso interrogo-me para atiçar o prazer e depois rir. Quando estamos envoltos em técnicas, táticas, golpes, e outros estratagemas, somos capazes de passar toda a noite nisso. Comprar uma cave, enchê-la de mesas, cada uma com a sua batalha, o seu jogo, em que se enfrentam papel e plástico, encharcados de significado, e regressar à cama pela madrugada, exaustos e satisfeitos, quando os vizinhos saem para o jogging. É assim que eu me encontro, mero espetador deste jogo de cartas. Quantas combinações há naqueles dois magros paralelepípedos. As três dimensões do espaço não são suficientes para explicar a subtileza de um arrastar de canto, nem a determinada intenção de uma leve pressão, ou as ligeiras oscilações de dentes dos selos. Talvez se deva ao facto da carta anónima ter suspeitado que a republicana não é quem diz ser. Que tenhamos não um, mas dois mascarilhas. Subitamente desconfortáveis, sem saberem o que fazer. Um mascarilha aplica um golpe à mascarilha ao que o outro mascarilha responde com uma técnica de mascarilha. Um duelo existencial e sem sentido. Um empate. Poderá conter todas as técnicas e táticas do mascarilha, mas emoção nenhuma, o grau zero do inesperado. Porque digo então que estas figuras são dignas de passarmos a noite a observá-las? Porque comprei uma cave onde todas as noites mergulho? Porque após o sobressalto do reconhecimento resolvem continuar a representar o seu papel, fingindo que estão a fingir. Se tendes dificuldade em perceber imaginai um baile de máscaras organizado por um grupo de amigos de longa data. São por isso agora mais afincadamente o que fingem ser. A republicana mais republicana e a anónima mais anónima. A primeira, repleta de ênfases libertadores, aplica táticas que expõem. Desafia a anónima a mostrar o que tem escrito. Para isso, alterna movimentos lentos com repentinos arranques, procurando soltar a língua do envelope. Mas a cola da anónima resiste ao destempero. Para cada movimento, finge que adere, flete, e depois faz-se plana. O que atiça a republicana, para quem um revés não é derrota. Recorre por isso ao ardil do agora vou-me embora, colocando-se, através de uma rápida viravolta, fora da visão do endereço. Infelizmente, o célere movimento é denunciado pelo bigode chinês, que a anónima ainda vê escapulir-se por baixo de si. Sorri, porque o sorriso é o escape da memória, e faz-se tonta, finge-se atónica. A republicana não sabe se há de acreditar, indecisão que a anónima aproveita para numa dupla pirueta à retaguarda raspar a outra num golpe de navalha. Da manobra há a lamentar a perda do canto superior da folha republicana, que no seu afã libertador, nem nos momentos de maior refrega procura a segurança do envelope, na ânsia de tudo observar, e poder dar instruções informadas. Pensais que este foi um golpe fatal? Qual quê, isto nunca mais acaba.

