quarta-feira, 25 de abril de 2018

Mistério – Avô Galvão

Pois é, tudo ocorreu de acordo com o planeado, era agora claro que o Pinote não tinha morto o capitão Simões, até se percebia bem o que tinha acontecido. O Hilário convenceu o Mouro a espalhar o boato acerca da Sra. Marquesa, dizendo que o tinha ouvido da boca do Pinote, em troca do esquecimento do caso do porco, pelo que esta, num momento de fraqueza emocional sustentada por alguma lamechice poética, acaba por escrever a carta de denúncia do paradeiro do Pinote ao Hilário, o qual o captura junto ao casebre, e desgostoso por este não se ter entregue com a doçura de que achava ser merecedora uma pessoa na sua posição, estava apenas no cumprimento do seu dever, e tendo até recebido um pequeno mimo que feriu mais o seu orgulho que o seu corpo, como acontece a todos os que se acham possuidores da razão, assim que o enjaulou mandou chamar o Mouco que o deixou num estado para além do esperado, pois o rancor que te guarda um homem a quem retires uma parte do corpo não é diretamente proporcional à dimensão da porção retirada, pelo que Hilário teve que adiar a notícia da captura, dado não ser da boa ética profissional entregar o peixe em mau estado sem uma razão plausível. Logo, disse o Zé ao avô, tal como estava, o Pinote não tinha condições de ter morto o capitão Simões e muito menos foi agredido na sequência da sua fuga, que nunca terá ocorrido, como alegou o Sr. Hilário, pelo que o mistério está esclarecido, o Pinote não matou o Sr. Capitão Simões. O avô olhou demoradamente o neto, antes de decidir o que responder. Sabes, resolveu-se finalmente, o Sr. Hilário veio falar comigo, disse-me que estiveste em casa dele a falar com a Olímpia, proibiu-te de lá voltares. Também já não é necessário, o avô nem sabe o esforço com que lá fui. E também me disse que o Mouco desapareceu, não sabem dele, pois não, interrompeu o Zé, o Armindo tratou disso, ele também não fazia falta nenhuma. O avô decide então ir direto ao assunto. O que achas que vai acontecer agora que resolveste o mistério, Zé, pergunta-lhe o avô. Então, agora temos que contar tudo ao Sr. Dr. Macedo, e ele irá dar a ordem para libertarem o Pinote e prenderem o Hilário, que mentiu à justiça, sob juramento, não foi avô, foi sob juramento que ele mentiu. Suponho que sim, concede o avô, embora ele possa ser um homem que fez vários juramentos. Vários juramentos, avô, como é isso possível? É possível, sim, mas isso pouco interessa agora. Quer dizer que não vão libertar o Pinote, avô? Sabes Zé, sinto muito ter de te dizer isto, mas já estás a ficar um homem e tens que saber que onde vocês viram um mistério não há mistério nenhum, o Zé olha o avô incrédulo, todos os que querem saber, sabem que o Pinote não matou o capitão Simões, mas como sabem, pergunta-lhe o Zé, o Dr. Macedo sabe, interpõe o Zé com mais uma questão antes de deixar o avô responder, não há mistério, repete o avô, lá em cima decidiram que o Pinote deveria ser responsável pela morte do capitão Simões, lá em cima, avô, sim em Lisboa, na PIDE, o Zé olha sem palavras, o que é necessário é um outro governo, uma outra política, diz-lhe o avô Galvão.

