domingo, 22 de outubro de 2017

Com ele ao colo – Joaninha

Joaninha quase viu Zalo nascer. Quase, pois um parto não é espetáculo para uma criança de oito ou nove anos. Nem para ninguém, dado o seu desfecho incerto. Por isso, se espera que a natureza faça o seu trabalho, que dê vida ou a retire. Por isso, não é a chegada da hora que trava os homens de irem aos seus afazeres, submissos ao destino. E o que sai de entre as pernas da mulher é visto com a desconfiança com que se olham para as promessas. Que vingue primeiro, que mostre do que é capaz, antes de começar a ser levado a sério, alguém com que se possa contar, para trabalhar e para procriar. Por isso, a mulher é deixada só, ao cuidado de outra, mais experiente, de uma experiência contada no número de partos, pouco interessando do seu sucesso ou insucesso, mais como celebrante do que como resultado de uma qualquer capacidade técnica. Deolinda foi tomando essa função. Ter o homem na prisão emprestava-lhe a pureza celibatária requerida para a consagração da monstruosidade com que a natureza se manifesta nestas situações. A limpeza do sangue do corpo da criança, a recolha das entranhas esponjosas que tombam no chão, por entre um bailado de moscas exultantes com o que todas as manifestações de vida lhes profetizam. Joaninha quase viu Zalo nascer porque esteve do lado de fora. Recorda-se que Alzira blasfemou contra toda a criação e jurou que nenhum homem lhe voltaria a provocar uma dor tão tardia. Quando chegou a sua vez de pegar nele ao colo, surpreendeu-se com o seu aspeto engelhado. Não era bonito. Veio ao mundo com ar de bicho façanhudo, parecendo ter sido moldado pelas imprecações da progenitora, como se de uma primeira manifestação de amor filiar se tratasse. Há em certa fealdade uma postura de desafio, de régio isolamento. E por isso, Joaninha, achou-lhe graça. Na ausência do pai, vinha cultivando o gosto pelo prático, procurando remover todos os vestígios de estética, que via como uma afronta ao cárcere e à reclusão. Nas escassas visitas que lhe fez, nunca viu o Pinote atraente que regalava os olhos das mulheres, centrava-se antes na sua determinação e vontade de lutar, que são avessas a contemplações. As exaltações primordiais de Pinote foram acamadas na prisão sob as rotinas diárias, a partilha com os camaradas e as demonstrações de existência com os guardas. Trazia assim na memória um pai escuro, de corpo escorreito pela perseverança, de palavras escondidas, como os doces guardados à chave no armário, que se comedia na demonstração de afetos e lhe falava de uma forma lógica, por frases marcadas por antecedentes e consequentes bem explícitos, exemplos claros, escolhidos a dedo, como se de exercícios pedagógicos se tratassem. Terminada a visita ficava com muito tempo para cimentar a lição. Por isso, quando depois dos gritos de revolta de Alzira recebeu Zalo ao colo, com o seu rosto comprido, de faces assimétricas, olhos pequenos e fechados, que olhavam com desconfiança fugidia, e longos cabelos pretos e sebosos, viu um bicho acabado de sair da toca, e recordou-se de Pinote.

domingo, 15 de outubro de 2017

Minorca – Zalo

O mundo é feito de perspetivas. Assim visto de baixo, o minorca Zalo parece enorme. Nos seus cinco ou seis anos, junto ao agachado Zé, depois de ter dito o que lhe parece ser a derradeira fala, aquela que os grandes atores anseiam poder dizer. Uma fala que agarra plateias, que as afunda nos assentos estofados em que assistem ao espetáculo depois de jantar, de estômago cheio, quando a sangue deixa o cérebro, abandona as preocupações, para rondar os sucos digestivos, como uma matilha de coiotes uma vaca moribunda, ficando a mente vazia, absorvente de personagens, de ambições, de poderes, de amores, de ciúmes, de batalhas, de triunfos, uma porta aberta para a vida dos outros, para a vida pela libertação da vidinha. Por isso Zalo, o minorca, é gigante. Zalo o filho de Aires, o cabeça no ar, o protegido da Sra. Marquesa, vá-se lá saber porquê, talvez porque o tormento procura a expiação, agarrando-se à terra, como um s que numa ponta cerra o chão e na outra o esticador, lançando as fundações sobre as quais se fazem as obras. Por isso, aconteceu um milagre, que é um resultado para o qual não se encontra causa nas ações que o precederam, como é que o Aires encontrou a Alzira, uma mulher prática, uma mulher rente ao chão, sem educação, boa a fazer contas, invisível para o imaterial. Dizem que foi a Sra. Marquesa que a viu, que lhe falou, que lhe sugeriu o Aires, que lhe prometeu o dote, o rebanho do Sr. Marquês. Dizem que Alzira pediu uma parte do leite para fazer queijo e direito para o vender, para arrebanhar algum para si. E não é que o Aires não lhe agradasse. As mulheres terra a terra acham graça aos distraídos, àqueles que não dão com o caminho, pois sabem bem o que lhes falta a elas, e por reconhecimento tornam-se deusas da fertilidade, redondas, à volta de uma panela negra cheia de sopa. Por isso Zalo é gigante ao pé do Zé que mal o conhece. Sabe que é um miúdo da terra, filho do Aires, o pastor do Sr. Marquês, e é tudo. Mas agora, de cócoras, nesta perspetiva, sente-se minúsculo, ele, Zé, o caçador, o neto do Dr. Galvão, homem respeitado na vila, até pelos opositores políticos, pois um meio pequeno não permite demasiados antagonismos, ou não casou o seu filho, o pai do Zé, com a filha de um grande proprietário, é verdade que ela também aderiu às ideias revolucionárias, que andam ambos fugidos em França, guedelhudos, dizem os familiares daqueles que também para lá foram por razões mais prosaicas, razões práticas, e, ainda que a milhares de quilómetros da terra, não se deixaram contaminar pela indiferença, filha da liberdade e da igualdade, e por isso comentam, vi por lá o filho do Dr. Galvão e a filha do Sr. Comendador, coitados. E há melhor indício da chegada da revolução do que quando os oprimidos, em vez de se revoltarem, se compadecem da decadência dos senhores, os medem pelos mesmos valores com que são discriminados, o aprumo, a aparência, o decoro, a disciplina, a continuidade, os pilares da instituição conservadora. Por isso, o Zé, com os calções na mão, embalando a pressão de ar, sente-se nu, aos treze anos, perante Zalo e a revelação que sai da sua boca.