domingo, 12 de março de 2017

Ainda Outras Técnicas, Táticas, Golpes e Outros Estratagemas – do Duelo

Pois é, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O selo dado pela carta republicana à anónima desencadeou em mim a doce sensação da compreensão dos princípios básicos do duelo de cartas. A isso não terá sido alheia a boa disposição da carta republicana que, após obrigar a anónima àquele faiscar de olhos, gritou com alegria, Vive La Repúblique, sim, assim mesmo, em francês, com um forte acento jacobino, que como sabemos é um bolchevismo permeável à participação aristocrática, e, maravilha das maravilhas, deu um pequeno pulo no ar, se é que a palavra pulo se pode aplicar a um movimento que não tem o seu início no chão, agitando simultaneamente ambos os cantos inferiores, o que descartou imediatamente a hipótese de a vibração singular de cantos ser uma caraterística congénita, pelo menos nos momentos de alegria. E agora sim, a alegria da republicana e a raiva da anónima deu origem a toda uma variedade de técnicas, táticas, golpes e outros estratagemas do duelo de cartas que, abri bem os olhos, é um gosto observar. Com a cabeça fora de si, e por favor imaginem como cabeça de uma carta a aba do envelope que impede o fácil acesso ao seu conteúdo, ou não seja dito dos desmiolados que têm a boca junto ao coração, a carta anónima aplica um golpe conhecido por gancho em cunha, em que mais em força do que em jeito, se atira perpendicularmente com todo o seu peso contra a republicana, procurando asfixiá-la contra uma parede ou outro objeto que ocasionalmente possa estar na trajetória. Esta não consegue conter o riso, não sei se ainda por via da alegria do selo ou pelo contacto do corpo quente da anónima, que, de inesperado, provoca involuntárias contrações musculares da folha dentro envelope. Não se encontrando numa situação completamente desconfortável a republicana usa uma tática conhecida, na gíria popular, por deixa-tetar quetás bem, mas que na linguagem militar, mais formal, é referida como retrocesso manhoso, em que se simula a intenção de avançar seguido de um retrocesso, com o objetivo de experimentar o adversário e convencê-lo que tudo lhe está a correr de feição. Apenas quando está quase em contacto com a parede é que a republicana resolve aplicar a técnica conhecida por chave mista, embora outros se lhe refiram como chave invertida, mas que resulta da evolução de uma técnica antiga, anterior ainda à luta de cartas, quando não havia correio e os povos deste lugar comunicavam por uma técnica conhecida por a passada. No que consiste então a chave mista? Bom, a republicana liberta-se do abraço asfixiante, deslocando a parte inferior para fora, num movimento que tem de ter tanto de rápido como de inesperado para poder passar pelos cantos inferiores sem eles começarem a vibrar, ficando as duas cartas agora encaixadas na parte superior, mas permitindo à carta republicana conduzir a seu belo prazer a anónima, desgastada que está da investida contra a parede, e obrigada agora a recuar, um pouco em contrapé, dada a ligeira torção a que se encontra sujeita. Esta folha está a chegar ao fim, pelo que me vejo obrigado a deixar o estratagema para a próxima.

sábado, 11 de março de 2017

Técnicas – do Duelo

O que agora vos conto tereis vós que ler de olhos fechados. Sim, de olhos fechados. Imaginai que vos deslocais a um outro mundo. Um mundo onde cresceu uma civilização alienígena. Achais que é por terdes os olhos abertos que percebereis coisa alguma? Qual quê? Fechai os olhos e deixai-vos tragar pelos seres que o habitem. Então, se tiverdes sorte, se fordes engolidos da forma certa, talvez possais ter um primeiro vislumbre das leis que o governam. É assim que deveis fazer para ler a descrição do duelo. Mas direis que esta narrativa já se alonga, e que a seguis sem pestanejar. Pois é, mas isso foi porque procurei neste mundo o que mais se assemelhasse ao que pretendia descrever, e quando, por estranho e nunca visto, me surgia algo sem correspondência visível, ou invisível, logo me agarrei a qualquer coisa, pois quando nada há tudo serve. Sim, sei que achastes muita graça ao empernar e à luta de espadas destinatárias. Que vos foi fácil fazer associações, sorrir com malícia. Enfim, perceber. Mas isso foi porque vos falei na linguagem do mundo em que já fostes digeridos várias vezes. Agora acabou. Sinto em mim a rutura da veracidade factual, e, o que temos à nossa frente é uma luta de cartas. Onde já se viu tal coisa? Fechai então os olhos e lede com atenção. As cartas confrontam-se frente a frente e parece-me a mim que evitam tocar-se. Medem-se, enquanto se deslocam em círculo. O som constante e agudo que ouvis é produzido pela vibração dos cantos. É por isso que não se tocam. Estão muito próximas, mas à distância dos milímetros que a dobra dos cantos permite. Sentis também pequenos estalidos, que ocasionalmente entremeiam a vibração? Pois, acontecem sempre que as aguçadas pontas dos cantos se encontram. Nesses momentos têm, simultaneamente, um brusco movimento para trás. Esta é a técnica básica do combate. Esqueci de referir que em cada momento apenas um dos cantos está ativo. Não sei se por motivos congénitos, ou se já fará parte de um princípio que seguem com disciplina. As figuras que desenham acontecem pela alteração do canto vibrante e pelas rotações rápidas que permitem trocar de canto quando este começa a ficar cansado. Apercebo-me que esta manobra é antecedida pela perda de fulgor dos estalidos. Uma outra técnica consiste num toque forte, e seco, dado com o selo. Como podereis imaginar, só pode acontecer quando a vibração está a ocorrer no canto oposto àquele onde foi colocado o cavalinho com a corneta. Sou levado a supor que este será o golpe mais fatal, pois vão alternando o canto que vibra, do lado do selo e dos restantes, em manobras de defesa e ataque. É nisto que estão as nossas duas cartas de um modo um pouco entediante. Podeis por isso continuar de olhos fechados, dado que este me parece ser como um daqueles desportos que apenas pode ser apreciado por conhecedores. Eis que senão quando, num rápido movimento a carta republicana aplica um selo na anónima. Esta abre bem os olhos de dupla surpresa. A do golpe, que parece provocar dor, e a de verificar, pelo valor do selo, que a republicana foi enviada por correio azul.