Taxionomia – Joaninha

Debaixo da conversa arrastada, do lento fluir de palavras, o Mouro mantém os olhos semicerrados com pupilas periscópicas. Não se encontra na terra bicho mais camuflado. Acha-se graça ao Mouro, estar-se com ele é só rir, uma grande pândega, e enquanto nos vamos deixando entreter pelos seus adornos aquelas duas pequenas bolas acobertadas por pálpebras papudas vão-nos tirando as medidas de alto a baixo. O Mouro até já inventou uma taxionomia com a qual classifica cada uma e todas as coisas que o cercam. O seu sistema é baseado num conjunto limitado de conceitos, e formulado a partir de uma pergunta bem básica, como é que cada uma das coisas do mundo vê o Mouro? Dirão, o Mouro interpreta o mundo à sua medida! Mas quem não o interpreta à sua? Dirão, o Mouro é autocentrado! Mas quem se arrisca a levar o pensamento aquém do centro de massa do seu corpo? Podem mesmo procurar ter uma argumentação mais impessoal e alegar que a abordagem epistemológica do Mouro não é a mais correta, mas então sugiro que questionem o Mouro acerca disso. Verão que ele logo fletirá o tronco com a cabeça para a frente, ou então colocar-se-á numa posição ligeiramente simétrica, dando relevo à barriga com a cabeça lá atrás, como um ferro de engomar sobre uma tábua de passar a ferro, e vós que sois apressados na utilização da razão direis, vede como o Mouro não é coerente na aplicação do seu modelo interpretativo do conhecimento, se está mais junto a uma parede estende-se, mas se sentado numa cadeira verga-se, percebendo-se que a sua análise é puramente contingencial e carece de rigor. Tende calma, para perceberdes o que está a ocorrer basta que imagineis o periscópio lá dentro a girar como num submarino, com um homem dando pequenos passinhos enquanto roda, roda a 360 graus. Ledes-me agora desconfiados, e dizeis, o possuidor de um tão sofisticado mecanismo de observação não pode ser um caramelo. Bom, sentis agora uma sensação incómoda? Como se alguém vos estivesse a observar? Não vos quero alarmar, mas neste momento o Mouro tem aqueles dois olhinhos húmidos e minúsculos bem focados em vós. Ah, o Mouro sabe tudo, exclamais espantados. Não sabe tudo, sabe tudo o que pode saber um caramelo. Uff, exalais mais descansados. Lá estais vós de novo descendo e subindo na vossa taxionomia. Assim não tendes descanso. Quem não se deixa levar nestas ansiedades é a Joaninha, que no dia anterior aos acontecimentos que relato, foi ter com ele. Foi recebida, com as habituais tramitações sonoras que encobrem o ruído da montagem da maquinaria. O Mouro perguntou-lhe pela mãe e se tinha notícias do pai, mas a Joaninha foi direta ao assunto, então a Sra. Marquesa natruca, disse-lhe, tirando partido da inexistência de tal palavra para a poder pronunciar sem interdições de idade nem ter de temer do seu significado. A dimensão da resposta do Mouro começou por se revelar com um revirar de olhos, que por duas ou três vezes percorreram toda a linha do horizonte, para finalmente dizer sem arrasto nem entorpecimento, já viu menina, tudo isto por causa de um porco.

