sábado, 13 de janeiro de 2018

da arte de bem atirar – Armindo

Nada pode selar melhor um início de amizade do que um ato de generosidade seguido de um outro de compreensão. Comigo foi o mesmo, disse-lhe o Zé. Armindo sentiu derreter o corpo enorme, um calor subiu-lhe pelas pernas acima, apropriando-se da cabeça, deixando-o num estado turvo para o qual não teve nenhum tipo de preparação. Era a segunda vez que se deixava baralhar por insignificâncias, e tudo na mesma semana. Por razões diferentes é verdade, mas em comum, em ambas, sentiu vontade de abraçar quem tinha pela frente. Conteve-se. Não era rapaz para mariquices. Tinha uma reputação a manter perante a trupe que o olhava com uma atenção mediada pela interrogação. São estas situações que podem catapultar um chefe para a aura que será eternamente recordada, lembraste quando o Armindo se virou para ele e, ou, então, lançam as sementes da desordem, quando se começa a remoer das capacidades do chefe, sentindo-se a estripe de traição que resulta da desilusão, antecâmara do colapso, em que cada qual ao descrer do chefe se acha especial. Homem mesmo seria desdenhar da escopeta, fazer dos seis falhanços prova provada da sua inutilidade, dar um piparote no Zé e pô-lo a correr dali para fora à fisgada, mostrando a superioridade das artes tradicionais sobre as modernices do tiro de flober. Mas Armindo não estava para aí virado, e, tendo deixado passar o momento, deu a vez ao Zé que se ofereceu para o industriar na arte de bem atirar. Foi uma voz débil que assentiu perante uma audiência de boquiabertos rapazes de fisga descaída, com o elástico a baloiçar a descontento. Elásticos empoeirados todos, alguns já a necessitar de substituição pelas mordidelas sofridas de pedras mais pontiagudas que aproveitam o puxar do elástico, o refinar da espessura, para deixarem a sua marca. Se o descalabro de um exército perante o olhar dos seus generais é horrível o desconsolo dos soldados perante a renuncia daqueles que os comandam é um momento de uma beleza lírica capaz de encher salas. Filas de rapazes de calções, rotos, remendados, de olhos encadeados pela luz de palco enquanto o Zé ajuda o Armindo a encaixar a coronha no ombro, lhe diz para não fazer muita força, apenas a suficiente para lhe tirar o peso dos braços, para vencer a tendência para descair, passar-lhe o carrego do chão para o ombro, que coloque os pés em paralelo, um atrás e o outro à frente, torcendo o torço, numa leve reminiscência das gravuras dos antigos egípcios, posição de uma inegável presença cénica, que encoste levemente a face à madeira, sentindo-lhe o cheiro à medida que vai procurando a mira com o olho e o dedo tateia em direção ao gatilho, mirando o alvo através da argola com o piquinho no meio, alinhando este como outro lá na ponta do cano, e agora fazer pequenos movimentos com os braços, bailando o cano em volta da lata, como quem faz a assinatura antes de fazer a obra, e por fim, diz-lhe o Zé, que sustenha a respiração para que o movimento do dedo sobre o gatilho aconteça no mais completo vácuo, e o Armindo faz a lata soltar um lamento que desencadeia o coro dos rapazes tristes.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Mouro – Joaninha

O Mouro é castanho e tem uma forma engraçada de falar. O som abafado de palavras que sem sucesso se debatem para terminar, como se uma força se agarrasse aos dentes impedindo-os de se afastarem em demasia, trazendo-os de volta à palavra seguinte, produz um falar em surdina inacabada. É assim que Joaninha se recorda dele. Aos serões, sentada ao colo da mãe, no banco de pedra do lado de fora da casa, ouvia aquela que considerava por excelência a conversa dos crescidos. Percebia pouco. Percebia que se falava do pai, ainda que nunca o seu nome fosse pronunciado, e, juntando tudo, concebia que de um grande mistério se tratava. Porquê? A importância do assunto. O resguardo que lhe era devido. E, sobretudo, o linguajar do Mouro que vertia uma espécie de código que, acreditava, apenas os iniciados terem a chave. E isto dito com propriedade, pois eram frases cheias de inícios de palavras, sem vírgulas nem travessões, que ele pausadamente colocava umas atrás das outras. A mãe percebia, e ia assentando com um acenar de cabeça ou um olhar que com o tempo se tornou mais vago, fosse porque as saudades se metafisicam com o prolongar da distância, fosse porque a conversa repetida é desfocada como o eco, fosse porque se foi enfastiando dos ditos e dos não ditos do Mouro, não sei. Fosse o que fosse, Mouro não parecia dar por nada, talvez devido ao seu apego às coisas terrenas, manifestado naquela mania de falar com os animais, ou porque o que falava era determinado pela urgência do momento, ou porque a lentidão que imprimia ao que dizia permitia o esquecimento. Mas para Joaninha isso não era problema, não lhe percebendo o conteúdo podia encantar-se com a solenidade da forma, e aí as repetições são soberanas, vão ansiedade da antecipação à emoção da confirmação. Por isso, foi aprendendo a lengalenga de cor, apreendendo o Mouro de forma puramente sintática, como o diabo rouba a alma a um homem. Quando anos mais tarde resolveu perceber o que estava por detrás da celebração, o que o Mouro efetivamente prenunciava, partiu em vantagem. Já sabia que o Mouro era um caramelo, que debaixo do seu ar escorreito e falador estava um corpo amalgamado e suscetível ao calor. E não era difícil encontrar o Mouro, o apetite pela conversa trazia-lhe o gosto da rua. Quando se cruzavam trocavam a saudação, boa tarde Sr. Mouro, bo tard Joan cumprim tu mã, dizia encostado a uma parede caiada. Mas naquele dia, Joaninha ia decidida a entabular conversa, e tirando partido da visível moleza em que o Mouro se encontrava, aquela que é dada pelo sol matinal de novembro depois uns dias de frio e chuva, disse-lhe, sabe, tenho saudades de quando nos visitava à soleira da porta, j lá va tem, respondeu o Mouro entre o surpreendido e o deliciado, num movimento lento de lagarto, te notí de te pa, não resistiu a perguntar, sim, tivemos carta esta semana, ele pergunta por vossemecê, o corpo de Mouro, seja pelo calor do sol, seja pelo inesperado da notícia, arqueia enquanto pergunta, q di ele?