domingo, 5 de março de 2017

Introspeção – do Duelo

Neste momento em que os oponentes se encontram de novo face a face, a uma distância que permite um interregno narrativo da ação, para a análise da situação de cada um dos adversários, é a altura ideal para se fazer uma introspeção. Introspeção? Questionarão aqueles que, sentindo o cheiro a sangue, reduziram já ao mínimo todas as funções cerebrais acima do hipotálamo. Sim, introspeção. Estamos perante duas cartas possuidoras das suas razões, que não se atiraram ao despique por dá cá esta palha, e que, não obstante eivadas de convicção, ainda se vão interrogando. Ou julgáveis que eram dois pugilistas profissionais em cujos cérebros se repete a palavra mata à cadência de um tambor. Nesse caso sim, a introspeção seria uma atividade inútil, bastaria avaliar a quantidade de sangue vertido por cada um deles e os sinais de vacilação dos músculos. Mas como se pode então proceder à análise introspetiva de uma carta? Deveremos considerar as cartas em si? Ou os seus remetentes? Ou mesmo os seus patrocinadores, já que a anónima não tem remetente e do Dr. Galvão é de encomenda. Para as cartas em si, poderíamos procurar ler nas entrelinhas, mas não creio que estas tenham sofrido qualquer alteração em resultado das lesões do combate havido. Já a hipótese de avaliação dos remetentes não permite uma análise equilibrada e imparcial, dado que a anónima teria a vantagem de poder em qualquer momento ser uma coisa e o seu oposto. Resta-nos, portanto, a introspeção dos patrocinadores, mas também aí pouco se pode adiantar, uma vez que esta já foi feita em o Bispote. Com desalento vos digo, pobre Pinote, ter o seu destino na mão dos Deuses, esses magníficos seres emocionais, senhores da imprevisibilidade que é filha do capricho. Parei desalentado, confesso. Mas foi nesse momento desanimo que me ocorreu como o nosso cérebro nos prega partidas. Põe-se a pensar, a pensar. Ah, como ele gosta de pensar. Então, não vistes perante os vossos olhos as cartas a pelejar? Vistes porventura o Sr. Marquês na vozeirada republicana da carta do Dr. Galvão? Estaria por lá talvez a sua emoção, mas os ideais eram do Dr. Galvão, e os toques da arte de combate da carta ele própria. O mesmo se pode dizer da anónima, não se lhe pode negar a presença da Sra. Marquesa e do Hilário Mendes, mas é ela que ali está, forjada na luta. O meu cérebro abre-se maravilhado a este novo paradigma filosófico. Sim agora tudo faz sentido. Estou certo que poderei finalmente fazer uma análise introspetiva de cada um dos contendores. Do lado esquerdo temos a carta anónima, quase como chegou à refrega. Não se lhe nota uma dobra, quanto mais um rasgão. Já a carta do Dr. Galvão está semiaberta, com a folha um pouco de fora, revelando alguns dos seus argumentos, deixando-os ao livre comentário, senão à galhofa, da populaça. O estado do envelope também não é o melhor, devido às manobras aéreas a que foi sujeito, revela a possibilidade de alguma fragilidade estrutural. Mas o pior é o bigode chinês que provoca o riso de quem observa e enfraquece a sua força anímica. Antes caísse.