sábado, 7 de outubro de 2017

Uma questão antiga – Zé

Encoberto pela árvore, Zé tem o olhar distante de quem perscruta o horizonte. Escolheu um cabeço de onde pode antever a aproximação de alguém e tirar partido da posição de cócoras. Não era este o plano com que saiu bem cedo da casa dos avós pela manhã. Com a pressão de ar, trazia o destino de alguns pássaros em mente. O despertar do sol, e o ar fresco, torna-os incautos em chilreares e saltos de ramo em ramo. Zé tem boa pontaria e cada sortida é combinada com o fritar dos pequeninos na tasca do Manel, que a avó não é fã de carne doce, nem pretende favorecer os dotes de caçador do neto, para além de ter horror a sangue, deixando o degolar e depenar da galinha à criada, com ordem explícita que seja feita longe da casa e avisada com antecedência para não se ver surpreendida. Foi o avô que lhe comprou a arma, em divergência com a mulher, e acertou com o Manel que tratasse de converter a sorte do miúdo em feitos, partilhados e louvados, que o reconhecimento social dos atos de um homem arma-lhe o orgulho e alenta-lhe a determinação. Por isso, quando pela primeira vez saiu de casa com o cano reluzente de novo, lá estava o tasqueiro, famoso na terra pelos seus petiscos, e não posso deixar passar sem enaltecer a carne de porco do alguidar, a elogiar-lhe o garbo e oferecer-se humildemente para adornar as suas realizações de caçador com azeite e ervas. Foi assim, com a tranquilidade de quem sente a conjugação dos astros, como a personagem central de um quadro caça, que Zé partiu e não dececionou. Ganhou fama como atirador e, entre os miúdos menos abonados da sua idade da terra, passou a ser alvo de admiração e inveja, pela pontaria e pelo fuzil. Estes, limitados à caça com custil, a qual, ainda que possa trazer resultados mais frutuosos, especialmente quando dispostas em recantos fresco à sombra por forma a que as agúdias agitem as asas, não dá azo a façanhas nem a narrativas. E isso faz toda a diferença. De que se pode gabar o que monta a armadilha e depois tem de confiar que a sorte lhe lá coloque a presa? E, se, num momento de desespero, trouxerem à baila que também batem o terreno quando com a sachola procuram o formigueiro. E, de que é necessário olho para distinguir aquele que as tem com asas. Ou, da arte de escavar um marmelo onde as arrolhar, para engordarem e ficarem viçosas, apetitosas para os olhos dos pássaros. Quem se arriscaria a comparar os dedos a correrem abaixo acima o cabo de um pau levantado alto para bater com força na terra com a delicadeza de toque de dedo dirigido pelo olho certeiro. Por isso, o que fica ao longe de cócoras observando o aproximar do pássaro, sofrendo com as suas hesitações, sonha com o que tem no dedo o poder de por fim a todas as indecisões. Mas hoje não foi assim, apanhado desprevenido, alguma coisa que comeu na noite anterior, ali está como um índio de guarda ao acampamento, com a espingarda entre os braços e os calções em baixo, quando houve uma voz que lhe diz, não foi o pinote que matou o capitão simões. Assim, tudo em minúsculas e na voz vacilante de miúdo imberbe.

sábado, 30 de setembro de 2017

da união do céu e da terra – D. Eduarda e Catarina

Na clausura dos sentidos, vedados por frestas, de uma virgindade decantada pelos olhos, pela pele, na excitação adolescente pelas chispas do exterior, quase sempre imaginadas, mas abalançada a supor maravilhas, o rebentar dos membros, o rasgar das raízes, o céu e o inferno, submissões e exaltações, alma e corpo, dilacerados por longas guerras fratricidas, do bem e do mal, da energia e da razão, da astúcia e da ira, do leão e da raposa. Dependurados de uma raiz de árvore feita céu, debruçados sobre o abismo, observando as profundezas da terra, onde os corpos ardem em vida, arrebatando-se, julgando-se, evocando-nos com inveja, com vileza, atribuindo-nos a responsabilidade pelas suas decisões, queimando-se os corpos com a chama da alma, espiritualizando-se os cadáveres. Um mundo aos tombos, onde a poesia vira lei, racionalizada, penteada, compreendida, dividida em partes, distribuída em pequenas doses de moral, tomadas com os olhos fechados e a respiração suspensa, punindo o corpo, sacralizando. Só a união do céu e da terra salva. Infinita, liberta dos sentidos, extravasada, sem canais comunicantes, reconstruindo-se sem entendimento. Cada um por si, ignorando-se, acasalando ocasionalmente, em silêncio, porque o paradoxo é filho da comunicação. O céu leva um vestido de noiva, vaporosamente branco, deslocando-se lentamente com realeza, pairando, deixando-se penetrar pelos olhos dos convidados, sem vergonha, protegido por um manto núveo. A terra carrega o almofariz onde se mói um estúpido envolto em trigo, germinando monstros como ele, descarados, filhos da astúcia, primos da ira, brincos de escárnio, sandálias de bosta, untados de fluidos, percorrem os caminhos na alegria da exaltação dos cheiros. Um noivado desfeito em divórcio anunciado pela presunção dos sábios, que atiraram o céu lá para cima, um céu roubado à terra, distanciado, limpo, perfumado, lugar dos puros, dos inócuos, dos de sentidos fracos. Sábios esses que de seguida compraram o bilhete de ida para o destino inventado, com asceses, jejuns e caridades. Trazê-los de volta é missão do poeta, despertar-lhes o odor, devolver-lhe o corpo. Para isso prepara o casamento, um festim onde as frestas dos sentidos sejam trespassadas pelo estrondo das trompetas, as escadas lançadas às muralhas, os sentidos degrau acima, infiltrando-se pelas narinas do céu, recordando-lhe as entranhas, levantando-lhe a saudade da terra, porque de uma boda se trata. Do recontro soltam-se as águas, fortes torrentes dissolvem o castelo, levam as escadas na enxurrada, enchendo as terras de delícia, não de castigos. E se da cópula saírem diabos e anjos, irmãos de sangue para se guerrearem, então se restabelece o prazer infinito da energia, porque tudo o que vive é sagrado. Por isso, eu, que não tenho a habilidade do circunstancial, apenas consigo descrever brevemente a visita que, naquele domingo, depois da missa de D. Eduarda, Romeu fez, com Catarina, a sua mãe para almoçar. Sogra e nora olharam-se cúmplices, e Romeu estava cintilante.

sábado, 23 de setembro de 2017

See My Ships – Afonso

Tenho pavor à desordem. Arrepia-me a desorganização. Ver cada coisa para seu lado, à deriva no mar da vida. Esta batalha pode bem ser a história da minha existência. Juntar cada um, atribuir-lhe uma função, pois o vazio trespassa os faltos de responsabilidade, por muito pequena que ela seja. Se ao médico digo, cura e salva, ao sem abrigo atribuo uma caixa onde se enviar nas arcadas de um prédio. Deixe estar patrão que comigo aqui ninguém lhe mexe no carro. Mas não é fácil. Têm em si o frenesi da ilusão da liberdade. Que sozinhos são capazes. Foram biliões de anos ao deus-dará. Ficou-lhes na pele. A aragem do lado de fora levanta-lhes suspeitas, a que chamam intuições. Pressentem que esta ordem, por muito forte e una que pareça, tem dias. Por isso ando nesta azáfama, ora os presenteio com incentivos, pequenos apertões no lóbulo da orelha, ora lhes descarrego o meu mal-estar, para que sintam que isto não é o da Joana. Uma luta diária, como disse, cansativa, por vezes apetece-me atirar a toalha ao chão. Ai, é isso que querem. Vão, abandonem o bom porto, sigam em direção ao mar aberto. Não quero saber. O que vale é a máquina a que Afonso se encontra agarrado. Mantém-nos, a eles, presos por um fio, à mercê da mais pequena intempérie, e a mim, testemunha silenciosa do descalabro deste corpo. Percebo agora os ditadores bem-intencionados ao verem a sua obra vandalizada com palavras de ordem. A baralhação da troca de nomes. Percebo que se retirem, que observem, que padeçam na amargura de uma satisfação. Que morram num sonho, em que veem implorar, meu Deus tem misericórdia de nós. Que implorem por eles, que implorem por mim. Que, finalmente, convictamente, juntos construam pirâmides. Gigantescos frigoríficos onde metem o corpo impregnado de óleos, para que todos nos salvemos. Que revelem a sua falta de visão. Que não podem viver sem invólucro e se agarrem ao papel que lhes atribuí por amor à ordem. Um amor bem abstrato, do qual são uma parte residual. Quaisquer outros átomos serviriam. Tão pequeninos, julgam-se grandes, sempre com o olho no carro, senhor doutor estão ali uns encostados ao seu mercedes, dizem com a satisfação da missão cumprida, carregando no mercedes. Que me adorem e Te ignorem. A Ti. Tu que, como eu, amas a ordem acima de tudo, pai da criação. Salva-me a mim, que fui feito à Tua imagem. Sei que não é em carne, esse recipiente circunstancial. Perdi a obsessão pelo corpo, a mania de o seguir constantemente, agora que se esvai aos poucos, que emite sinais cada vez mais fracos. Preparo-me para os ver partir, órgãos, células, moléculas, cada um na sua vez, cada um a seu tempo. Apronto-me para o desapego, para o fim das emoções baratas. Espero ser impregnado da mais pura lógica, resplandecente, sem a interferência das extremidades, quando começo a sentir um apagão avançado das alas para o centro. Não tenho tempo, nem corpo, para sentir medo. Estupefacto ouço o médico comentar, agora só mesmo um milagre. Enquanto a escuridão avança, só tenho tempo para dizer, salva-me.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tombado – Catarina