domingo, 31 de dezembro de 2017

Da Fisga a Flobert – Armindo

Educai os vossos moços na fisga, serão exímios na lança, pode-se ler num tratado da Grécia Antiga sobre a formação da juventude. Quando pela primeira vez encontrei esta citação não queria acreditar. Pareceu-me conter duas imprecisões que a esvaem de credibilidade, a primeira de ordem social e a segunda de ordem técnica. Debrucemo-nos primeiro sobre a segunda. Estareis de acordo comigo que não é de todo verossímil que no manejo da fisga se possam desenvolver as competências requeridas pela lança, e, contudo, de facto não é esse aspeto técnico a que me refiro, mas sim a que na Grécia Antiga não haveria fisgas, dado que um dos seus constituintes principais é a borracha. Mas a dúvida instalou-se em mim quando me ocorreu que talvez o tradutor, procurando dar uma tonalidade mais atual e apelativa, tivesse preterido a palavra funda, que seria mais fiel, pela de fisga, capaz de provocar uma imagem mais consonante na imaginação do leitor moderno, transmitindo com maior eficácia a intenção da frase. E é assim que também através da segunda chego à primeira imprecisão, a de ordem social. Suponho que já na sua origem o dito enferma dos problemas técnicos que refiro, agora não os linguísticos, mas os do uso e manejo de armas, e que eles são propositados. Senão vejamos, a funda é uma arma menos nobre, historicamente associada a pastores, usada contra animais e nas suas refregas pessoais, enquanto a lança está destinada ao uso da aristocracia e com ela se traça a história, senão vejamos todos os corpos traçados por lanças na Ilíada. Ocorre-me assim que talvez esta citação seja uma das muitas reformulações de uma mesma estória de que a história é feita, e que terá um dos seus expoentes na formulação Bíblica de David e Golias, em que o primeiro com uma simples funda e meia dúzia de pedras derrota o poderosamente armado Golias. Tem este introito o único objetivo de dar alguma universalidade ao que aconteceu naqueles meados dos anos sessenta em pleno Alentejo. Desconfiando, ou não, do caráter intemporal que os pequenos gestos podem ter, sai o Zé armado da sua flober em direção a um descampado onde sabia de antemão que o Armindo e o seu bando se dedicavam à prática do tiro de fisga. Não se enganou, pois quando lá chegou estava Armindo chefiando um exercício de acertar em latas velhas que, por lhes faltar a carapuça, se encontravam a amofinadas por todas as pedradas que levavam. Dois aspirantes situavam-se do lado de lá do muro onde as latas assentavam com a responsabilidade da sua reposição rápida, o que faziam de uma forma brusca, levando a supor algumas situações de imprecisão de tiro ou falta de organização. Do lado de cá o Armindo dava instruções sobre a arte de bem fisgar. Zé fez-se distraído e passou com a flober ao ombro tão junto ao grupo que foi impossível a Armindo inibir-se de pedir para experimentar dar um ou dois tiros. Claro, disse o Zé, passando-lhe a arma para a mão e meia dúzia de chumbos que Armindo colocou entre os dentes. Seis vezes se fez silêncio e em todas elas o Armindo falhou.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma Pista Doce – Mouro

Quando foi da prisão do Pinote o Mouro várias vezes procurou Deolinda com intenção de ajudar. A intenção era boa, mas um pouco baralhada, pelo menos é assim que Deolinda a descreve. Agiu como amigo que era de Pinote e contudo pressentia-se uma hesitação. O Mouro tinha sempre uma achega de sua justiça a tudo que se dizia. Se por acaso se comentava que o casebre não tinha sido um bom local para Pinote se esconder, logo ele intervinha para dizer que não, que não havia outro como aquele, suficiente perto para ter o apoio da mulher e suficientemente longe dos caminhos mais calcorreados. Mas, se por ventura, se estranhava como teria sido possível terem sabido onde se ocultava, logo ele aventava que por aquelas bandas ninguém consegue estar muito tempo sem ser dado por visto, então o Ti Zé Ramires não foi encontrado morto lá para os lados da zurze, exemplificava, onde nem animal vai, e defunto como estava de certeza que Ti Zé não mexia nem mugia, vincava com os elementos bucólicos que, nem ele sabia porquê, enfeitavam a sua prosa, e lá deram com ele quando ainda não há muito teria arriado, tal que ainda nem os filhos tinham mostrado sinais de preocupação e já tinham o corpo do progenitor à porta para devolver à terra mãe. E lá ouvia Deolinda o Mouro, um pouco estupefata com a resposta pronta para as questões referentes às ocorrências que levaram ao encarceramento do Pinote. O Mouro colocava no tratamento deste assunto a mesma argumentação atrapalhada com que foi apanhado pelo Sr. Morgado. Não é que ele estava a falar com o porco, estranhava o Morgado, sem ironia nenhuma, que era homem pio e austero, pouco dado a imaginações. Mas nem todos são assim, e lá na terra zombava-se que o Mouro teria desenvolvido poderes de falar com os animais, e por isso, se tinha escapado a um destino pior foi decerto porque o porco intercedeu por ele, que o Mouro não lhe teria querido fazer mal, e que de certa forma até lhe estava agradecido pela companhia, que passar a noite sozinho na pocilga é um aborrecimento, e uma visita é uma visita. Salvo pelo suíno, galhofava-se. Mas menos certa disso andava Deolinda. A mulher de Pinote, depois das várias intervenções atabalhoadas do Mouro, e da confissão que o Aires lhe fez sobre a conversa da Marquesa, e do rumor que se dizia o Mouro ter lançado da boca do Pinote sobre a intimidade desta última, deu-lhe para juntar um mais um e mais outro, para concluir que o Mouro sabe coisa. Passou a recebê-lo cada vez mais em silêncio, de tal modo que este, sentindo que a nascente onde se alimentava secava, foi espaçando as visitas de tal forma que passado pouco tempo já não era aparecido. Deu graças Deolinda, que não era mulher de ressentimentos, mas a quem, devido ao resultado da soma, a presença do Mouro passou a criar uma sensação de mal-estar no estômago, daquelas que provocam úlcera. Nos serões, quando à noite à porta de casa a filha lhe perguntava sobre o pai, a mãe lá lhe ia dizendo que o Mouro tinha sido um caramelo.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma Pista Difícil – Mouco

O Mouco não gosta de crianças. Quando as vê corre logo com elas. Aquilo nem aproximar, levanta a cabeça do chão, puxa o braço acima, cotovelo e mão à mesma altura, não se percebe se como ameaça, se para proteger os olhos dos raios do sol, e rosna, arre daqui. E é no rosnar proferido com uns olhos faiscados de vermelho que fica claro, o Mouco não gosta de crianças. E não deitem a culpa à bebida, coitada, que tem a costas largas. Na taberna do Manel encontram-se bêbados bem ternurentos. Sempre na brincadeira, trocando trocadilhos de camaradagem. É claro que às vezes as coisas azedam, há desafios que se transformam em desaforos, isso sim, o álcool é o responsável pelas derrapagens, mas nada que possa desresponsabilizar o Mouco do seu fel. E nem sequer é coisa que compreenda, quando não bebe sente aquele frenesim, e depois de beber fica na mesma. Não exatamente na mesma, senão de que serviria beber, é um frenesim ao ralenti e isso faz diferença, como uma forma de consciência. Nesses momentos o Mouco sente-se como o protagonista de um filme, enquanto corre atrás do Armindo em volta da mesa está também sentado na plateia, lá bem na fila da frente, com o ecrã a entrar-lhe pelos olhos adentro, a observar-se, como um cavaleiro engalanado pondo em debandada um grupo de inimigos. Por isso, quando levanta o braço e expele para os garotos, arre daqui, fá-lo de modo tão contundente, tão cénico, que já se sabe que o melhor será guardar distância. Sendo o Mouco uma pista, não é, por conseguinte, uma pista fácil, pelo menos não como aquelas que se encontram na neve fofa, feita de peugadas, seja de botas, de cavalos ou de pneus, e que se pode docilmente copiar para uma folha de papel. A Joaninha contou ao Zé que foi o Mouco que agrediu o pai dentro da prisão, e não os guardas na sequência da sua fuga, como se disse nos jornais. Quando o Pinote encontrou a porta da cela aberta já tinha levado a zurra do Mouco e foi muito a custo que se arrastou pelos corredores da prisão até ser de novo apanhado. O Mouco deve saber alguma coisa. Quem é que o chamou à prisão quando o Pinote foi preso? O Zé anda às voltas com isto. Como saber o que sabe o Mouco. É verdade que na taberna ele se vangloriou naquele dia, mas nunca disse quem foi que o lá levou. E isso foi nessa altura, porque com o desenrolar dos acontecimentos a bravata desapareceu do currículo oficial do Mouro, passou a fazer parte apenas de um ligeiro cerrar das pálpebras, acompanhado por uma propositadamente impercetível contração dos lábios. O Zé já perguntou ao Manel se sabia de alguma coisa, mas ele fechou-se como uma ostra, o molho por fora apetitoso e ela cerrada, de dentes que nem à faca se conseguem abrir, não fosse o Manel um taberneiro, trabalhando no ramo das profissões onde juntamente com o produto vendido vai a presteza para ouvir, concordar e calar. Mas o Zé não é rapaz para desanimar com dificuldades, independentemente do seu tamanho, e ocorreu-lhe que o Armindo pode saber algo.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Clube – Zé e Joaninha