sábado, 4 de março de 2017

Valentia – carta do Dr. José Galvão

Não, as palavras que porventura acabastes de ler não são o último produto de um cérebro no seu momento de estertor, não. Não são a enunciação das encruzilhadas que um moribundo não percorreu, como se a última perceção da vida tivesse a forma de uma árvore invertida, não. Pensastes, mas não são. Ou julgáveis que uma guerra por entreposta pessoa pode ser mais do que um entretém. O que esperáveis de uma confrontação de destinatários? Acháveis que o trespassar do Capitão Simões era um ponto final e poderíamos avançar já para o Perdidos e Achados, que como vos disse espera à porta pela sua vez. Pois é, menosprezais o malvado do Sr. Stern, que insiste em nos atormentar, enquanto não parte ele também. E, ironia das ironias, comentava-se que o cérebro do Sr. Capitão Simões já não estava a funcionar há alguém tempo. Que ele já era só olhos. E que quando a Hilário Mendes atravessou o O de Capitão, sim o O de Capitão, não o O de Simões, nem sequer o O de Armando, ós estes bem menos letais, atingiu um órgão vital entrando pelo cérebro adentro. Mas como vos digo a causa da morte não foi cerebral, foi visual. E se essa foi a causa, sobre a consequência posso-vos dizer que quando chegou ao chão, solta da mão do Capitão Simões, a carta do Dr. Galvão levava o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões como um penduricalho, um muito desequilibrado bigode chinês, agarrado ao sobrescrito pelo O fatal. Peço-vos, pois, que mantenhais esta imagem para o resto da contenda. E se ela terminará na meia folha que resta, nada vos posso prometer, dado que já várias vezes o afirmei e agora percebo que o escriba é o mais passivo dos seres. Só olhos, como o ido Capitão Simões. Imaginai então a carta a aproximar-se do chão, o ões jazendo já no soalhado encerado do escritório, quando num ato de valentia, fazendo das tripas coração, se retira ao humilhante destino, evita com maestria o corpo em queda do Capitão Simões, tudo isto sob a fortíssima vibração resultante da perturbação aerodinâmica provocada pelo bigode chinês, e se coloca frente a frente com a carta anónima. Esta, que tinha sido industriada a se manter calada, não se conteve perante a visão de um sobrescrito com o destinatário descaído e disse com um riso escarninho, parece o mancha branca. Aqui conto apenas o que se passou, não sei a origem da referência, se pertencerá a algum imaginário pessoal, se possuirá alguma relação com o mancha negra, um personagem malvado de banda desenhada, mas que tocou fundo na carta republicana tocou, de tal forma que puxou das suas origens pré-burguesas e gritou bem alto, o meu pai é um homem do povo, simples mas honrado, podeis violar a correspondência, gostar de emporcalhar-vos com a observação das entranhas, mas sabei que ao pé dele não passais de seres viscosos. Bom, meus prezados leitores, não sei o que estás a pensar, mas eu, que procuro ser o mais imparcial relator, não pude deixar de murmurar um, à valente. E digo-vos que a carta anónima não ficou indiferente, começando a levantar os olhos, mas refreou-se, a tempo de evitar perder de novo a compostura, e fez-se sonsa.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Guerra – de Razões