Vou direto ao assunto. Se um homem casado anda com uma, duas, ou mesmo três mulheres, o que a sua mulher, a de direito, deve fazer é, quando chega a noite, quando já estão ambos no quarto, dizer-lhe, então o que tu queres é isto, e passar a noite a fazer sexo até que ele tombe de cansaço. Não quereis acreditar. Pensais que estou a brincar. Que falta de amor próprio o desta mulher. Sei bem o que vos vai pela mente. Digo-vos que não passais de uns românticos. Quereis porventura que ela faça a uma cena, que o encoste à parede, que grite primeiro e chore depois, ou o inverso, tanto faz, uma vez que o resultado é o mesmo, ele vai sentir-se atacado, refazer a sua estratégia, fazer uma pausa, um interregno, para tomar folgo, para retomar posições, e depois um dia voltar ao mesmo, mais robustecido, melhor preparado, para o ataque e para a defesa. Ou então sugeris uma atitude mais extrema, que tudo acabe logo ali, e se vá embora, pois que coisa maior existe do que o eu, e o mais sublime é que ele seja amado por outro eu, e de dois eus fazer um só. Mas que maior idiotice essa, que pieguice, ou julgais que essas outras mulheres também não se julgam imbuídas do seu eu, e como tal com os seus mesmos direitos. E o que pensais que aconteceram aos biliões de eus que já passaram pela face da terra, não só de seres humanos, mas também de primatas, cães, gatos, e mais não digo para não vos ofender, que sois uns humanistas, sempre a puxar ao sentimento, pensais que são diferentes do vosso, que cada ser é único, que foi criado para diferir da espécie, não percebeis o contrassenso. E se não vos satisfazem os argumentos de ordem filogenética, apresento-vos os da mais básica estratégia militar. Há maior sofrimento do que aquele a que se autoinflige um exército em retirada, à mercê das constantes escaramuças, feitas, quase por graça, pelas forças inimigas, vamo-nos a eles, sim, mas deixa só acabar de beber o café, e já agora ainda vou comer um mil-folhas, sim é com a boca doce que vos dizimam, de vagar, por capricho, já me encheste a vida e agora matas-me o fastio, e lá ireis cair um a um, e nem sequer sonheis que sereis bem acolhidos onde quer que vades, pois um exército em fuga provoca maior pânico que o inimigo, é imprevisível, semente de desordem, de revolução, e cito-a no pior sentido, na sua instabilidade orgástica estéril. Muita parra e pouca uva. Ainda direis que isso pouco vos interessa, encontrareis alguém e que o importante é o afeto, mas isso é coisa de velho, de acomodado, e um dia quando perante os vossos olhos passar algum adónis iries desdenhar primeiro, revoltar-vos depois, maltratá-lo então, e sofrer por fim. Por isso vos digo, fechai-vos com ele no quarto e exauri-o de sexo até que tombe. Sois mulher e sois capaz. E então olhai-o como se olha para uma criança traquina, com ternura e repreensão na dose certa, enquanto ele dorme imóvel, com a respiração pausada, como um anjo cabeludo, um homem da odisseia à mercê de uma deusa. Então trocareis o eu romântico pela magnificência do Olimpo, e o homem será vosso escravo. Pois, assim olhava Catarina para o seu Romeu tombado.

sábado, 9 de setembro de 2017

500 milissegundos – Joaninha e Afonso

Aconteceu tudo muito rápido, talvez 500 milissegundos, sou, portanto, obrigado a ser breve. Joaninha vê Afonso deitado em cima de uma cama com guardas de ferro. A imagem tem a carga do azul vago do pijama que traz vestido. Uma carga inodora saturada pelo ambiente assético do quarto. Mas não é esta a única imagem que passa pela cabeça de Joaninha naquele minguo intervalo. Há o silêncio marcado por um bip que aconteceu a uma eternidade atrás. Há, também, a imagem que Joaninha tem da ligeira contração dos seus maxilares à espera do próximo sinal. E esta procura imiscuir-se com as restantes para lhes provocar vacilações, pois o corpo julga-se prepotente. E depois. Depois há a postura de Afonso. Estendido. Magro. Inerte. Em perfeita simetria. Pernas. Braços. Fitando o teto. Sugere-lhe um corpo hibernado, embalado, preparado para uma viagem espacial. À espera da sua cápsula de vidro. Uma viagem no tempo. In utero. Em que o tempo apenas passa para os outros, os que estão acordados. À espera. Na expetativa da chegada. Um Afonso saltitante. Brincalhão, recém-chegado a um novo mundo. Mundos. Vários. Intrometem-se na cabeça de Joaninha. Um, muito antigo, surge relampejante. A visão de uma criança a chupar chocolate do dedo da mãe. O olhar clandestino no rosto desta adoça o pecado. Revê nitidamente o prazer, agora que não tem nada na língua. Há muito tempo que não sentia assim o fulgor do cacau. Sente-se percorrida por uma sensação de culpa. A mãe diz-lhe, o teu pai é um homem bom. Invade-a o temor da prisão gelada. Do bater das portas gradeadas. A canção que aprendeu a cantarolar para dentro, enquanto nas visitas avançava com o frio do chão a tocar-lhe as pernas. A Internacional. Uma canção disléxica dos Violent Femmes aos solavancos na cabeça do Afonso. Marcados pelos ténues bips que lhe entram pelos ouvidos. O rosto da mãe interrompido pelo da Susana. O rosto da Susana interrompido pelo da mãe. E a respiração não perde a oportunidade para se intrometer. As outras querem correr com ela. Tu não és para aqui chamada, alegam, mas o corpo julga-se prepotente. A corrente de ar dá azo a um voo. Os rostos das mulheres ondulam como bandeiras. A imagem de Joaninha chega-lhe pelo volume que ocupa ao lado da cama. Demasiado física para quem não a vê. A do Zé aproveita para se assomar. A barba. Os olhos grandes. O hálito pesado, em vaivém por entre os lábios. Sente arrepios no pescoço. Corre para se esconder. Para não ser abocanhado. O aconchego do escuro por detrás da porta. Ri fininho, sustendo a respiração. Oculta-se entre os ramos da laranjeira, sustendo a respiração. As folhas verde escuras, carregadas de cheiro. O baloiçar do ramo. O passar de uma brisa. Esconde-se dentro da tulha de trigo, sustendo a respiração. Pum, apanhei-te. Em 500 milissegundos.

domingo, 20 de agosto de 2017

Três Missas – D. Eduarda Santana

Búzios, cartas, vidências, tarô, runas, borras de café, palmas da mão, entranhas de peixe, ou de um qualquer outro animal de digestão nublada, que se descomprimem ao abrir e se entregam ao imponderável, expondo-se num arco-íris de tonalidades, do amarelo ao castanho, passível de interpretação subordinada a uma consciência universal. Qual consciência universal!? E não me venham cá com enredos quânticos, difíceis de compreender, cheios de aparecimentos e desaparecimentos, como numa novela em que uma criança muda várias vezes de pai, conforme o dia e a hora em que se liga a televisão, e apenas não muda mais pois as audiências acabam aborrecidas, ameaçando desligar os feixes catódicos, até porque demasiados golpes de magia também enfadam. Consciência são imagens. Um barco com os seus remadores a serem fustigados pelas dendrites que silvam no ar sob ação de musculosos coordenadores que lhes agarram pelos axónios. Essa imagem sim é parte da consciência. Ouvi os estalidos que fazem, chispas elétricas que iluminam a embarcação, a colocam em movimento, bem ou mal, dependendo das descargas. Consciência é o comandante que, se junta a imagem dos remos bailando na água com a de uma doce rapariga viking, então os coordenadores sentem nas costas carinhosas cócegas elétricas, mas coitados se, por acaso, em vez da loira entrançada, juntamente com os remos a mergulhar na água, o que vem à mente do capitão é o seu corpo de guerreiro borbulhento de sarampo e uma eternidade fora de Valhala. Não vos digo o que pode acontecer nessa situação pois tenho que vos falar de D. Eduarda Santana, e da sua consciência, quando leu na Splash! a notícia do seu filho Romeu. Ademais, é muito difícil separar a D. Eduarda Santana da sua consciência, nem esta daquela. Pelo menos costumam ser vistas quase sempre juntas e, então quando saem, não podem passar uma sem a outra. Talvez quando andaram mais arrevesadas foi durante o extravio do irmão, Gilberto Santana, mas também é verdade que nessa altura D. Eduarda Santana passava quase todo o tempo em casa. Alvitrava-se que era cautela, por causa dos tempos que então se viviam, mas de facto era por andar arredada da consciência. Uma consciência onde a fotografia do irmão embandeirado e gritando palavras de ordem aparecia constantemente a intrometer-se com qualquer outra imagem que os seus neurónios gerassem. Foi uma maçada, diz agora, com uma capacidade de transformar em palavras o que já lá vai, já lá vai. Por isso, quando leu a notícia a primeira coisa que lhe veio à mente foi a do irmão guedelhudo, e sentiu logo um estremecimento na consciência, será que vai voltar, pensou, mas o caso não é tão grave e é agora uma mulher madura, pelo que decidiu mandar dizer três missas.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Pano – Joaninha