Pertencer a um clube tem o seu quê. Não àqueles cuja admissão apenas requer a convicção, mas aos propositadamente faltos de espaço. Normalmente meia dúzia de cadeirões de pele numa sala impregnada de madeiras, castanhas escuras quase sempre, tenho que carregar nos plurais para descrever com precisão o tom carregado destes lugares. Clubes onde não se vai para falar, mas sim para trocar umas esparsas palavras, de uma íntima circunstância, como quem convive com um parente há muito amado e morto. Tudo o demais acontece com cada um na sua aura, folheando longamente o jornal, no vagar de quem o que possa acontecer no mundo já pouco ou nada lhe diz respeito, a não ser para uma observação curta, dita para dentro ou para o cadeirão ao lado, carregada de uma confirmação que nem sequer pode ser cínica, pois os que por ali assentam nunca chegaram a desacreditar das convenções sociais. Lugares conservadores por natureza, onde a leitura de jornal é como um sossegado jogo de paciência em que com cada notícia se preenche uma entrada na ontologia que descreve o universo. No caso do Pinote não podia ser mais simples, agitador mata capitão responsável pelas forças da ordem, diz-se no título principal, seguindo-se, a letra mais modesta, a indicação que foi durante uma tentativa de fuga que se deram os factos. Já no fim da notícia se informa que o indivíduo, de alcunha Pinote, muito embora tenha oferecido resistência, foi rapidamente detido pelas autoridades e que terá ficado ferido com alguma gravidade. Está a acontecer, diz um membro ao fundo, por entre as folhas grandes do jornal que segura com mãos brancas, de dedos compridos salteados por pelos tranquilos. A observação é tão certeira que não surte nenhum comentário. Não para de chover, observa o Zé para preencher o silêncio que se criou no casebre desde que chegou. As chegadas inesperadas dilatam o espaço, mas não de forma uniforme, dão-lhe um jeito alongado do lado do que chega à custa de uma contração no sítio do que estava, provocando incómodo a ambos, ao primeiro, a sensação de ligeiro resvalar no sentido oposto ao movimento de chegada, e ao segundo, uma tração sem explicação em direção ao chegado. Ou seja, o imprevisto provoca um deslocamento, o que neste caso nem pode parecer surpreendente dado o estado do casebre, descaído de um dos lados. Assim, se quando Joaninha ali se arrumou parecia que não caberia mais ninguém e todos os ruídos eram próximos, agora com o Zé sentado ao seu lado o interior do casebre afunda-se, para além da porta, até à janela triangular, e os sons da água a bater nas traves quebradas mal se percebem ao longe. Sim, quando eu cheguei estava a começar, confirma Joaninha, é capaz de ainda demorar um pouco mais. Ficam assim a olhar pela porta resignados a que a borrasca passe. O teu pai não é o Pinote, não resiste o Zé a questionar, não tirando os olhos do branco aberto pela porta. Se Joaninha respondeu ou não, não sabemos, pois nesse momento a chuva disparou em tal saraivada que o melhor é calar e ficar à escuta.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Casebre – Joaninha

Se quisermos descrever um lugar no Alentejo, então o melhor será utilizar o outono como pano de fundo. Assim, escapamos aos estereótipos do estio, da acalmia, dos silêncios afogueados. É quando dois nomes nada parecem ter a ver um com outro que o seu cruzamento nos pode trazer algo de novo. Há, por isso, duas formas de dizer. A primeira, preguiçosa, é como um insulto, feito de uma única palavra, na certeza de abrir um dicionário do outro lado. Desta se fazem as exaltações para fora e por sua cautela se inventou o politicamente correto. A outra, lânguida, revela uma entrada em branco, produz um instante de vazio, como o momento em que água ameaça lançar-se num pulo. Desta outra se fazem as exaltações para dentro e por sua cautela se criaram os grémios literários. É por isso que vos descrevo no outono o casebre alentejano onde Pinote se escondeu há mais de dez anos atrás. Sabemos que esteve lá com o verão, tão dado a contemplações, não como imperativo metafísico, mas como uma estratégia de contenção do suor, feita de movimentos pausados. Sabemos que foi isso que fez durante o dia, mas que de noite se entregou a conversas com a natureza, argumentações descabidas, a não ser que venham a ser apresentadas como fontes de profecias e encontrem algum seguidor. Não foi esse o caso, até porque não sabemos o que se transacionou e para encontrar num sapo alguma manifestação do divino é necessário regressar a tempos mais primordiais. Portanto, um casebre. Derrubado, quase todo ele. Telha chapada, enegrecida pelo calor. Janela triangular, pela fraqueza de uma parede. Traves em vê, com espigões secos de revolta. Branco tingido, pelo azul dos rodapés. A laje poeirenta, onde Pinote se deitou. Podia ter-se transformado numa ermida. Daquelas aonde se vai em romaria durante uma tarde quente de verão à procura de vinho fresco do barro e conforto na ordem existente. Mas isso é no verão. O outono é áspero. Quem por aqui vem é a Joaninha. Não teme o azul escuro cinzento, que atormenta dos céus. O vento que se levanta rápido, trazendo o cheiro a chuva. Põe a capa e diz à mãe que já volta. Quando se afasta já as mulheres estão a tirar a roupa dos arames. Não faz o caminho do Aires pois o ribeirão já leva água. Ainda assim, tem que saltar por entre rochas pontiagudas, que por aqui a chuva é de visitas brutas que não amaciam pedras. Quando chega junto do casebre, as escassas pingas grossas, que voam oblíquas puxadas pelo vento, reduzem o espaço de permeio. Rapidamente se abriga de pernas cruzadas sobre a laje. Ajeita uma ou duas telhas para impedir a entrada da água. O vento entra pela janela triangular e escapa-se pela porta, fazendo uma tangente ao corpo de Joaninha. A água escorre das telhas molhadas para cima das traves quebradas, enchendo o casebre dos cheiros quentes do verão acumulados na madeira. Uma atmosfera de estufa que é por rajadas empurrada para fora. O repentino aumento do ruído da água a correr no ribeirão leva Joaninha a desviar a atenção das traves ensopadas, quando enfrenta dois olhos molhados e um bafo quente que pedem para entrar.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Nabo – Zé

Pode-se gostar ou não, mas nabo sabe a nabo. O resto, as repulsas e as delícias, é já uma questão cultural, e, como tal, uma questão de grupo. E o avô pertencia ao grupo dos homens formados na clareza de espírito, que cultivam uma ligação direta entre a mente e o corpo, sem rodopios, como quem tem um carro para se deslocar de um sítio ao outro e não para fazer piões. Com essa máxima montava o diapasão com que orientava a formação educativa do neto. Com este, procurava provocar ruídos bem pautados, nos antípodas do chiar da borracha do chão. Naquele tempo, quando já se ouviam uns zunzuns sobre outras possibilidades, do esbanjar da existência em curvas e contracurvas efetuadas para não chegar, e, mesmo sendo um progressista, não podia deixar de mencionar de si para si, que o Dr. Galvão cultivava a discrição com uma quase religiosidade, que estava a ficar velho. Nisso têm os conservadores vantagem, nunca se podem sentir atraiçoados pelo tempo. Assim, pode-se ler no ritual do nabo um processo formativo, no qual, consciente do fosso criado pelas diferenças de idade, o avô simulava os ruídos a que não achava sentido, raspando a fibra do nabo no esmalte dos dentes, para extrair sucos límpidos, sem voluptuosidade. Numa frase, efetuava malabarismos de juventude com bolas antigas. Podeis achar rebuscado, mas de igual modo se pode ler na pressão de ar o mesmo máximo cuidado, uma precisa delineação geométrica entre o gatilho da espingarda e o corpo do pássaro. O Dr. Galvão era um liberal de linhas diretas, e não é que não tivesse os seus vícios, os charutos que partilhava com Sr. Marquês, por exemplo. Mas a república é plural, e no seu panteão jaz a tolerância de muitos deuses, sendo missão do homem experimentar as várias roupagens com que se pode cobrir. O que ele verdadeiramente temia era o oblívio prematuro, a vida numa única veste. Por isso o nabo, que despe a boca de sabores. Mas nabo sabe a nabo. E se para o avô havia uma espiritualidade racional no seu exercício, para o Zé, objeto da pedagogia possível, ainda que cuidadosamente elaborada, o nabo sabe a isso mesmo. Foi esse o gosto com que ficou na boca, tendo-o assaltado uma dúvida forte, porque é que os avós não disseram nada, já saberiam que não tinha sido o Pinote, ou desviaram o assunto por ele ser delicado. Como vedes, na altura o Zé já vivia com interrogações, mas era então mais dado à procura de respostas. Começou a fervilhar por dentro. Sentiu-se investido da responsabilidade de que foi empossado. Era igualzinho ao avô, disse a avó. E a questão do Pinote não era alheia à família Galvão. Ouviu uma vez na taberna do Manel, enquanto este passava os pássaros por um fio de azeite quente, o Mouco dizer entredentes, para que ouvisse, olha, olha, o netinho do defensor do Pinote, o que perdeu o pio. Foi assim que foi sabendo da história que se contava baixo, porque o Hilário tem muitos ouvidos, de um Pinote que não tinha medo de ninguém, que enfrentou o Hilário e que o avô o defendeu em tribunal da acusação de ter morto o Capitão Simões. O Pinote haveria um dia de regressar, dizia-se.