Há obras que o melhor é não as começar porque nunca mais acabam. Deixei-vos com a carta do Dr. Galvão tombando em rodopio e agora vejo-me na obrigação de esclarecer se estava ou não Pinote acompanhado, e se não estava, se foi o Dr. Galvão induzido em falta ou foi ele próprio que pisando a ténue linha da ética profissional inventou esse facto, e se foi induzido em falta, quem o induziu e com que propósito, e terá esse alguém sido também induzido ou inventou ele a história, e por que razão e com que objetivo, e se foi o próprio Dr. Galvão que criou o facto, então porque o fez, porque arriscaria a sua reputação por uma criada e um comunista, ainda que patrocinados pelo Sr. Marquês, ou será que já tinha planeado escusar-se com algum personagem menor da nossa história, um Mouco que disse que ouviu o Mouro dizer, e se Pinote estava acompanhado então porque é que este narrador vos omitiu esse facto, e se assim foi qual a razão, qual foi a sua intenção, e será que se irá escusar em questões de estilo literário, de fluidez da narrativa, de coerência concetual dos cenas e seus cenários, sim, claro que a corrida do Pinote monte abaixo perderia muito do seu teor épico se tivesse acontecido no meio de uma multidão, em que não seria claro se Pinote avançou por determinação própria ou se foi a isso empurrado pela turba, ainda que quando se chega aos movimentos de massas a própria determinação perde a individualidade, ou terá este narrador intenções de endeusar, de criar modelos para vender ideologias, sejam elas do individual ou coletivo, ou será que a solidão forçada de Pinote aconteceu devida a uma sua obsessão infantil por sapos, esses improváveis seres, redondos e de olhos esbugalhados, os antepassados concetualmente mais próximos das vacas, ou não andassem ambos no mundo a pastar, ou então este nem sequer é um problema pois a carta do Dr. Galvão foi escrita com o cuidado de um advogado por forma a não deixar claro se Pinote estava acompanhado no momento da prisão, pois se um companheiro afirmar que Pinote foi levado isso não quer dizer que seja um testemunho direto, pode ter sido um guarda que chibatou, ou o Mouco ter deixado cair alguma frase na taberna onde foi lavar o suor da porrada em vinho, mas se é assim, porque é que Deolinda andava à procura de Pinote, indo todos os dias à vila, será que isso nunca aconteceu na realidade, que foi um desvio poético do narrador, uma desculpa para um cântico, e se não estava na carta do Dr. Galvão porque é que o Capitão Simões aceitou como verdadeira a afirmação do Hilário, será que não leu a carta com atenção, ou na confusão da batalha não teve a frieza de avaliar cada uma das palavras de Hilário, talvez o seu torpor burocrático o tenha incapacitado a desviar-se das mais óbvias estocadas habituado que estava a legislar em paz, e se o Pinote nunca existiu, nem o Marquês, e muito menos Deolinda, que foram inventados porque a Joaninha ameaçava tornar-se numa personagem enfadonha, afogada na luta de classes, e nada melhor que ir buscar um passado cheio de sobressaltos para dar um salto em frente, e se de facto Pinote existiu mas não era comu

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Afocinhados – Exmo. Sr. Hilário Mendes e Exmo. Sr. Capitão Armando Simões