Arredio, fugidio, escorregadio, um pano que divide uma sala fazendo duas. Mais que um biombo, pois este apenas define um espaço temporário, onde nos podemos refugiar para uma intimidade momentânea, e em que até as suas dobradiças revelam contingência, pois pode facilmente ser armado ou desarmado conforme as eventualidades, encostado a um canto para libertar espaço, ou recolhido e arrumado num sótão. Sim, pode-se dizer que o biombo é arredio, que promove o retiro, mas não é presumido como o pano que se estende de um lado ao outro, parede a parede, teto ao chão, interpondo-se, não permitindo uma fisga por onde se aponte a vista procurando vislumbres, e, contudo. Contudo, define uma fronteira que exalta mais do que esconde, de uma debilidade contagiosa, cuja aproximação provoca erupções epidérmicas, vermelhidão, a atração do corpo pela doença. Sim, pode-se dizer que o biombo é fugidio, que não se lhe pode tirar os olhos de cima senão escapa, um pouco mais à frente ou mais atrás, ou encolhe-se de vergonha, ou desaparece mesmo de todo, mas o pano é intransigente, impondo-se implacável, e, contudo. Contudo, se observado de perto, não consegue esconder as lesões no entrelaçado provocadas pela força da distensão, que lhe dão um ar abaulado aqui e ali e abrem uma janela gradeada para o outro lado sala. Sim, pode-se dizer que o biombo é escorregadio, que não é sólido ao contacto, que não é de confiança, que se não tivermos cuidado pode fugir das mãos e tombar no chão, denunciando-nos com um baque seco e definitivo, mas não é dissimulado como o pano, que está pintado a preto e vermelho com irrefutáveis teses, e, contudo. Contudo, entreabre questões devido à firmeza das asserções, pois uma dupla afirmação é uma negação, e depois esquiva-se fazendo finca-pé repetindo-se. E, contudo, naquele dia, naquela sala, quando recebe a notícia, Joaninha, vê claramente o pano à sua frente, desdobrado, corriqueiro, e, ainda que sentada, afasta-se mentalmente para melhor o observar, na sua magnitude, como engloba toda a parede, o pano transforma-se num ponto lá ao fundo, um ponto de fuga, segundo a perspetiva, perdendo o seu aconchego, acaba por sentir uma tontura devido à distância, e é por isso obrigada a regressar, a reaproximar-se, os dizeres a recuperarem o significado, uma lufada de ar para colocar o cérebro de novo a funcionar, ainda assim os tremores persistem, deixa-se estar enquanto pode, mas não resiste, aproxima-se, sentada, estende a mão, abre os dedos que tocam a tela, passam de cima abaixo, acentuam a irregularidade, abaúlam, procura ver por ali, mas é difuso, pestaneja três vezes, não mais, onde não está pintado é mais fácil, faz uma estranha figura, a cabeça revirada num cone cujo vértice é o olho, focando-se na tela, como se estivesse ao junto a ela, sente então que tem a mão vazia, uma sensação de frio devido às transferências de temperatura, a ter retirado a mão do pano, as tonturas engrandecem, tenta mover os dedos para desfazer o formigueiro e cai com a cabeça na mesa, overdose, disse o médico.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Salpico – Romeu

Caímos em queda livre. Braços soltos. Pernas bamboleantes. Splash!. Ao entrar as páginas engolem-nos num rápido movimento, como um soluço para dentro, fechando-se de novo. Somos um nódulo. Uma irregularidade. Ainda assim pequena. Apenas se percebe ao contacto da ponta do dedo. Uma singularidade. Miúda gira que nos saúda com um sorriso neste lado da página. Contínua em excelente forma na outra. Sustemo-nos pelo pontapear das pernas. À tona do texto. A cabeça enfrentando a legenda da fotografia. Livre e pronta para amar de novo. À espera que um marinheiro dê à costa. Parece-nos que não vai ter que esperar muito. Sentimo-nos aprisionados pelo agigantar do sorriso. Uma onda gigante que ameaça nos arrastar. Mergulhamos a tempo. Escapamos pela nesga livre entre a fotografia e o texto. Damos à costa. O corpo lambido pelas ondas. Brasil. Belo areal. Frondosas árvores. Densa floresta. Hermoso! casal este. Merecidas férias estas. Finalmente com algum tempo um para o outro. Vida sobrecarregada. Duas carreiras. Sempre a viajar. O que vale é que há muita cumplicidade. Uma quarta lua de mel. Bela barba rapaz. Ar de marinheiro. New Look!. Vaidosa a rapariga. Como este não há em todo o lado. Ficam bem atrás do sugestivo coqueiro deitado. Está-se a criar um clima. Não queremos importunar. De bruços atravessamos a página de fininho. Ao virar não podemos de lançar um olhar de felicidades para trás. Parece que viajámos no tempo. Não é que já estão a comemorar os anos do terceiro filho. O Manuel é como um pai para os miúdos. Um pai presente. Os manos gostam muito do António. O António ao colo. O António a gatinhar. O António dá os pequenos passos. O António não quer a chucha. O António apaga a vela. O António vestido de marinheiro. Tem boa onda o garoto mas agora necessita de mudar a fralda. Pedem-nos gentilmente para sair. A desprazer concedemos pois estávamo-nos a afeiçoar à criança. Dado o aperto saímos a crawl. Exaustos de tanto esbracejar desembocamos neste delicioso jardim. Que linda mansão. Elegante decoração. Que calma. Que paz. A gentil senhora mostra a sua nova casa. Ah, o jardim tem reminiscências das frondosas árvores brasileiras. Guardando as devidas distâncias, claro. Porque as idades são o que são. Que porte, que postura, da senhora no cadeirão. Cadê! o marido? Não surge figurado. Zarpou? Não, está a preparar as bebidas. Gostaríamos de ficar a fazer sala mas somos capturados pelo Sunset!. Que esplendor. Isto merece uma mariposa. Braços bem abertos. Cabeça à frente. Pernada forte. Salpicos pelo ar. Mergulho destemido. Eh pá. Nem percebemos como é que aqui fomos parar. Assim de repente. Um pouco à bruta. Então não é que a atriz francesa Sylvie Affranché, sim, aquela que tem uma tatuagem na omoplata, a da clave de sol, tem sido vista com o Romeu Santana, sim, o da novela L’Ancien Régime, aquela recentemente cancelada, as fotografias são um pouco desfocadas, é necessário puxar pela imaginação, mas ele não é casado?, dizem que é da velha guarda, um amante da cultura francesa.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Estupor – Afonso