domingo, 22 de abril de 2018

Olímpia – Zé

Ai que lindo menino. Esta afirmação seguida da entrega de um doce, um rebuçado ou um caramelo, revelado após se levantar a tampa de um recipiente de loiça, opaco por natureza, como sinal de pudor, colocado sobre um pequeno móvel à entrada de casa, numa altura em que brindar com açúcar ainda não trazia nenhum malefício, mas era mesmo um elemento indispensável nas disposições protocolares de bem receber crianças, por muito inocente que pareça, não pode ser tratado como algo normal, até porque Olímpia já andava há muito tempo de olho no miúdo. O miúdo era o Zé, e, diga-se de passagem, que se a sua predisposição para estes mimos nunca tinha sido grande, ia ficando ainda mais diminuta conforme ganhava vontade própria. Mas a Olímpia engraçava com ele, e o que é que havia de fazer. Era vítima de duas situações que não controlava e ambas com origem no seu matrimónio. Um matrimónio que se prolongava sem dar fruto. Um matrimónio que lhe trouxe a ascensão social que a colocou numa terra de ninguém, entre os senhores e os camponeses, não sendo convidada a privar com os primeiros, nem querendo comprometer a posição recém-adquirida dando-se ao convívio dos segundos. E as funções do Hilário não ajudavam, se o davam ao respeito também mantinham as pessoas à distância. Apenas os declarados adeptos do regime não se limitavam a cumprimentar de longe, e ainda assim eram sempre rápidos e circunspetos, uma cautela um pouco contraditória acerca de uma pessoa que tinha a fama de saber tudo. Até sabe o que se fala ao telefone, diziam, como cúmulo da feitiçaria. Tudo somado, Olímpia aborrecia-se em casa. Por isso foi com alegria que recebeu a visita inesperada do netinho do Sr. Dr. José Galvão, um membro da oposição, como já o marido lhe tinha diversas vezes dito, mas Olímpia dividia o mundo por outras linhas, e aquela era gente que se dava com os Marqueses, e, ademais, a esposa do Dr. Galvão sempre tinha sido simpatiquíssima para ela, dela não se podia queixar, não como da Marquesa, que de certeza achava que era mais que os outros. A contragosto deu o Zé as voltas ao rebuçado. Bem espinhosa era esta missão que a Joaninha lhe tinha confiado. Então, como está a sua avozinha, perguntou-lhe a Olímpia, uma vez que o Zé não havia meio de desembuchar. Está bem obrigada, ontem estivemos em casa dos Srs. Marqueses. Logo a Olímpia se fez toda ouvidos. Comentou-se a morte do Sr. Capitão Simões, disse, puxando o rebuçado para um canto ao fundo da boca. O meu avô disse que o caso não estava bem esclarecido, mas o Dr. Macedo replicou que se deu como provado que tinha sido o Pinote. O meu avô insistiu que não era possível, pois ele foi agredido pelo Mouco, ainda antes do capitão Simões morrer, e não quando tentava escapar da prisão, matando o capitão Simões durante a fuga, como alegou o Sr. Hilário. A Sra. Marquesa logo juntou que de certeza que o Sr. Hilário deveria saber mais alguma coisa. Foi quando a Olímpia o interrompeu. Ela disse isso, exclamou, foi ela que escreveu ao Hilário dizendo que o Pinote estava escondido no casebre.

sábado, 21 de abril de 2018

Esquentamento – Armindo

Só o homem livre apanha um esquentamento. É nestes momentos, entre o ridículo e o sublime, que se sente a vertigem da ausência do caminho debaixo dos pés. Nestes ápices de desvario, alguns, com mais perspicácia, pressentem que algo está para acontecer e, pelo sim, pelo não, achegam-se. Pelo sim, poderão ao menos dizer, eu também lá estive e, quem sabe, dos grandes festins até as sobras são divinais. Procuram assim um lugar à mesa levando a mão às costas de uma cadeira enquanto vão dizendo, eu também já tive dessas chatices. Ah, quão distante anda a aproximação da sorte grande. São como melgas que zumbem, zumbem, em volta de um tormentoso rio de sangue que traça linhas sinuosos, ricas de homomorfismos com as constelações celestes, e apenas sentem o cheiro a hemoglobina, numa cegueira na qual não distinguem um poema que abrasa por dentro de um post no facebook, por muito infestado de likes que ele esteja. Pelo não, dirão, só lá fui para gozar o prato, onde já se viu uma coisa destas. Pois é, se no tempo que agora escrevo esteve Armindo incumbido de lançar a invetiva ao pai Mouco, estava muito longe de suspeitar do poema que anos mais tarde o Humberto lhe soletrou junto ao ouvido, enquanto o Armindo o enlaçava com os seus braços bochechudos, facetados no ginásio, de pele oleada, bronzeada e lisa, depois de se lhe ter queixado de um ardor. Não sendo um homem de letras, foram os sons que o tomaram por dentro, os erres, os eis, sopros ditos em sequência, saídos daquele ser aninhado, que, como um fole, se manifesta e esvai em perpétuo movimento. É isso a poesia. Do poema dito já sabeis o início, só o homem livre apanha um esquentamento, e o resto tereis que o tomar em linha contínua, quer porque a disciplina desta página não me o permite, quer porque foi dito sem quebras, sem princípio nem fim, feito de uma dança entre o temor e o tremor, o ardente e o ardor. Mas temo que tenhamos de deixar o esmiuçar do poema, das suas relações fonéticas e semânticas, para uma nova parte desta obra, que aqui já anúncio será apenas feita da ebulição das partes, sem a procura de um todo, pois neste preciso momento soa o primeiro toque no sino da igreja. Uma. O Mouco tem pela manhã a preguiça do álcool, levanta-se tarde e bamboleia-se pela casa, incomodado, com pernas muito abertas. Duas. O Armindo prepara-se para o que tem para dizer, para além da força da razão apercebe-se que a natureza trabalhou o seu corpo numa ordem inversa ao que a bebida fez ao do pai. Três. Coloca-se à frente do Mouco atemorizador, o da meia lua na orelha, o que já foi comido pelos porcos, o que já não tem nada a temer. Quatro. Incrédulo, o Mouco retrocede um pouco, juntado os olhos à abertura das pernas. Cinco. Nunca mais te aproximas da mãe, ouviste, diz-lhe o Armindo, surpreendido com a grandeza da própria candura. Seis. Quem pensas que és para me ameaçares, grita-lhe o Mouco, procurando reaver a autoridade. Sete. Oito. Foste tu que bateste no Pinote na prisão. Nove. Foge, andam à tua procura pela morte do capitão Simões. Dez. Já nem o Hilário te vale. Onze.