sábado, 25 de novembro de 2017

Avô – Avô

Quem foi então que matou o Sr. Capitão Simões, perguntou inexpressivo o avô, enquanto mordia ruidosamente um pedaço de nabo. Digo inexpressivo, pois o nabo ao sentir-se apertado liberta uma água adocicada, rica em sais, que enche a boca com o sabor das nascentes de montanha. Um gosto frio a seixos ladeados de bolhas de ar, na eminência de serem empurrados encosta abaixo, devido a um súbito aumento de caudal, como aquele que agora brotava dos dentes do avô, pelas gengivas, tombando sobre a língua, circundando momentaneamente por debaixo desta, numa pequena lagoa onde o Dr. Galvão especialmente se concentrava para sentir o suco ainda gelado e relativamente livre de saliva. Era apenas quando estas glândulas, obcecadas pela a sua missão funcional, num processo a que devem a sua existência, começavam a bombear calor e matéria pastosa, que o avô engolia. Fez-se um silêncio glacial. O avô, com uma feição estanque, onde pairava uma interrogação que encobria um sorriso, mantinha o olhar no neto enquanto que, com a mão cega, retirava o miolo do pão com que gostava de enxugar a boca depois do ritual do nabo. O Zé nem sequer procurou palavras, cansado que estava das que tinha proferido, pois, ainda que apenas as tenha pronunciado uma única vez no ar, lá dentro foram tão repetidas que agora não tinha outras. Com a mão alcançou o pequeno prato onde a avó coloca as rodelas de nabo à disposição do marido e, sem hesitar, precipitou para a boca a que estava acima, bem grande por sinal, extraída da parte mais bochechuda do tubérculo, lá onde a cor rósea está paredes meia com o branco marfim, provocando-lhe um sufoco libertador, obrigando-o a ajeitar a rodela com pequenos movimentos, encaixando-a finalmente entre os molares. Fez tudo isto sem lhe sentir o sabor, tão atarefada estava a boca na gestão do volume. E, se antes nada poderia ter dito, agora, que se concretizava um antigo receio, aquele em que, desconfiando de um cheiro que lhe arrepiava as pupilas gustativas, temia de algum dia ter de vir a tragar tal coisa, o calce que tinha entre os dentes imobilizava-lhe os maxilares, dando-lhe uma expressão bolachuda, paralisando-lhe o rosto enquanto os olhos firmes ganhavam umas pontas avermelhadas. Se apertou os dentes, foi para respirar. Foi como se um forte aguaceiro se precipitasse sobre o seu corpo. Água apenas, que a fibra, essa, deixou-se espremer mas não de desfez, ficando como uma nuvem enxuta entre os dentes. Se não foi o Pinote, então quem terá matado o Capitão Simões, questionou-se incomodado com os restos de nabo que, soltos da opressão dos dentes, se entregavam à liberdade de vadiar. Depois de uma resposta há uma pergunta para qual apenas conseguimos ficar calados. A avó veio em ajuda do neto, a comer nabo cru, estás a ficar igualzinho ao teu avô, disse procurando equilibrar a dose de graça com a de elogio. Foi ainda com os olhos fixos que o Zé levou à boca o pedaço de pão que tentou apanhar com naturalidade da mesa, quando ouviu do avô, numa cumplicidade masculina, é bom, não é?

sábado, 11 de novembro de 2017

A hora da refeição é sagrada – Dr. José Galvão, Esposa e Zé

Como qualquer homem treinado na barra de um tribunal, o Dr. José Galvão gere com precisão as suas expressões faciais. O rosto é como um cão amestrado, sentado, com os olhos abertos e a língua esgueirando-se pela boca entreaberta, preparado para receber uma ordem, fazer uma graça. Tem, por isso, um ar patusco, a que facilmente nos afeiçoamos, e que os incautos sentenciam ser inofensivo. Mas lá dentro está uma máquina bem oleada, recebendo informação detalhada através de globos oculares um pouco debruçados para fora, como uma velha à janela. É por causa desse olhar, que não consegue disfarçar um pendor esbugalhado, que aqueles que o enfrentaram, aqueles que de alguma forma tiveram de com ele esgrimir alguma razão, seja no tribunal ou na política, afirmem em privado, e apenas para os de confiança, aquele ar é uma armadilha. Mas todos sabemos que com vinagre não se apanham moscas, e, das intenções, nada há a apontar ao Dr. Galvão. Pelo menos eu, que partilho as suas opiniões, mesmo não podendo dizer com toda a certeza quais são, só vos posso assegurar que não há, até ao momento, neste relato, nenhum outro homem, ou mulher, que me inspire mais confiança, e que eu não abdique de qualquer atividade ou compromisso, para poder partilhar uns momentos com ele, trocar uns pareceres, deleitar-me como me perscruta enquanto falo, seja do tempo ou das pessoas, com um sorriso que me inspira a continuar. E não encontro melhor forma de figurar o Dr. Galvão fora da prisão do corpo, que pouco deixa acrescentar a um par de olhos, um nariz e uma boca, delimitados por duas orelhas, do que uma mesa posta, pronta para a refeição, para receber os convivas. Aí sim o posso descrever em plenitude, expandindo-se por todo o tampo, com os pratos vazios, sorridentes, recetivos, os de sopa por concavados, rechonchudos, encimando os rasos, como pétalas de uma flor expetante, os debaixo por silenciosos, sorrateiros, aguardando a sua vez, para depois do desfolhar do acolherar do creme, pouco a pouco, até ficar apenas a pequena película, que da loiça se diz suja, nota de um estômago começado a aconchegar, dum amaciar dos modos, um escorrer das educações, das empatias, queres mais sopa, pergunta a avó, que o que primeiro foi regulado foi a partilha, na génese da moral. E o avô silencioso, todo ouvidos, porque a hora da refeição é sagrada, que a ele coube a honra de a concretizar, lá fora colheu os frutos para agora os plantar sobre a mesa, observante, expetante, sorri, deixa acontecer. E o Zé que trazia aquilo guardado, ali por alturas do diafragma, onde o estômago e os pulmões se acotovelam, toques simpáticos, brincalhões, na hora da refeição, porque a hora da refeição é sagrada, diatribes inocentes, sem sarcasmos, da mesma forma que se podem tolerar brincadeiras de crianças na hora da missa, e ainda assim, ali andava a coisa, que teimava em não sair, empurrada para cima, empurrada para baixo, torneada em todas as possíveis variações com que poderia ser dita, e quando desarmou a guarda saiu tal qual a ouviu de Zalo, não foi o pinote que matou o capitão simões.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Sétimo Céu – Armindo