Sei que estais pendentes do desenrolar da contenda, que do resultado já todos nós sabemos. Por isso me apreço a pegar na pena e peço humildemente ao Deus dos escribas que me ajude, que não comece a colocar à frente de cada palavra uma outra, que afaste de mim o diabo do Sr. Sterne com as suas achegas, derivas, e, ai meu Deus, ordinarices, para que esta página baste. Não vos vou recordar onde ficámos, pois tenho a certeza que não preciso. E também espero não defraudar as vossas expetativas quanto ao desenrolar dos factos, que muitas certezas já acumulastes para vos verdes agora abandonados. Sigamos, pois, em frente, armados das nossas convicções. Sim, frente a frente estão afocinhados o Exmo. Sr. Hilário Mendes e o Exmo. Sr. Capitão Armando Simões. Escritos a letra bem diferente. A letra grande e bem desenhada do Dr. Galvão ali enredada com a letra pontiaguda da mão anónima. Em extremos opostos, os Exmos. como punhos e o Srs. como guardas de duas espadas que se digladiam. A do Capitão Simões é mais comprida, o que, parecendo uma vantagem, não é. Já lá vão os anos, e a cadeira e o trabalho burocrático, retiraram-lhe a habilidade do manejo de uma arma deste porte, atrapalhando-o mesmo um pouco, tendo a lâmina Capitão Armando Simões de ser movida com cautela entre papelada, armários, secretária, tinteiros e mata borrões. Já o seu adversário pode tirar partido da manobra ágil que a pequenez de uma Hilário Mendes proporciona. O Capitão Simões é discípulo das manobras disciplinadas em que os exércitos se posicionam com uma certa idiotice coreográfica. Por isso, Hilário sabe que para vencer basta envergonhar, pois o que a disciplina mais teme é a descompostura. Quando Hilário entrou na sala o Capitão Simões empertigou-se confiante como se envergando o seu uniforme de gala. Sente-se Hilário, disse com o desdém natural dos que, sabendo de antemão o resultado, gostam de tratar o adversário com complacência. O que sabe o Hilário do paradeiro do Joaquim Pinote, desfere o Capitão Simões, empunhando na mão enxuta a carta do Dr. Galvão. Hilário sente o vão desferir da estocada e responde calmamente, o Pinote foi preso, como o meu Capitão ordenou. Está preso!? Atira-lhe o Capitão em tom crescente, marcando o início das hostilidades com uma intensa salva de artilharia. Preso!? Dispara uma segunda salva devido ao gosto pelo estrondo. E porque não fui informado, vozeira por entre o fumo. Hilário aproveita para mudar de posição colocando-se lateralmente e observando o rosto helénico do Capitão Simões. É daí que resolve desferir o primeiro golpe. O que está na carta do Dr. Galvão não corresponde à realidade, quando apanhámos Pinote ele não estava acompanhado. O Capitão Simões é duplamente surpreendido, pelo ângulo da estocada e pelo alvo escolhido. A carta vacila na mão. Como sabe o que está nesta carta, pergunta-lhe no sobressalto de um exército que teme pela sua estratégia. Tenho ordens de Lisboa para ler toda a correspondência. A lâmina Hilário Mendes trespassa Sr. Capitão Simões enquanto a carta do Dr. Galvão tomba às reviravoltas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Duelo – de Morte

Prolonga-se esta narrativa para além do que tinha sido imaginada, urge, pois, pôr-lhe um final, a bem de outras que clamam à porta pela sua vez, gritando, quando é que tem fim esta novela. Sendo eu um ente fraco à solicitação alheia, principalmente quando carregada da necessidade, lanço-me à obra. Pensei, pensei, e conclui que o melhor é terminar com um duelo de morte. Mas já ouço as mesmas vozes que me impunham o fim rápido alegar que duelo está bem, mas anunciar já que é de morte retira-lhe a tensão dramática. Ah, lamentais-vos, mas afinal seguíeis com atenção! Pois, então, mais vos digo, vai morrer a alegria e a vida e vencer a ignomínia, e de resto, de forma bem traiçoeira. Enlouqueceu, dirão, deitar assim pela janela um tão árduo enredo. Descansai que ainda não é desta, pois sei bem que ao lerdes duelo de morte logo deitastes os olhos ao fim da página. Sim, morre o ideal republicano, vencido pela sua fraqueza, o gosto pela vida. Triste lição esta. Mas tantas estocadas tenho para relatar que devo com presteza começar. Quem se enfrenta? De um lado, está a carta do Dr. Galvão ao Capitão Simões, do outro, a carta anónima de que, suspeito, sabeis a origem e o destino. Qual o objetivo do duelo? A liberdade de Pinote. Quais as armas escolhidas? As mais naturais para os contendores: o envelope e a folha. Quais os golpes permitidos? Bom, aqui foi difícil chegar a um acordo. De início procurou-se que não houvesse golpes baixos, mas um parecer do Dr. Macedo, juiz na comarca, foi de opinião que entre cartas não há golpes baixos. Baseou o seu entendimento no facto de não fazer sentido dizer que uma carta deu uma joelhada a outra, pois as cartas não possuem joelhos, nem partes sensíveis onde aplicar tal golpe. Com certeza uma opinião formada mais na leitura de leis do que de correspondência. Mas assim foi decidido, e as duas cartas enfrentaram-se sabendo que dali apenas uma sairia viva. Começaram executando uma dança giratória, medindo-se, mantendo a distância. A carta republicana sentiu uma profunda repulsa ao ler o endereço da sua adversária, Exmo. Sr. Hilário Mendes, não conseguindo conter as palpitações provocadas pela revolta das palavras e frases contidas na sua folha. Logo aí a anónima partiu em vantagem. Devido à emoção, foi a carta republicana quem esboçou o primeiro ataque. Levantou a aba e deixou sair um pouco da folha para que a anónima ficasse ciente dos seus valores e princípios. Vã carga esta sobre uma anónima. Como resposta fez-se dengosa, pois sabia que a gentalha republicana é atreita aos prazeres da carne. Estes movimentos ondulatórios provocaram grande desconcerto. A folha, cheia de palavras, resistia, mas o envelope, concebido para a rua, não ficou de todo insensível. Tirando partido da vantagem, a carta anónima chega-se à republicana, e, desculpe-me o Dr. Macedo, a melhor palavra que encontro para descrever este golpe é, empernando. Ah, miséria, que ainda não é desta que consigo acabar. Esperem mais um pouco, que a vós já regresso com mais uma página da refrega.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Visita – Hilário