domingo, 1 de abril de 2018

Uma História bem Contada – Zalo

Cada qual com o seu papel, cada qual no seu papel. Melhor não consigo descrever a função do ator. Quantas obras fenomenais são assassinadas pelas fracas interpretações. E que se lhes pode dizer a não ser um prosaico, estava tudo tão bem preparado e tu fizeste merda. Assim não dá. Dá deus nozes a quem não tem dentes, diz-se recorrendo a figuras de estilo, à procura de uma outra dignidade, levantando-se do chão, rebuscando entre as deixas uma que se enquadre, que mascare a visão das pérolas espalhando-se pelo chão, que lindas que elas eram antes de entrarem na tua boca, morcão. Mas também o contrário é frequente, quantas vezes a genialidade irrompe do irrisório, do banal. São assim os grandes intérpretes, enfrentam gigantes cavalgando ridicularias, mal se lhes nota o cavalo branco entre a pernas, de minúsculo que ele é, e ainda assim atiram-se sem medo ao adversário, apertando os membros, aos saltos, para o verbo não ficar para trás, não porque precisem, mas porque um ator é um profissional e por isso diz aquilo para que foi pago, só que fá-lo com um tal arcaboiço, que os outros tremem só de o pressentir abrir a boca, o anteceder aquele vozeirão que vem das entranhas e enche uma plateia de arrepios, como se tivessem repentinamente aberto as portas de par em par. Palavras fracas e vazias que nos atravessam com o arremesso de um tornado. Levam tudo à volta. São uma força da natureza. Sim, teatro é corpo com texto. No caso do Zalo o texto estava à dimensão ao corpo. Curto e telegráfico. Sabe-se que passa uma mensagem naquele fio pendurado entre os postes de madeira, o difícil é saber quando. Deste dilema já padecia o Aires pai, que se sentava à volta das ovelhas de olhos no cabo, absorto, como que procurando adivinhar o que por ali iria e quando, da notícia da morte da ti Josefa para o filho, teve a certeza que a viu sair do terceiro poste depois do cabeço do prior e chegar ao poste seguinte, para os lados do cabanal, onde esteve aí um bom minuto a tomar fôlego, que a viagem até ao Brasil não é para brincadeiras, teve o descuido de confidenciar a alguém, mas logo foi desenganado, que não, que aquilo vai mais rápido, talvez não chegue à velocidade de automóvel do Sr. Marquês, mas ela deve ser mais coisa menos coisa. É isto, mais coisa menos coisa, disse-lhe a Joaninha, não tenhas pressa, uma palavra de cada vez, vai-te distraindo, olhando em volta, para a secretária, para a lâmpada pendurada do teto, fala da Sra. Marquesa, diz só, a Sra. Marquesa, que ele fique a saber que é da Sra. Marquesa, depois para, tira os olhos do Hilário, olha para o lado, dá-lhe tempo, ele vai querer saber mais, faz-te esquecido, como se de repente não soubesses porque ali estás, que te quisesses ir embora, basta um ligeiro arrastar de um pé atrás para ele te perguntar por mais, deixa então cair um outro nome, diz-lhe, por causa do Pinote, acho, não te esqueças do acho, Zalo, e olha mais uma vez para o teto, mas agora não te mexas, só a cabeça, imobiliza o teu corpo como para lhe impedir a passagem, e quando sentires que respirou fundo, diz-lhe, quer falar consigo junto ao casebre, e então roda os ombros e deixa-o sair.