Aquele deixai o Zalo em paz entrou pelo Armindo adentro como um trovão. Paralisou-o. Dos pés à cabeça. Foi um relampejar frio que lhe subiu pelas pernas acima, seguido de um aumento instantâneo do metabolismo que lhe colocou o corpo em chamas, e a culpa de tudo estava no coração que se atirou numa cega corrida em frente, sem razão, por isso, os membros, mais sensatos, não tugiram nem mugiram, deixaram-se estar, milhões de anos de evolução deu-lhes a sabedoria que dali só podia vir asneira. Já os companheiros estavam estupefactos. O gigante Armindo. Não entendiam. Há nas diferenças de idades mistérios que só a química pode explicar, e num grupo de formação tão recente, onde o líder, por questões de autoridade, recrutou membros mais novos, estes são desprovidos de ambos os atributos necessários ao entendimento, a idade e a química, já para não falar do conhecimento dos seus efeitos, que a adesão à causa do Armindo marca um rumo onde o saber não ocupa espaço. O próprio não dava conta de si, as primeiras manifestações químicas são como os vulcões, lançam a poeira que esconde a lava. Não é, com certeza, nas corridas à volta da mesa que nos preparamos para estas eventualidades. Quantas vezes não terão os cidadãos de Pompeia passeado à volta do Vesúvio, usufruindo da bela paisagem das encostas onde as videiras prometem o doce vinho. E Joaninha, embora fizesse fé de ignorar o que é belo, não podia lutar contra a própria natureza. Isso entrou pelos olhos de Armindo de forma nublosa. O que primeiro viu foi o desaforo, o desafio, a ele, chefe de pandilha, engalanado nos seus próprios sucessos, feito em frente do seu exercício, em pleno campo de batalha, quando se preparava para uma investida, tendo já prometido aos da sua trupe o desfrute do saque, que da divisão de dividendos se fazem as organizações fortes. O que temeu primeiro foi o descalabro de uma ordem, feita à chapada, é certo, mas uma ordem tout court, uma paz romana exportada de casa, que deixa todos dormir tranquilos sabendo com o que podem contar no dia seguinte. Por isso sentiu ódio por Joaninha, reviveu-lhe o seu pior pesadelo, alguém a quem não se pode dar um par de sopapos, pedra basilar da sua construção cotidiana. E em segundo lugar, e isso sim foi devastador, e a razão última porque foi incapaz de esboçar uma retirada estratégica, virando costas e entoando com desdém para os seus seguidores, raparigas, foi aquela sensação doce que a imobilização muscular lhe trouxe, uma magia que os poetas enchem de palavras, mas que Armindo não verbalizou para além de dois ou três grunhires, que a língua, sorrateiramente avisada pelos membros, resolveu não levar adiante, destravando-se do cérebro. Foi a rapariga que o soltou dizendo-lhe, que estás para aí pasmado. Deu corda aos sapatos, afastando-se atabalhoadamente, pressentindo algum desconforto nas suas hostes, um abaixamento de moral resultante de uma crise de liderança, que teve de resolver nos dias seguintes aplicando corretivos, enquanto ia descortinando que uma coisa como esta não deve ser deste mundo.

sábado, 28 de outubro de 2017

plosAires – Zalo

Lá vai o Zalo plosaires! Lá vai o Zalo plosaires! Grita um grupo de rapazes, distintamente chefiados pelo Armindo, um grandalhão de calções de alças, desproporcionados para o corpo que cobrem, filho do Mouco, exemplarmente educado pelo pai numa dura disciplina de porrada sem eira nem beira, isenta de qualquer sentido lógico, ainda que o pai anuncie cada nova sessão com irrefutáveis argumentos, e mesmo que o miúdo insista em ensaiar umas voltas em torno da mesa, puxando mais pelo progenitor do que abrindo a porta a uma qualquer escapadela, enquanto a mãe observa com algum alívio por para já não ser chegada a sua hora, e de quem o professor desistiu de educar, desde que quase teve uma síncope depois de lhe arrear com a régua no traseiro, pois não arrancava da tabuada do dois, enquanto o matulão mostrava um risinho escarninho para o resto da classe, ainda insistiu o educador, ah, estás a rir, disse, aumentando a intensidade e frequência da tábua de madeira, até que finalmente percebeu quanto os seus métodos pedagógicos estavam aquém dos do progenitor, resolvendo passar a tratá-lo com a um adulto, então quando vais trabalhar, disse-lhe, já numa linguagem de gente crescida, e contudo o Armindo gostava da escola, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, no recreio um rei, pondo em prática o que aprendia em casa, que na sala de aula divagava, o que irá naquela cabeça, pensava o professor, sonharia quando pairava os olhos pela janela, mas isso era o professor, dado a poesias, desterrado para aqueles lados por imposição do destino, que até a lei da régua surgiu por adaptação à realidade, realpolitik, chamou-se lhe mais tarde, que esta gente já chegava à escola formada, com frequência sazonal, modelada pelas colheitas e pelo tempo, com a chuva eram mais assíduos, não o Armindo, que vinha sempre, o pai não era muito dado a obrigações, nem um pedaço tinha para si, que os outros sempre se iam dedicando a um cantinho, próprio ou emprestado, muitas vezes nem emprestado, consentido, mas a escola era tudo para ele, sempre que chumbava ficava mais próximo do professor, inconscientemente percebendo a teoria dos dois poderes, o da força do conhecimento e a do conhecimento da força, por isso facilmente formou uma pandilha, mesmo que nas regras de admissão fizesse parte levar uma coça do líder, mas era uma única vez, à entrada, era da praxe, Roma e Pavia não se fizeram num dia, e depois já se podia começar a meter a colher na sopa, desgraçados são os que não vão em grupos, como o Zalo, filho de pastor, que nem à escola ia, ceifeiro é homem, pastor é pastor, não se dá com gente, não vai à taberna, não opina, não comenta, pasta, cheira a bicho, não cheira a suor, e é opinião formada a superioridade do vinho sobre o leite, o próprio senhor doutor disse, o vinho dá de comer, portanto, coitado do Zalo, despojado de ambos os poderes, quando na mirada desta pandilha, continua caminho como se não fosse nada, mas desta vez, talvez por ser início do dia, talvez por uma sinergia de grupo ainda por perceber, vinham mesmo por ele, não fosse a Joaninha lhes ter gritado, deixai o Zalo em paz!