São vários os tipos de visita. A visita de cortesia, feita ao princípio da tarde para não incomodar, que se pode deixar ficar para o lanche, mas nunca para jantar. A visita de negócios, feita com um objetivo mútuo, prolonga-se enquanto necessário, terminando assim que qualquer uma das partes o decida. A visita de agradecimento, quase sempre curta, cumpre um ritual para que seja registado que não se fica em falta. A visita de amizade, que entra pela casa adentro, abrindo-se às intimidades. A visita de apresentação, onde um fala e o outro observa, e é o introito de futuras visitas. Mais haverá, tantas quantas as etiquetas, mas estas chegam para o que nos traz aqui, a visita que Hilário Mendes fez à Sra. Marquesa. Um pouco inesperada. Não é que não houvesse no passado um historial sobre o qual se pudesse desenhar o protocolo desta. Eram frequentes as idas do pai de Hilário a casa dos Marqueses. A mais das vezes para receber instruções ou dar conhecimento. Uma variante pobre da visita de negócios, em que apenas um dos lados a pode dar por terminada. Claro que também houve visitas de agradecimento e apresentação. Algumas na presença de Hilário, como quando o pai foi apresentar o casal recém-casado. Mas todas elas diferentes das visitas que o próprio Hilário se habitou a fazer. Não aos Marqueses, mas às casas dos oposicionistas, onde quer que eles se encontrassem, como foi a subida ao monte para visitar Pinote. Visitas onde a urgência da necessidade não dá tempo à cobertura da etiqueta. Por isso, quando a Sra. Marquesa soube do pedido de Hilário Mendes para ser recebido, não pôde deixar de ficar a matutar. Procurou decidir sob que protocolo se deveria reger. E nada melhor que o passado para definir as regras de correspondência de dignidade. Mas também sabia da recente promoção de Hilário, que o tinha tornado num homem respeitado, até mesmo um pouco temido. Por outro lado, o pedido era-lhe diretamente dirigido, não incluindo o Sr. Marquês, o que sugeria a exclusão da visita de cortesia ou mesmo a de negócios. Andava por isso apreensiva, de modo que quando Hilário entrou resolveu deixar-lhe marcar o tom da conversa. Os meus respeitos Sra. Marquesa, e os meus agradecimentos por me receber, disse Hilário mantendo uma distância circunstancial. Como está Hilário, como está a sua esposa, respondeu-lhe um pouco tranquilizada, e acrescentou, muitos parabéns pelas suas novas responsabilidades. Muito obrigado, respondeu com uma ligeira vénia, sabe que aqui terá sempre alguém pronto a servi-la. A que devo este prazer, questionou-lhe a Sra. Marquesa. Venho agradecer-lhe a dedicação que a Sra. Marquesa demonstra pela Nação, disse Hilário mantendo a cabeça semi-fletida e avançado meio passo enquanto procura os olhos da Sra. Marquesa. Não tem de quê, sabe que nesta casa temos a maior consideração pelo trabalho do Senhor Doutor em prol de Portugal. Venho comunicar-lhe em primeira mão que apanhámos o Joaquim Pinote, disse Hilário acercando-se da Sra. Marquesa. Obrigado, juntou-lhe com intimidade na voz.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Poema – Marquesa