Estupor, e ele imóvel, com os olhos abertos, em trajetória retilínea em direção ao teto, intercetada por cabeças que trazem perguntas e regressam sem resposta. Bom, isso foi depois, antes, antes do ti-nó-ni ou do ni-nó-ni, não consegue recordar com certeza, estupor, em cima da cama, imóvel, com os olhos bem abertos fixos na racha do teto, nunca tinha reparado naquela racha, estupor, um odor a gordura entra-lhe forte pelas narinas, estupor, move a cabeça para o lado para saber a sua origem mas os olhos continuam teimosamente fixos no teto, na racha, estupor, uma racha, não, duas ou três quase paralelas, estupor, tenta ver fora do teto com os olhos fixos mas o mundo desfoca-se a partir daqueles riscos criando uma abóbada abaulada de horizontes arqueados, estupor, talvez tenha sido assim que alguém intuiu que o mundo é redondo, estupor, cruza a perna direita sobre a esquerda tombando com dificuldade sobre o lado e os olhos fixos no teto, estupor, o corpo começa a reagir e move-se leve sem esforços dos músculos, estupor, ah é a pizza, ou a caixa de cartão impregnada de manchas escuras, assim vista de cima, ao pé das rachas no teto, parece uma boca escancarada, ou será antes um aspirador pré-histórico do tempo dos Flinstones, um pequeno bicho que se move sozinho tragando tudo o que cai ao chão, estupor, mas se é assim porque é que aquele pedaço se encontra lá dentro, incólume, estupor, talvez o bicho regurgite, ou pior, como um crocodilo, goste das delícias da comida podre, temperada de pequenos vermes, estupor, não, é um isco para a porcaria, robô preguiçoso, em vez de ir pela sujidade espera que se lhe agarre à gordura, que lhe entre pela boca a dentro, as maravilhas do magnetismo, estupor, as delícias do magnetismo, e Afonso ri encostado ao teto, rir é uma força de expressão, não há transferência de ar para dentro dos pulmões, pelo menos mais do que aquela que a imobilidade necessita, não um ar saltitão que contamina o exterior aos solavancos como um motor de arranque, estupor, é um riso contido, que abdica da missão de contágio, numa alegria inteira, estupor, a Susana deitada sobre a barriga, linda de costas nuas, estupor, a cara afundada na cama, os joelhos no chão, as palmas dos pés expostas, brancas, estupor, os cabelos corridos para cima, eriçados sobre a cama, descobrindo a pescoço, branco, estupor, sorri com os olhos fixos no teto, dá-lhe a mão, estupor, consegue ali de cima ver-lhe a cara, as feições escorridas, os dentes brancos, o nariz, estupor, o nariz entre o abatatado e o intrometido, estupor, tem os olhos fechados, pelo menos visto daqui de cima com os olhos fixos no teto, o rosto sereno de quem insiste em dormir, estupor, tanta paz interrompida por esta gente, ti-nó-ni, ni-nó-ni, que assim não há dúvidas, não se levantam questões, como foi que isto aconteceu, é como quiserem, ti-ni, pelo menos daqui de cima, estupor, a pairar, encheu-se isto de gente, para quê toda esta correria, estupor, está-se bem, para quê tanta presa, tanta correria, não veem que aqui não cabem todos, estupor, intrometidos, entra-lhe pelos ouvidos os comentários do miúdo mais novo, estes estão bem feios.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Tatuagem – Sílvia

Por detrás de uma língua esconde-se outra. Por detrás de uma tatuagem... uma clave de sol azul, sobre o ombro, descaída para a omoplata, como se tivesse escorregado, quando ainda fresca, perdido definição, a precisão da agulha esborratada, alongada, pronunciando a parte de cima com um acento sobre um corpo alargado, um acento grave devido ao decaimento, como uma balzaquiana sobre um divã, deslaçando-se das almofadas aos pés em rosca sob o encosto encaracolado. Sílvia, Sylvie em francês. Dito assim, carregando no i, em qualquer das línguas, ainda que numa mais do que na outra. Ainda assim uma questão de pronúncia. Talvez também tenha as suas variações. Esta prolongada, como um silvo, agudo este, à laia de chamamento, atirado à tatuagem, no meio da rua, para provocar o franzir da omoplata, do lado direito, esqueci de precisar, antecedendo a ligeira torção da cabeça, revelando o canto do olho e um sorriso, que visto daqui até pode parecer malicioso, pois a malícia é assimétrica, feita de uma parte que se expõe para sugerir a outra que se esconde. E quem não gosta de ser chamada assim na rua, Sylvie. Ça va, Romeuô? Soprado assim, euô. A sensualidade de pronunciar um nome de outra língua, introduzindo-lhe acentos, dilatações, influências climáticas. Por detrás de uma língua esconde-se outra. Sílvia e Romeuô. Acabado de sair do apartamento de Madalena, logo ali ao virar da esquina, aquela tatuagem recostada para o ouvir com atenção, não ao que diz, mas ao diseur, como um boxer que num ringue observa o outro que entra, impreparado ainda, pelo menos comparando com aquele que já lá está dentro, em calção, apenas com as luvas calçadas e a proteção dos dentes, quase desnudo, e observa com um sorriso o alçar da perna do outro para entrar, com as cordas ao meio, um movimento ridículo para quem se dirige para um combate, obrigado a sentir as cordas aflorando o reto antes dos assomos de valentia, essa a vantagem de se chegar primeiro. Romeuô, tu es un diseur! Poderia ser tomado como um elogio, daqueles que despertam uma satisfação que desarma, faz baixar os braços, mas ninguém gosta de ser reconhecido fora das suas artes, e por isso Romeu não desiste, especialmente agora que vem determinado a trazer o Tavares à pedra, a obrigá-lo a reconhecer a sua culpa, a expor a sua maldade. E cada frase é como um soco bem entre os olhos do Tavares. Coitado, tanto abanão. Felizmente que é soco en sac. Pas très vite, Romeuô. Pede Sílvia que gosta destas cenas au ralenti, fã confessa do Peckinpah, que um soco qualquer bruto dá, mas a pinga de suor que ressalta do impacte abrindo uma pequena cratera na poeira do chão, o dente que se solta debaixo de um repuxo de sangue, girando sobre si e projetando-se à distância, o golpe bem no centro do olho, atirando a cabeça para trás, em contínuas vibrações que parecem trazer a cabeça de novo um pouco à frente na sua queda e que melhor descrevem o que vai lá dentro do que cá fora, isso sim Sylvie. Por isso, prolongando as silabas, alongando os acentos, Sílvia questiona, Tavarrés, qui est Tavarrés, mon cher?

domingo, 30 de julho de 2017

Últimos Dias – Susana

Últimos Dias. Não, são não aqueles que vedes a letra branca sobre o fundo vermelho de uma faixa, garrafais, a uma porta por onde prometem camisas baratas ou salvação eterna, e se os questionais com as promessas passadas, euforias, quase clímaces, reasseguram com uma confiança tranquilizadora, não, agora é que é. Últimos Dias. Não, não são eles que formam o vórtice do homem tântrico, escravo de um códice, estonteado, hesitante, entre o dever, o não dever e o prazer. Últimos Dias. Nem sequer são os de uma morte anunciada, bem real, corridos com revolta e incompreensão. Dias que se sentem passar cheios de minúcia, de detalhes asfixiantes que clamam a sua existência quase com maldade. Estes últimos dias de que vos falo são mais esparsos, perfurados pelos buracos das ausências, quase sempre a dois. Dois corpos estirados, cada um para seu lado, formando um rendilhado por onde a luz do sol vai passando, traçando linhas no chão, que se movem, lentas, colapsando ao fim do dia na parede do quarto. Dia, noite, amanhecer, anoitecer, manhã, tarde, claro, escuro, não interessa. São dias que se alongam como se fossem um único, onde a passagem do tempo é marcada pelo esvaziamento do pacote de heroína e sequências de figuras geométricas. No quarto de Susana tudo o resto é desordem. Enormes bocas de papel escancaradas sobre o chão, repassadas de marcas de gordura e de um ou outro triângulo arredondado, já frio, que tendo sobrevivido a ser engolido deteriora-se como um pedaço de comida preso entre os dentes. Por entre as caixas, roupas derrubadas por súbitos fervilhares, corridas ao sprint, entusiasmos tombados com as formas do acaso. Calças cujas pernas tropeçaram uma na outra, umas, semi do avesso, outras, expondo um rabo branco sobre pernas azuis, bronzeadas pelo ardor químico do corante. T-shirts deixadas cair em ondas que se sobrepõem sobre si mesmas desenhando sulcos cuja adição forma pequenas colinas. Desfavorecidos pontos de observação, de onde se pode almejar quanto muito um pé gigantesco, descalço, o dedo grande à frente criando a ilusão de uma cordilheira de montanhas que se perfilam à distância. O dedo mindinho, longínquo, assomando fugidio ao fundo dos restantes, como o destino mais desafiante. O que se verá desde lá? Pergunta-se daqui. Deste aglutinado de t-shirt. A questão é interrompida por uma trepidação vulcânica, pelo deslizar do pé de encontro ao chão, esmagando os dedos, sujeitando-os a numa pressão anunciadora de novas réplicas. O pé atira-se então de borco para a frente, libertando os dedos, expondo-os como iguais, revelando uma passagem para o corpo desmedido descoberto pelo deslocamento. A perna de Susana transformada numa subida em duas partes. A primeira, de uma doce inclinação sobre uma superfície lisa onde um ligeiro planalto nos oferece o deslumbramento da segunda, um espanto dos olhos, um desafio à vontade dos que almejam experimentar, não livre de perigos, das avalanches, dos tremores de terras que agora lhe contraem os músculos.