domingo, 22 de outubro de 2017

Com ele ao colo – Joaninha

Joaninha quase viu Zalo nascer. Quase, pois um parto não é espetáculo para uma criança de oito ou nove anos. Nem para ninguém, dado o seu desfecho incerto. Por isso, se espera que a natureza faça o seu trabalho, que dê vida ou a retire. Por isso, não é a chegada da hora que trava os homens de irem aos seus afazeres, submissos ao destino. E o que sai de entre as pernas da mulher é visto com a desconfiança com que se olham para as promessas. Que vingue primeiro, que mostre do que é capaz, antes de começar a ser levado a sério, alguém com que se possa contar, para trabalhar e para procriar. Por isso, a mulher é deixada só, ao cuidado de outra, mais experiente, de uma experiência contada no número de partos, pouco interessando do seu sucesso ou insucesso, mais como celebrante do que como resultado de uma qualquer capacidade técnica. Deolinda foi tomando essa função. Ter o homem na prisão emprestava-lhe a pureza celibatária requerida para a consagração da monstruosidade com que a natureza se manifesta nestas situações. A limpeza do sangue do corpo da criança, a recolha das entranhas esponjosas que tombam no chão, por entre um bailado de moscas exultantes com o que todas as manifestações de vida lhes profetizam. Joaninha quase viu Zalo nascer porque esteve do lado de fora. Recorda-se que Alzira blasfemou contra toda a criação e jurou que nenhum homem lhe voltaria a provocar uma dor tão tardia. Quando chegou a sua vez de pegar nele ao colo, surpreendeu-se com o seu aspeto engelhado. Não era bonito. Veio ao mundo com ar de bicho façanhudo, parecendo ter sido moldado pelas imprecações da progenitora, como se de uma primeira manifestação de amor filiar se tratasse. Há em certa fealdade uma postura de desafio, de régio isolamento. E por isso, Joaninha, achou-lhe graça. Na ausência do pai, vinha cultivando o gosto pelo prático, procurando remover todos os vestígios de estética, que via como uma afronta ao cárcere e à reclusão. Nas escassas visitas que lhe fez, nunca viu o Pinote atraente que regalava os olhos das mulheres, centrava-se antes na sua determinação e vontade de lutar, que são avessas a contemplações. As exaltações primordiais de Pinote foram acamadas na prisão sob as rotinas diárias, a partilha com os camaradas e as demonstrações de existência com os guardas. Trazia assim na memória um pai escuro, de corpo escorreito pela perseverança, de palavras escondidas, como os doces guardados à chave no armário, que se comedia na demonstração de afetos e lhe falava de uma forma lógica, por frases marcadas por antecedentes e consequentes bem explícitos, exemplos claros, escolhidos a dedo, como se de exercícios pedagógicos se tratassem. Terminada a visita ficava com muito tempo para cimentar a lição. Por isso, quando depois dos gritos de revolta de Alzira recebeu Zalo ao colo, com o seu rosto comprido, de faces assimétricas, olhos pequenos e fechados, que olhavam com desconfiança fugidia, e longos cabelos pretos e sebosos, viu um bicho acabado de sair da toca, e recordou-se de Pinote.

domingo, 15 de outubro de 2017

Minorca – Zalo

O mundo é feito de perspetivas. Assim visto de baixo, o minorca Zalo parece enorme. Nos seus cinco ou seis anos, junto ao agachado Zé, depois de ter dito o que lhe parece ser a derradeira fala, aquela que os grandes atores anseiam poder dizer. Uma fala que agarra plateias, que as afunda nos assentos estofados em que assistem ao espetáculo depois de jantar, de estômago cheio, quando a sangue deixa o cérebro, abandona as preocupações, para rondar os sucos digestivos, como uma matilha de coiotes uma vaca moribunda, ficando a mente vazia, absorvente de personagens, de ambições, de poderes, de amores, de ciúmes, de batalhas, de triunfos, uma porta aberta para a vida dos outros, para a vida pela libertação da vidinha. Por isso Zalo, o minorca, é gigante. Zalo o filho de Aires, o cabeça no ar, o protegido da Sra. Marquesa, vá-se lá saber porquê, talvez porque o tormento procura a expiação, agarrando-se à terra, como um s que numa ponta cerra o chão e na outra o esticador, lançando as fundações sobre as quais se fazem as obras. Por isso, aconteceu um milagre, que é um resultado para o qual não se encontra causa nas ações que o precederam, como é que o Aires encontrou a Alzira, uma mulher prática, uma mulher rente ao chão, sem educação, boa a fazer contas, invisível para o imaterial. Dizem que foi a Sra. Marquesa que a viu, que lhe falou, que lhe sugeriu o Aires, que lhe prometeu o dote, o rebanho do Sr. Marquês. Dizem que Alzira pediu uma parte do leite para fazer queijo e direito para o vender, para arrebanhar algum para si. E não é que o Aires não lhe agradasse. As mulheres terra a terra acham graça aos distraídos, àqueles que não dão com o caminho, pois sabem bem o que lhes falta a elas, e por reconhecimento tornam-se deusas da fertilidade, redondas, à volta de uma panela negra cheia de sopa. Por isso Zalo é gigante ao pé do Zé que mal o conhece. Sabe que é um miúdo da terra, filho do Aires, o pastor do Sr. Marquês, e é tudo. Mas agora, de cócoras, nesta perspetiva, sente-se minúsculo, ele, Zé, o caçador, o neto do Dr. Galvão, homem respeitado na vila, até pelos opositores políticos, pois um meio pequeno não permite demasiados antagonismos, ou não casou o seu filho, o pai do Zé, com a filha de um grande proprietário, é verdade que ela também aderiu às ideias revolucionárias, que andam ambos fugidos em França, guedelhudos, dizem os familiares daqueles que também para lá foram por razões mais prosaicas, razões práticas, e, ainda que a milhares de quilómetros da terra, não se deixaram contaminar pela indiferença, filha da liberdade e da igualdade, e por isso comentam, vi por lá o filho do Dr. Galvão e a filha do Sr. Comendador, coitados. E há melhor indício da chegada da revolução do que quando os oprimidos, em vez de se revoltarem, se compadecem da decadência dos senhores, os medem pelos mesmos valores com que são discriminados, o aprumo, a aparência, o decoro, a disciplina, a continuidade, os pilares da instituição conservadora. Por isso, o Zé, com os calções na mão, embalando a pressão de ar, sente-se nu, aos treze anos, perante Zalo e a revelação que sai da sua boca.

sábado, 7 de outubro de 2017

Uma questão antiga – Zé

Encoberto pela árvore, Zé tem o olhar distante de quem perscruta o horizonte. Escolheu um cabeço de onde pode antever a aproximação de alguém e tirar partido da posição de cócoras. Não era este o plano com que saiu bem cedo da casa dos avós pela manhã. Com a pressão de ar, trazia o destino de alguns pássaros em mente. O despertar do sol, e o ar fresco, torna-os incautos em chilreares e saltos de ramo em ramo. Zé tem boa pontaria e cada sortida é combinada com o fritar dos pequeninos na tasca do Manel, que a avó não é fã de carne doce, nem pretende favorecer os dotes de caçador do neto, para além de ter horror a sangue, deixando o degolar e depenar da galinha à criada, com ordem explícita que seja feita longe da casa e avisada com antecedência para não se ver surpreendida. Foi o avô que lhe comprou a arma, em divergência com a mulher, e acertou com o Manel que tratasse de converter a sorte do miúdo em feitos, partilhados e louvados, que o reconhecimento social dos atos de um homem arma-lhe o orgulho e alenta-lhe a determinação. Por isso, quando pela primeira vez saiu de casa com o cano reluzente de novo, lá estava o tasqueiro, famoso na terra pelos seus petiscos, e não posso deixar passar sem enaltecer a carne de porco do alguidar, a elogiar-lhe o garbo e oferecer-se humildemente para adornar as suas realizações de caçador com azeite e ervas. Foi assim, com a tranquilidade de quem sente a conjugação dos astros, como a personagem central de um quadro caça, que Zé partiu e não dececionou. Ganhou fama como atirador e, entre os miúdos menos abonados da sua idade da terra, passou a ser alvo de admiração e inveja, pela pontaria e pelo fuzil. Estes, limitados à caça com custil, a qual, ainda que possa trazer resultados mais frutuosos, especialmente quando dispostas em recantos fresco à sombra por forma a que as agúdias agitem as asas, não dá azo a façanhas nem a narrativas. E isso faz toda a diferença. De que se pode gabar o que monta a armadilha e depois tem de confiar que a sorte lhe lá coloque a presa? E, se, num momento de desespero, trouxerem à baila que também batem o terreno quando com a sachola procuram o formigueiro. E, de que é necessário olho para distinguir aquele que as tem com asas. Ou, da arte de escavar um marmelo onde as arrolhar, para engordarem e ficarem viçosas, apetitosas para os olhos dos pássaros. Quem se arriscaria a comparar os dedos a correrem abaixo acima o cabo de um pau levantado alto para bater com força na terra com a delicadeza de toque de dedo dirigido pelo olho certeiro. Por isso, o que fica ao longe de cócoras observando o aproximar do pássaro, sofrendo com as suas hesitações, sonha com o que tem no dedo o poder de por fim a todas as indecisões. Mas hoje não foi assim, apanhado desprevenido, alguma coisa que comeu na noite anterior, ali está como um índio de guarda ao acampamento, com a espingarda entre os braços e os calções em baixo, quando houve uma voz que lhe diz, não foi o pinote que matou o capitão simões. Assim, tudo em minúsculas e na voz vacilante de miúdo imberbe.