Quem nunca sonhou verter para a folha um pouco da sua alma. Quem nunca sonhou ser musa de poeta. Quem nunca passou um mau bocado. Quem nunca procurou na pena uma companheira. Quem nunca procurou o consolo num poema. Quem na noite escura não acendeu a luz sobre a folha branca. Estas são os princípios que regem a escola da poesia. Já lá vai tempo desde que a frequentei. Era novo e sonhava, como todos nós, vir a ser possuído por um génio, ficar para a posteridade. Somos compelidos, por isso, a percorrer mundo, quase sempre de noite. Noites de lua ou sem ela, como deve ser. Noites de tempestade, à procura do momento mágico em que um humano e a natureza se conciliam num ato singular. Foi por isso que ao ver a Sra. Marquesa acordada noite fora me fui colocar à sua mercê sobre a escrivaninha. Ali estive algum tempo, atarracada, à espera que notasse em mim. Andava agitada a Marquesa. Especialmente pela madrugada. Foi ainda antes da aurora que o rapaz regressou com a cesta cheia, de onde vem tão cedo que se não vislumbra a hora. Da janela do meu quarto presencio este enigma, sabe Deus porque estou acordada se nada deveria acontecer lá fora. Mas ao que os meus olhos veem não devo correr a cortina, pois se Ele me quis desperta é porque esta pode ser a minha sina. Quem dele se desobriga mais tarde ou mais cedo se afadiga, no remorso ou na pena por não ter sido digna. Podem de mim mal falar mas sou eu que decido onde coloco a pena, mesmo nesta carta anónima que escrevo com temor, mas sem problema. Mas porque sou eu assim, se calhar não devia, mas se de meu amo sou escrava a Deus sou obrigada. Coitada dessa outra mulher de criança ao peito, devo por ela fazer aquilo que não me diz respeito. Se Ele aqui me quer, não sou propriamente eu que o faço, mas o próprio Senhor isso me poisa no regaço. Escreve Deus por linhas tortas e eu dele sou a espada, que neste mundo faz justiça, quando poucos mais se importam. Mas se a meu senhor fujo foi porque ele não me quis agarrar, que muito pronta estava eu para lhe agradar. Que culpa tem esta outra mulher que não seja ter vindo ao mundo no lugar errado e num quarto sem fundo. Mas porque disso te preocupas, vede como eles bailam, ignoram o poderoso como cães sem laia. Serão gente, serão dele filhos, mas só na aflição recordam que têm alma dentro da carne calva. Anda ela pela casa como se não fosse minha, por isso me trespassa uma dor bem comezinha. Perdoai-me meu Deus por cumprir a vossa vontade, embora saiba que possa estar a pecar se fosse noutro lugar. A este palácio vim parar, não sei se por minha vontade, mas foi com certeza por razões de lealdade. Pelos quadros na parede suspeitei com aflição que não serei a primeira a que as coisas não correm de feição. Que posso meu amo fazer para quebrar esta sorte, se o bem só por si parece trazer mais dor do que a morte. Deixai, deixai as coisas ocorrer, pois o mundo é como a roda onde se coloca a criança que nasceu sem norte. Também eu me sinto para aqui perdida, ainda que na genealogia me seja fácil encontrar de quem sou a preferida.