domingo, 9 de julho de 2017

Selva – Madalena

Certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. Dos aventureiros? Questionais-me vós. Não será que queria dizer dos aventurados, sugeris. Mas qual é a diferença? Pergunto-vos. Quem pode estar mais convencido de possuir o dom da ventura que o aventureiro, para se lançar ao desconhecido, desbravando luxuriante vegetação, à catanada, se necessário, na demanda de safiras, esmeraldas, rubis, diamantes. Todas pedras em bruto, à espera de serem delapidadas, libertarem-se da aspereza da natureza para rodopiar em refrações sobre a palma da mão, despertando a cobiça refinada, e serem possuídas pelos bem-aventurados. Ah, pelos aventurados, não pelos aventureiros, exclamais vitoriosos. A teimosia não vos trará boa fortuna e, nesta matéria, por aqui me fico. Repito, certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. E vede, as vossas interrupções fazem-nos chegar atrasados. Madalena e Romeu já não estão sentados lado a lado no sofá longo. Madalena atentamente ouvindo Romeu, desejando que no desfolhar da conversa vão surgindo as referências, à pele dos ombros, ao canto dos lábios, à curvatura das nádegas. Não, já não falam pausadamente. Melhor, Romeu já não fala. Madalena agita-se em pé, impondo-se intransponível para um Romeu que a olha apreensivo, sentado. Estou farta de te ouvir falar do Tavares. Nos últimos tempos quando vens ter comigo só falas do Tavares. E eu? Pergunta, apontando simultaneamente com ambos os cotovelos para as ancas bem rodadas, ao fundo de um ventre que insiste em se esconder, como o parente pobre, e envergonhado, do corpo de Madalena. Sabes que não é bem assim, Romeu procura tranquilizá-la. Não? Mas falaste de alguma outra coisa desde que aqui chegaste? Que o Tavares te fez a folha. Que devias ter suspeitado. Que bem te avisaram. Que as sugestões dele apenas te prejudicaram. E eu, aqui sozinha, à tua espera, com vontade que viesses, e agora essa conversa. De certeza que não é disso que falas com a Catarina. A última palavra é puxada por um soluço que desata em choro. Rapidamente as lágrimas lhe percorrem as faces, precipitando-se do queixo para a camisola onde deixam marcas que colam a blusa de alças ao corpo. Romeu sente-se incomodado pela erupção daquele ambiente húmido que tenta se intrometer nos seus pensamentos, se soubesse não tinha vindo. És um egoísta, diz Madalena, numa forte bátega de lágrimas que agora alcançam mais longe por se lançarem dos lábios retorcidos. Se soubesses os homens que estariam aqui se eu quisesse, atira já em desespero de causa, dado o silêncio de Romeu. Alguns nem sequer és capaz de imaginar, e tu preocupado com o Tavares, diz num riso escarninho que enche Romeu com os calafrios do desconhecido. Não devia ter vindo. O apartamento tornou-se inóspito, tem que sair rapidamente dali. Levanta-se e diz, tu hoje estás impossível, assim não se pode conversar contigo. Num instante está do lado de lá da porta, descendo pelas escadas, vai pensando, a culpa disto tudo é de terem cancelado a novela, e esse Tavares vai ver como elas doem.

domingo, 2 de julho de 2017

Suzanne – Afonso

Arroz de cabidela tem que ser de galo. De galo pica no chão. Como aquele que se presta a ser servido no restaurante santa isabel de abrantes. Pois só um galo tem sangue na veia. Imaginem uma música dos anos 80 tocada melodiosamente no século xxi, com o consentimento, senão gáudio, daqueles que a ouviram então, porque les bourgeois c’est comme les cochons, e não é demais repetir, comme les cochons, em refrão, pois a barriga, atirando-se por cima do cinto, é como uma barreira insonorizada. Uma língua como a dos porcos dos Rolling Stones. Sim, esses que se revigoram com transfusões de sangue. Está tudo bem? Tudo. Responde-se tentando apertar as nádegas, procurando trazer a barriga para uma onda harmónica, mas nada mais inestético do que a satisfação, e logo ali vamos rua abaixo. Felizes, porque para baixo todos os santos ajudam. Não é assim com o Afonso, e muito menos com a Susana. Melodia, sim. Muita. Sussurros. Confissões entre orgasmos. Não sei se da coca se do sexo. Que interessa. Quando se quer é fácil. Companheirismo, como camaradas de combate. E depois os frémitos. As revoltas da Susana com a Clara, uma falsa. Um rufar de tambor. Seguido de laranjas e de desprendimento, pois o apego mata, e vai mais um chuto. Les bourgeois... não preciso repetir. Para que é preciso amor quando há fervor. Nem se percebe bem a diferença. Quero-te comer, está tudo dito. Afonso deixa-se extasiar com a palavra salva-me. Tira-me daqui. Leva-me contigo. O instinto de fazer ninho ao deus dará. Para esplendor da mãe natureza. Esplendor na relva. Se bem percebem. Tudo muito rápido. Como se tivessem sido atirados para dentro duma caixa contendo simultaneamente todos os êxtases e todas as contenções. Ainda falam do cinema. Bah, o cinema. Esse remédio dado em pequenas doses de 24 imagens por segundo, durante duas horas. E isso são os filmes bons. Os maus, placebo. Mas nem sequer é mau, quando se atira para a veia até a seringa dá tusa. Uff, só de imaginar. Imaginem, disse, uma música dos anos 80, ou dos anos 90, ou do fim dos anos 60. Ainda o Afonso não tinha nascido, muito menos a Susana. Mas que interessa. O importante é a pele. Tocar o corpo perfeito, liso e sedoso, antes que encarquilhe. E esse é imortal. Disso são feitos os rituais. Cada volta uma perspetiva. Esplendor na relva, se ainda não vos esquecestes. Só o galo tem sangue na veia, disse. Coisa mais redutora. Desculpo-me de então estar com a barriga cheia. O que interessa é o mar. De que serve o sangue da veia do galo se não desaguar no arrozal, ser aspergido de vinagre. Mais um pouco, perguntam. Há quem goste de mais vinagre. Para mim está bem assim. A conta certa, nem mais nem menos. Ah, Afonso, como olhas para mim. Quanta reprovação há na adolescência. A conta certa. Les bourgeois c’est comme les cochons. O que é isso da conta certa. Será que é preciso repetir vezes sem conta, les bourgeois c’est comme les cochons, comme les cochons. Parece que já esqueceste quando visitavas a Susana junto ao rio. De que serve o sangue na veia se não desaguar no oceano.