sábado, 30 de setembro de 2017

da união do céu e da terra – D. Eduarda e Catarina

Na clausura dos sentidos, vedados por frestas, de uma virgindade decantada pelos olhos, pela pele, na excitação adolescente pelas chispas do exterior, quase sempre imaginadas, mas abalançada a supor maravilhas, o rebentar dos membros, o rasgar das raízes, o céu e o inferno, submissões e exaltações, alma e corpo, dilacerados por longas guerras fratricidas, do bem e do mal, da energia e da razão, da astúcia e da ira, do leão e da raposa. Dependurados de uma raiz de árvore feita céu, debruçados sobre o abismo, observando as profundezas da terra, onde os corpos ardem em vida, arrebatando-se, julgando-se, evocando-nos com inveja, com vileza, atribuindo-nos a responsabilidade pelas suas decisões, queimando-se os corpos com a chama da alma, espiritualizando-se os cadáveres. Um mundo aos tombos, onde a poesia vira lei, racionalizada, penteada, compreendida, dividida em partes, distribuída em pequenas doses de moral, tomadas com os olhos fechados e a respiração suspensa, punindo o corpo, sacralizando. Só a união do céu e da terra salva. Infinita, liberta dos sentidos, extravasada, sem canais comunicantes, reconstruindo-se sem entendimento. Cada um por si, ignorando-se, acasalando ocasionalmente, em silêncio, porque o paradoxo é filho da comunicação. O céu leva um vestido de noiva, vaporosamente branco, deslocando-se lentamente com realeza, pairando, deixando-se penetrar pelos olhos dos convidados, sem vergonha, protegido por um manto núveo. A terra carrega o almofariz onde se mói um estúpido envolto em trigo, germinando monstros como ele, descarados, filhos da astúcia, primos da ira, brincos de escárnio, sandálias de bosta, untados de fluidos, percorrem os caminhos na alegria da exaltação dos cheiros. Um noivado desfeito em divórcio anunciado pela presunção dos sábios, que atiraram o céu lá para cima, um céu roubado à terra, distanciado, limpo, perfumado, lugar dos puros, dos inócuos, dos de sentidos fracos. Sábios esses que de seguida compraram o bilhete de ida para o destino inventado, com asceses, jejuns e caridades. Trazê-los de volta é missão do poeta, despertar-lhes o odor, devolver-lhe o corpo. Para isso prepara o casamento, um festim onde as frestas dos sentidos sejam trespassadas pelo estrondo das trompetas, as escadas lançadas às muralhas, os sentidos degrau acima, infiltrando-se pelas narinas do céu, recordando-lhe as entranhas, levantando-lhe a saudade da terra, porque de uma boda se trata. Do recontro soltam-se as águas, fortes torrentes dissolvem o castelo, levam as escadas na enxurrada, enchendo as terras de delícia, não de castigos. E se da cópula saírem diabos e anjos, irmãos de sangue para se guerrearem, então se restabelece o prazer infinito da energia, porque tudo o que vive é sagrado. Por isso, eu, que não tenho a habilidade do circunstancial, apenas consigo descrever brevemente a visita que, naquele domingo, depois da missa de D. Eduarda, Romeu fez, com Catarina, a sua mãe para almoçar. Sogra e nora olharam-se cúmplices, e Romeu estava cintilante.

sábado, 23 de setembro de 2017

See My Ships – Afonso

Tenho pavor à desordem. Arrepia-me a desorganização. Ver cada coisa para seu lado, à deriva no mar da vida. Esta batalha pode bem ser a história da minha existência. Juntar cada um, atribuir-lhe uma função, pois o vazio trespassa os faltos de responsabilidade, por muito pequena que ela seja. Se ao médico digo, cura e salva, ao sem abrigo atribuo uma caixa onde se enviar nas arcadas de um prédio. Deixe estar patrão que comigo aqui ninguém lhe mexe no carro. Mas não é fácil. Têm em si o frenesi da ilusão da liberdade. Que sozinhos são capazes. Foram biliões de anos ao deus-dará. Ficou-lhes na pele. A aragem do lado de fora levanta-lhes suspeitas, a que chamam intuições. Pressentem que esta ordem, por muito forte e una que pareça, tem dias. Por isso ando nesta azáfama, ora os presenteio com incentivos, pequenos apertões no lóbulo da orelha, ora lhes descarrego o meu mal-estar, para que sintam que isto não é o da Joana. Uma luta diária, como disse, cansativa, por vezes apetece-me atirar a toalha ao chão. Ai, é isso que querem. Vão, abandonem o bom porto, sigam em direção ao mar aberto. Não quero saber. O que vale é a máquina a que Afonso se encontra agarrado. Mantém-nos, a eles, presos por um fio, à mercê da mais pequena intempérie, e a mim, testemunha silenciosa do descalabro deste corpo. Percebo agora os ditadores bem-intencionados ao verem a sua obra vandalizada com palavras de ordem. A baralhação da troca de nomes. Percebo que se retirem, que observem, que padeçam na amargura de uma satisfação. Que morram num sonho, em que veem implorar, meu Deus tem misericórdia de nós. Que implorem por eles, que implorem por mim. Que, finalmente, convictamente, juntos construam pirâmides. Gigantescos frigoríficos onde metem o corpo impregnado de óleos, para que todos nos salvemos. Que revelem a sua falta de visão. Que não podem viver sem invólucro e se agarrem ao papel que lhes atribuí por amor à ordem. Um amor bem abstrato, do qual são uma parte residual. Quaisquer outros átomos serviriam. Tão pequeninos, julgam-se grandes, sempre com o olho no carro, senhor doutor estão ali uns encostados ao seu mercedes, dizem com a satisfação da missão cumprida, carregando no mercedes. Que me adorem e Te ignorem. A Ti. Tu que, como eu, amas a ordem acima de tudo, pai da criação. Salva-me a mim, que fui feito à Tua imagem. Sei que não é em carne, esse recipiente circunstancial. Perdi a obsessão pelo corpo, a mania de o seguir constantemente, agora que se esvai aos poucos, que emite sinais cada vez mais fracos. Preparo-me para os ver partir, órgãos, células, moléculas, cada um na sua vez, cada um a seu tempo. Apronto-me para o desapego, para o fim das emoções baratas. Espero ser impregnado da mais pura lógica, resplandecente, sem a interferência das extremidades, quando começo a sentir um apagão avançado das alas para o centro. Não tenho tempo, nem corpo, para sentir medo. Estupefacto ouço o médico comentar, agora só mesmo um milagre. Enquanto a escuridão avança, só tenho tempo para dizer, salva-me.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tombado – Catarina