domingo, 25 de março de 2018

Uma Aventura – Joaninha, Zé, Zalo e Armindo

Era uma vez, começam as histórias, e antes as aventuras começassem da mesma forma. Sentados no chão, prontos a disfrutar delas, sem imprevistos nem exaltações, só para o alimento da mente, o conhecimento do mundo feito de ouvir contar, como se conhece em detalhe um vírus sem o haver contraído, para depois em sonhos nos sentirmos infetados, imaginá-lo a entranhar-se no corpo por uma pequena fissura descurada, até porque esse não é um momento de vigília, e o visualizemos a percorrer as veias, a tocar-nos no mais íntimo, que o sono é uma verossímil desculpa para baixar a guarda. São assim as histórias, tomam-nos o corpo repousado, são o futuro, a omnisciência sem um risco. Não, não, as aventuras não são como as histórias, que o diga o Armindo, que terá de fazer frente ao Mouco, que o diga o Zé, que deve ganhar a confiança da Olímpia, que o diga o Zalo, que tem de contar uma história ao Hilário, que o diga a Joaninha, que precisa de pregar uma partida ao Mouro. De acordo com o planeado, tudo deve acontecer entre as badaladas das onze da manhã e as do meio dia. Só o Zé tem relógio e mesmo que todos tivessem nada substitui a ordem intemporal que vem da torre, diz-se mesmo que houve uma altura em que o lugar andou quinze minutos atrasado em relação à vila vizinha e ninguém deu por nada, para além de uma estranha alteração, narrada pelos viajantes, na duração da viagem entre os dois lugares, que tornaram mais rápida a vinda e prolongavam o regresso. Mas isso já foi há muito tempo, ainda se ia de burro, quem tinha, e todos sabem que esse animal é muito dado a distrações, ora se alongando por frivolidades, ora se lançando no seu passo rápido e curto, um pouco ao estilo de Fred Astaire, a quem a imaginação de um outro zurrar de tal forma se lhe mete na cabeça que não descansa até chegar ao estábulo, onde uma pouca de palha lhe traz de novo o olvido, porque o burro é um animal de obsessões tão fortes quão curta é a sua duração. Assim, ao equídeo foi imputado o crime para poder o relógio continuar a sua soberania. Também no plano concebido pela Joaninha, nada pode substituir este relógio universal, pois também eles, Mouco, Mouro, Olímpia e Hilário, não poderão escapulir-se aos sessenta tiques que lá do cimo da torre marcarão o passar da aventura. Nesse intervalo de tempo, cada minuto deve ocorrer como que marcado por uma batuta precisa e sem desacertos. Ninguém deve falar com ninguém para que tudo possa ocorrer como combinado. Uma sinfonia em que cada instrumento toca sozinho e apenas ao público é dado o prazer da clarividência. E a coisa não é isenta de riscos. Há telefone em casa da Olímpia, e a terra é pequena, percorrem-se as suas ruas, vielas e becos, em menos de meia hora, incluindo as necessárias voltas e reviravoltas, que no desenho da urbe houve mais de partilhas e conveniências que de régua e esquadro. Sendo a Joaninha discípula destes últimos preferiu o relógio ao emaranhado de contingências, e, se tudo correr como planeado, ficará esclarecido que o Pinote não pode ter morto o capitão Simões.