sábado, 1 de julho de 2017

O que os olhos não veem – Amália

Ter duas mulheres é sinal de hombridade, mais é devoção. Senão vejamos o culto Mariano e a sua obsessão com a castidade. Mas deixemo-nos de abstrações. Amália tem os seios volumosos, o que não é de somenos importância, e não pelas razões que podereis prontamente ponderar. A boca a saber a papéis, diz-se. Eu não sei, mas se não foi assim que Romeu acordou pela manhã, então um qualquer outro incomum gosto o terá despertado. Áspero, surpreendido primeiro, envergonhado depois, arrependido então, justificado finalmente. Não pela boca, pois tudo terá ocorrido na solidão do leito, à semi-luz que não deixa adivinhar a hora do dia, mas pelo pensamento que aproveita estes vazios de conjuntura para se desenfrear em relações tão lógicas como absurdas. Contudo, assim não foi com Romeu. A justificação saiu bem equilibrada, e capaz de ser repetida pela língua a Catarina, que já teve de sair a esta hora. Já a decisão que tomou de seguida foi irrefletida e, se for surpreendida, terá fraca justificação. Mas o que os olhos não veem o coração não sente e por isso resolveu ligar a Amália para a convidar para jantar. Falar com um colega, para perceber o porquê de terem cancelado a novela, disse a Catarina. Vontade de voltar a vê-la, disse a Amália. Obter a compreensão de Amália, desejou para si. Amália ficou surpreendida. Tinham decidido que seria melhor deixarem de se ver por algum tempo. Tinham é uma força de expressão. Foi Romeu que decidiu ser o melhor. E Amália não é mulher para colocar pressão num homem. É uma mulher de recursos. A surpresa foi o tempo que passou desde que Romeu teve esse longo e cauteloso monólogo, em que lhe explicou o porque de se separem. Um emaranhado raiado por flores oferecidas à sua beleza, à sua paciência e, finalmente, à sua compreensão. Algumas semanas apenas e estão de novo sentados frente a frente. Uma pequena sala de restaurante, daqueles onde para se entrar é necessário descer alguns degraus. É Romeu que fala. Gesticula mais do que habitualmente. Amália ouve atentamente. A luta de espadachins, repete Romeu pela terceira vez, que problema ouve com a luta de espadachins, insiste. Subentendidos? Mas com o Tavares a querer o meu lugar qualquer coisa que filmasse seria vítima de um subentendido. Sim, já te falei do Tavares, o sobrinho do Dr. Osório, filho de uma irmã casada com o Tavares, o da banca. Impingiu-mo como assistente de realização. Eu devia ter desconfiado. Começou a meter o bedelho na história. Começou a dizer, Romeu precisamos de mais ação. O duelo foi por sugestão dele. Depois soube que andou a dizer que era irracional, que não fazia sentido, que era mais desenhos animados do que novela. Isto sei porque me o disseram. Que ele não é menino para isso. Soube que até afirmou que eu não tinha solução para o crime do Capitão Simões. Que a história andava aos empurrões. Agora compreendo as perguntas que me fazia. Eu respondia-lhe, não tenha pressa. Mas ele, pelas costas, insistia que faltava ação. A civilidade mantém Amália atenta, mas nos seios percebe-se um indisfarçável enfado.

terça-feira, 13 de junho de 2017

The Weeping Song – Zé

Se o que inicialmente o paralisou foi a surpresa de sentir a água pastosa a escorrer por entre as pernas, agora também o incomoda o cheiro. Quando já se julgava em segurança, ter deixado o Ernesto para trás, recuperado a cabeça da descarga de pensamentos. Quando finalmente voltava a sentir as pernas no chão, a barriga prega-lhe esta partida. Uma borrasca sem aviso que o atira por uma porta aberta para um esconso vão de escadas de madeira castanha, entre o amarelado e o desmaiado, carcomida por gerações de larvas, famílias inteiras, que roem a infindável herança, não só a escada, mas o prédio todo, onde cada qual parte à aventura, traçando sulcos, rásrás, rásrás. Mas, àquela hora, o que se ouve é uma criança. Chora no andar acima, enquanto um cheiro almiscarado lhe entra pelas narinas. Uma mistura de bicho e madeira, em partes que não consegue discernir. Destes segredos são feitos os perfumes. Pungentes, como as tempestades que ensopam até aos ossos. Instalam-se e desencadeiam um rumor que rompe nas extremidades. A criança não se cala. Já chega, diz uma voz de homem, quando é que o puto para. Estou farta, responde uma mulher. Uma porta bate com força. O prédio estremece. Deve ser isso que explica as pequenas perturbações encontradas nos sulcos. Bichos cegos não são dados a sobressaltos. Talvez não tenham assim uma vida tão sossegada. Tentam, mas o mundo não é só feito de boas intenções. Não é só o prédio, são as pessoas que o fizeram, que acham que também têm direito. Ou, pensáveis, bichos que o prédio tinha sido feito para vós? Para a vossa delícia? Afonso faz tenção de se ir embora, mas sente as pernas paralisadas por uma cola peganhosa. Delícias. Larvas transparentes, sem vitamina D, assomam cá fora apenas pela calada da noite. E mesmo assim muito a medo. Quase por engano. Uma ida fugidia a uma sessão de esclarecimento. Apanhados à porta. Trazidos para dentro. Passei por aqui, mas já estou de saída. A vida não é só delícias, diz o conferencista. Usa uma qualquer analogia. Forte, como uma boa analogia. Inútil, como uma boa analogia. Analogias são como as cerejas, pensa Afonso. Cada uma tão convincente que nos faz esquecer a anterior. Esta é que é essa. Delícias. Afinal estas minúsculas lagartas também têm os seus alvoroços. Espasmos. Pasmo, pai, neste esconso de escada. Cheguei aqui num transe, não consigo recordar bem porquê. Tremem-me os dedos. Doem-me os ossos. Suores. Vai passar. Daqui a pouco já estou em casa. Só mais um pouco. É como se já tivesse aí. Não te preocupes. Já percebi. Delícias. O choro redobra de intensidade. A porta abre-se e o peso de um corpo pesado solta uma chuva de pó sobre Afonso. Foda-se, cheira a merda, anuncia a voz do homem sobre a sua cabeça, enquanto dedilha os degraus, a um a um, fechando a porta do prédio com estrondo. Passos precipitados trazem a mulher à entrada do apartamento. Com uma praga que dilata o edifício, atira, não penses que voltas, cabrão. Bate a porta com força para se proteger da reverberação da sua imprecação.

sábado, 3 de junho de 2017

Poor Little Alfie – Amália, Madalena e Sílvia

Mais do que a cara mergulhada no vomitado, onde os restos de uma encenação de almoço navegam à vista num banho de gin que foi fazer a apneia ao estômago, o que realmente incomoda é o cheiro. Um cheiro acre, que recorda a existência das entranhas e, finalmente, de um ser vivo formado à volta do tubo digestivo. Como se o aparelho respiratório fosse a consciência, e um esbirro invejoso, do outro, o único que atravessa o corpo de lés a lés. Por isso mete duas vezes dó Romeu no chão. Mete dó porque tolhe ver um homem emborcado na manifestação externa das suas vísceras. Dó, porque não consegue levantar o rosto, entontecido que se encontra pelos vapores que não retornou. Catarina ainda o tenta erguer, mas Romeu faz-se pesado e começa a gatinhar combalido, numa passada cega de animal possante. Bamboleia o corpo com o nariz roçando o chão. Pelos lábios semiabertos passa ar em ambos os sentidos, trazendo dos pulmões o bafo que vai soltando num rasto que marca o caminho. Catarina passa-lhe uma toalha molhada pela cara. Romeu interrompe a caminhada, surpreendido. Os lábios alargam e sente por dentro o ardor da água que apaga o fogo. Começa a sugar levemente a toalha, fazendo com que pequenos jatos de líquido passem por entre os dentes, apaziguando a língua. Levanta uns olhos vagos e vê Catarina, desfocada, balançando-se de um lado para o outro. Faz um esforço para conciliar a vista com o cérebro, e vê a cabeça de Catarina desdobrar-se em duas, agarrada pelo tronco. A visão provoca-lhe náuseas e fecha os olhos. Na escuridão, o cérebro dá um mortal, desequilibrando Romeu que aterra a cabeça no chão. Duas mãos seguram-no pelos ombros e sustêm o que ainda pudesse haver de queda. Aproveita então para rodar o pescoço, repousando sobre a face direita. O solavanco deixou-lhe os braços ao longo do corpo. Mas as pernas não se dão por rendidas e, mais por descontrolo que por desobediência, insistem em avançar. A força do desgoverno desencadeia um ligeiro arrasto que, se consegue deslocar as mãos alguns milímetros lá atrás, cá à frente apenas serve para repuxar o lábio inferior, expondo a gengiva com despudor. Encostas de carne luzidia sob um castelo de esmalte que se abre para deixar passar uma corrente de ar que resvala pelo carreiro de baba até ao chão. Fica assim, prostrado, como um animal a repousar sobre o pasto. Quando as pontas dos dedos de Catarina lhe tocam a face, reabre o olho esquerdo e procura fixar um mundo sem profundidade onde três rostos sorridentes o observam. Lado a lado, trocam impressões sem deixarem de o fitar. Olhos dilatados, em simpatia com os lábios que descobrem dentes alinhados. Lábios que ondulam com doçura, nunca encobrindo os dentes, por onde as línguas enunciam danças do ventre. Bailam à vez, e em sintonia, reafirmando a mesma frase musical. As cabeças acenam, de baixo para cima, reproduzindo sins. Vão-lhe assim chegando melodiosas ondas sonoras que procura captar com ligeiros movimentos da cabeça. O olho de Romeu dilata quando reconhece Amália, Madalena e Sílvia.