Vou direto ao assunto. Se um homem casado anda com uma, duas, ou mesmo três mulheres, o que a sua mulher, a de direito, deve fazer é, quando chega a noite, quando já estão ambos no quarto, dizer-lhe, então o que tu queres é isto, e passar a noite a fazer sexo até que ele tombe de cansaço. Não quereis acreditar. Pensais que estou a brincar. Que falta de amor próprio o desta mulher. Sei bem o que vos vai pela mente. Digo-vos que não passais de uns românticos. Quereis porventura que ela faça a uma cena, que o encoste à parede, que grite primeiro e chore depois, ou o inverso, tanto faz, uma vez que o resultado é o mesmo, ele vai sentir-se atacado, refazer a sua estratégia, fazer uma pausa, um interregno, para tomar folgo, para retomar posições, e depois um dia voltar ao mesmo, mais robustecido, melhor preparado, para o ataque e para a defesa. Ou então sugeris uma atitude mais extrema, que tudo acabe logo ali, e se vá embora, pois que coisa maior existe do que o eu, e o mais sublime é que ele seja amado por outro eu, e de dois eus fazer um só. Mas que maior idiotice essa, que pieguice, ou julgais que essas outras mulheres também não se julgam imbuídas do seu eu, e como tal com os seus mesmos direitos. E o que pensais que aconteceram aos biliões de eus que já passaram pela face da terra, não só de seres humanos, mas também de primatas, cães, gatos, e mais não digo para não vos ofender, que sois uns humanistas, sempre a puxar ao sentimento, pensais que são diferentes do vosso, que cada ser é único, que foi criado para diferir da espécie, não percebeis o contrassenso. E se não vos satisfazem os argumentos de ordem filogenética, apresento-vos os da mais básica estratégia militar. Há maior sofrimento do que aquele a que se autoinflige um exército em retirada, à mercê das constantes escaramuças, feitas, quase por graça, pelas forças inimigas, vamo-nos a eles, sim, mas deixa só acabar de beber o café, e já agora ainda vou comer um mil-folhas, sim é com a boca doce que vos dizimam, de vagar, por capricho, já me encheste a vida e agora matas-me o fastio, e lá ireis cair um a um, e nem sequer sonheis que sereis bem acolhidos onde quer que vades, pois um exército em fuga provoca maior pânico que o inimigo, é imprevisível, semente de desordem, de revolução, e cito-a no pior sentido, na sua instabilidade orgástica estéril. Muita parra e pouca uva. Ainda direis que isso pouco vos interessa, encontrareis alguém e que o importante é o afeto, mas isso é coisa de velho, de acomodado, e um dia quando perante os vossos olhos passar algum adónis iries desdenhar primeiro, revoltar-vos depois, maltratá-lo então, e sofrer por fim. Por isso vos digo, fechai-vos com ele no quarto e exauri-o de sexo até que tombe. Sois mulher e sois capaz. E então olhai-o como se olha para uma criança traquina, com ternura e repreensão na dose certa, enquanto ele dorme imóvel, com a respiração pausada, como um anjo cabeludo, um homem da odisseia à mercê de uma deusa. Então trocareis o eu romântico pela magnificência do Olimpo, e o homem será vosso escravo. Pois, assim olhava Catarina para o seu Romeu tombado.

sábado, 9 de setembro de 2017

500 milissegundos – Joaninha e Afonso

Aconteceu tudo muito rápido, talvez 500 milissegundos, sou, portanto, obrigado a ser breve. Joaninha vê Afonso deitado em cima de uma cama com guardas de ferro. A imagem tem a carga do azul vago do pijama que traz vestido. Uma carga inodora saturada pelo ambiente assético do quarto. Mas não é esta a única imagem que passa pela cabeça de Joaninha naquele minguo intervalo. Há o silêncio marcado por um bip que aconteceu a uma eternidade atrás. Há, também, a imagem que Joaninha tem da ligeira contração dos seus maxilares à espera do próximo sinal. E esta procura imiscuir-se com as restantes para lhes provocar vacilações, pois o corpo julga-se prepotente. E depois. Depois há a postura de Afonso. Estendido. Magro. Inerte. Em perfeita simetria. Pernas. Braços. Fitando o teto. Sugere-lhe um corpo hibernado, embalado, preparado para uma viagem espacial. À espera da sua cápsula de vidro. Uma viagem no tempo. In utero. Em que o tempo apenas passa para os outros, os que estão acordados. À espera. Na expetativa da chegada. Um Afonso saltitante. Brincalhão, recém-chegado a um novo mundo. Mundos. Vários. Intrometem-se na cabeça de Joaninha. Um, muito antigo, surge relampejante. A visão de uma criança a chupar chocolate do dedo da mãe. O olhar clandestino no rosto desta adoça o pecado. Revê nitidamente o prazer, agora que não tem nada na língua. Há muito tempo que não sentia assim o fulgor do cacau. Sente-se percorrida por uma sensação de culpa. A mãe diz-lhe, o teu pai é um homem bom. Invade-a o temor da prisão gelada. Do bater das portas gradeadas. A canção que aprendeu a cantarolar para dentro, enquanto nas visitas avançava com o frio do chão a tocar-lhe as pernas. A Internacional. Uma canção disléxica dos Violent Femmes aos solavancos na cabeça do Afonso. Marcados pelos ténues bips que lhe entram pelos ouvidos. O rosto da mãe interrompido pelo da Susana. O rosto da Susana interrompido pelo da mãe. E a respiração não perde a oportunidade para se intrometer. As outras querem correr com ela. Tu não és para aqui chamada, alegam, mas o corpo julga-se prepotente. A corrente de ar dá azo a um voo. Os rostos das mulheres ondulam como bandeiras. A imagem de Joaninha chega-lhe pelo volume que ocupa ao lado da cama. Demasiado física para quem não a vê. A do Zé aproveita para se assomar. A barba. Os olhos grandes. O hálito pesado, em vaivém por entre os lábios. Sente arrepios no pescoço. Corre para se esconder. Para não ser abocanhado. O aconchego do escuro por detrás da porta. Ri fininho, sustendo a respiração. Oculta-se entre os ramos da laranjeira, sustendo a respiração. As folhas verde escuras, carregadas de cheiro. O baloiçar do ramo. O passar de uma brisa. Esconde-se dentro da tulha de trigo, sustendo a respiração. Pum, apanhei-te. Em 500 milissegundos.

domingo, 20 de agosto de 2017

Três Missas – D. Eduarda Santana

Búzios, cartas, vidências, tarô, runas, borras de café, palmas da mão, entranhas de peixe, ou de um qualquer outro animal de digestão nublada, que se descomprimem ao abrir e se entregam ao imponderável, expondo-se num arco-íris de tonalidades, do amarelo ao castanho, passível de interpretação subordinada a uma consciência universal. Qual consciência universal!? E não me venham cá com enredos quânticos, difíceis de compreender, cheios de aparecimentos e desaparecimentos, como numa novela em que uma criança muda várias vezes de pai, conforme o dia e a hora em que se liga a televisão, e apenas não muda mais pois as audiências acabam aborrecidas, ameaçando desligar os feixes catódicos, até porque demasiados golpes de magia também enfadam. Consciência são imagens. Um barco com os seus remadores a serem fustigados pelas dendrites que silvam no ar sob ação de musculosos coordenadores que lhes agarram pelos axónios. Essa imagem sim é parte da consciência. Ouvi os estalidos que fazem, chispas elétricas que iluminam a embarcação, a colocam em movimento, bem ou mal, dependendo das descargas. Consciência é o comandante que, se junta a imagem dos remos bailando na água com a de uma doce rapariga viking, então os coordenadores sentem nas costas carinhosas cócegas elétricas, mas coitados se, por acaso, em vez da loira entrançada, juntamente com os remos a mergulhar na água, o que vem à mente do capitão é o seu corpo de guerreiro borbulhento de sarampo e uma eternidade fora de Valhala. Não vos digo o que pode acontecer nessa situação pois tenho que vos falar de D. Eduarda Santana, e da sua consciência, quando leu na Splash! a notícia do seu filho Romeu. Ademais, é muito difícil separar a D. Eduarda Santana da sua consciência, nem esta daquela. Pelo menos costumam ser vistas quase sempre juntas e, então quando saem, não podem passar uma sem a outra. Talvez quando andaram mais arrevesadas foi durante o extravio do irmão, Gilberto Santana, mas também é verdade que nessa altura D. Eduarda Santana passava quase todo o tempo em casa. Alvitrava-se que era cautela, por causa dos tempos que então se viviam, mas de facto era por andar arredada da consciência. Uma consciência onde a fotografia do irmão embandeirado e gritando palavras de ordem aparecia constantemente a intrometer-se com qualquer outra imagem que os seus neurónios gerassem. Foi uma maçada, diz agora, com uma capacidade de transformar em palavras o que já lá vai, já lá vai. Por isso, quando leu a notícia a primeira coisa que lhe veio à mente foi a do irmão guedelhudo, e sentiu logo um estremecimento na consciência, será que vai voltar, pensou, mas o caso não é tão grave e é agora uma mulher madura, pelo que decidiu mandar dizer três missas.