sábado, 13 de maio de 2017

Hollow Hills – Ernesto

Um Deus triste com o sofrimento do mundo. Foi quando finalmente refreou o passo que Afonso se questionou se Ernesto estaria mesmo morto. Invadiu-o um sentimento de culpa. Se calhar estava vivo. Precipitou-se quando o viu revirar os olhos com a agulha ainda na veia. Eh pá, Ernesto, deixa-te de merdas. Disse-lhe duas vezes, abanando-o com cautela. Mas ainda assim, a seringa a balançar, decaindo do antebraço para o chão. O gajo já tinha ido, nada mais havia a fazer ali, melhor pôr-se na alheta. Era a primeira vez que estava no apartamento. Parece que era de um primo do Ernesto, que estava fora. Surripiou a chave à mãe, fez uma cópia, e agora era um paraíso. Ideal para dar um chuto na boa, dizia. Sem stresses. Não tinha culpa de nada, certificou-se. Não conhecia o local. Sabe-se lá quem podia por lá aparecer. O Ernesto dava-se com gajos bué de esquisitos. Pessoal da pesada. Não andavam só a curtir, tinham responsabilidades, e na merda deste negócio não se brinca, meu. Na ausência do direito, um bom nome é tudo. Perdes o nome e tás fodido. Fazem de ti gato-sapato. Pagas uma meia, dão-te uma quarta. E depois riem. Puta de vida. Sempre a lutar entre o cavalo e a dignidade. Cada um a puxar para seu lado. A vida é um paradoxo. O cavalo exige dignidade para ser montado e depois passa o tempo a tentar atirar-te ao chão. Dizem que há gajos que se aguentam. Andam anos nisto. Tratam o bicho por tu. Em todo o lado há tipos regrados. Calculistas. Cavalgam e não se entusiasmam. Parece que o Ernesto não é um deles. Se é que já foi. Senão, sabe-se lá. A filha da puta desta vida dá voltas. Partes numa viagem e nunca sabes como regressas. Até podes regressar cínico, dizem. É capaz de ser verdade, mas o pior é ficar-se com a cabeça atrofiada. Nos últimos tempos o Ernesto andava mais para o contemplativo. Devia ser de ter deixado de meter na rua. Estas merdas contam. Condições são condições. Não venham com tretas. Com um pouco de conforto até a miséria dá frutos. Sim, contemplativo. Podes crer. Passava horas a olhar para as estrelas. Somos só um ponto no universo, dizia, e metia para dentro. Não sei por onde andaria, pois quando regressava voltava a olhar para as estrelas. Será que tirou por lá alguma selfie? Somos só um ponto do universo. Repetia. Coitado do Ernesto. Foi nesta fase meditativa que começou a usar o chapéu de abas. Ficava-lhe bem. O corcovado do alto fazia pendant com as maçãs do rosto chupado. Não, o gajo tinha pinta. Tinha vaidade no chapéu. Somos assim. Afeiçoamo-nos a estas pequenas merdas. É isso que nos traz agarrados à vida. Um mundo oco este. Se não for isso. Se não forem as estrelas. Estamos cá para quê? Comer, beber e cagar. Não, tem que haver mais alguma coisa. O chapéu do Ernesto. Devia-lho ter posto antes de sair. Ele havia de ter gostado de ser encontrado assim. Com a seringa e tudo. Mas foi tudo a correr. Não se faz nada com calma nesta vida. Não há tempo para nada. Ao menos ele teve uma vida cheia. Antes isto que morrer velho e passar uma vida a vegetar. O gajo era tramado, a contemplar, apenas um ponto no universo.

domingo, 7 de maio de 2017

A Strange Day – Romeu

Quando o rosto de Romeu entrou por entre os seios de Catarina imaginei que iria ser tão grande e intensa como uma obra prima da literatura russa. Grandiosa por fora e por dentro. Na imensidão das descrições dos campos de batalha, na acutilância dos detalhes da complexidade psicológica dos personagens. Mas não é que, nesse preciso momento, me sobreveio um tremor que me acanhou a mão e me impediu de expor, como pretendia, o que tinha para narrar. Assustada, agarrei-me à esperança que seria uma convulsão à Dostoiévski. Daquelas que por vezes o atravessavam. Um ataque de génio. Fui, na realidade, tomada por um rufar repetitivo que se instalou em mim como um vírus. Peço-vos desculpa, porque cada palavra que se atreve é imediatamente amassada, escravizada por esta batida. A epopeia que tinha em mente ficou reduzida a muito pouco, um dia apenas. Um dia bem estranho. E mesmo assim, só o favor da literatura concede transformar num dia os escassos momentos que a cabeça embriagada de Romeu passou ali. Poderia exprimir tudo numa única palavra, contradição. Romeu de joelhos. Com os olhos abertos de um cego. Brancos e revirados para dentro. Envolto num mar com uma praia de pedras. Enjoado do doce navegar. Precipitado em queda livre pelas contrações do estômago. Falhando-lhe as pernas. Sem a gravidade do planeta terra. Encho-me de vergonha com a trama psicológica que me foi destinada. Que paga por tanto desejar. É assim a juventude feita a correr. Mais um pouco. Por favor, só mais um pouco, depois faço de mim uma mulher. Só mais esta canção. Uma contradição. Um atropelado numa passadeira que se atira para fora da zebra. O corpo ao ralenti, à deriva entre o céu e o chão. Batalhando. Os braços trespassando inimigos invisíveis. Cada golpe um homem ao chão. Uma oportunidade para o seguinte. Estranhos inimigos, que desejam a morte do companheiro para poderem ver chegada a sua vez. Irónicos inimigos, que num sorriso dizem, esbraceja Romeu, esbraceja. Um dia bem estranho. E o chão que nunca mais chega. Negando-lhe o descanso em paz. E os tambores que não se calam. Rufam, rufam. Parem, estou farto desta guerra, diz Romeu, enquanto involuntariamente carrega no replay. E, quando se sente finalmente a chegar ao chão, uma mudança na batida, mais longa, como uma ordem de recarregar, eleva-o em nova exaltação, esbracejando agora mais que nunca. Como um batalhão cego de cansaço, vendo no campo inimigo o lar doce lar. Doce miragem. Como correm. Como abrem e boca e gritam. Mãe, pai, voltei da guerra, são e salvo. Os braços como asas. Fora da passadeira. Abraçando a Catarina. E pobre de mim. Preparada que estava para as paisagens. A bateria sobre a colina. A névoa lá em baixo. Envolvendo as árvores do bosque. O bosque que regurgita homens. Cegos do que os espera. Envoltos na humidade onde lhes vai brotar o sangue. A metralha cuspida lá de cima. Caem atordoados. Épico, sonhei. Mas coube-me em destino este chão de cozinha.