sábado, 3 de março de 2018

Mãe - Armindo

Num futuro não muito longínquo vamos encontrar na rua gente fazendo delicados movimentos com as mãos e, ao princípio, ir-nos-emos surpreender com essa intimidade de trazer por casa assim exposta com a desvergonha de uma distração. Dizem-me que traçarão pequenas órbitas, cheias de carinho, interrompidas para iniciar uma nova ondulação porque o amor não tem fim. Depois, depois também nós nos habituaremos a estar emparelhados aos nossos seres queridos onde quer que estejamos e o trazer alguém no coração passará para as pontas dos dedos, o ténue bafo junto à orelha, a leve palpitação de um olhar, o sinal enviado pelo impercetível interromper de um movimento, ultrapassarão a barreira da distância e o mundo será como um gigantesco ventre egoísta que se coibirá nos expulsar insistindo em aumentar de volume para mais albergar. Ligados, sempre ligados. Estarás sempre comigo mãe, virá um dia a dizer Armindo quando a desmazelada mulher estiver no seu leito com ele de joelhos junto à cama, os cotovelos afundados no colchão, mãos apertadas no topo de um vê invertido, e nessa altura só não verá quem não quer ver, ainda que cada um esteja focado nas suas carícias à distância, e ela cadavérica, não pela hora mas porque sempre o foi, uma mulher precisa de alimento, assim, dado com as mãos, senão não medra, sim, ainda não o disse, o mundo do futuro vai ser feminino, nos antípodas do do Mouco, que nunca teve ouvidos para os seus lamentos, e ela com os ossos como estandarte de carnes fracas, baloiçantes, movendo-se pela casa estonteada como um animal sempre enjaulado a quem foi dado um único vislumbre de uma janela, na distância percorrida entre a casa dos pais e a casa do Mouco, a casa agora dela, e o Armindo de joelhos junto à cama, ele a quem ela aprendeu a temer como ao marido, de um útero tudo pode sair, e saiu um homem, forte e bruto como o Mouco, se amamentar não fosse uma cegueira teria morrido à fome, mas a mama, mesmo pequena, doí, porque quer verter, esguichar, por vezes seria melhor não sermos feitos de carne e osso, de silício antes, seria possível desligar, avariou, chamem a assistência, estamos fechados, voltem mais tarde, noutro dia talvez, se calhar já cá não estou, fugiu com o amante, deixou o filho e o marido desconetados, mas existem impossíveis em que nem sonhar é possível, sempre ligada aos pequenos gestos do Mouco, a sensibilidade exacerbada ao arrastar do pé de uma cadeira, um tremor de terra que lhe abana as carnes, não os ossos, que esses fizeram-se antissísmicos, há quem diga que os ossos não doem, é tudo uma questão de carne, nódoas negras, e foi na carne da sua carne que encontrou a salvação, ouviu-a como ouvia tudo, de olhos descaídos, oferecendo uma face porque ouve mal da outra, como um herbívoro escuta o aproximar de um carnívoro, está-lhes no sangue procurar entender o que eles têm para dizer, até ficarem sem pinga dele, mas naquele dia Armindo fê-la dar a outra fase, olhar alguém de frente pela primeira vez na vida, disse-lhe ele, eu não sou um homem, como o meu pai.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Da turbulência - Joaninha

Vamos agora ao assombro da coexistência pacífica entre o maciço Armindo e o volátil Zalo. Dois seres tão opostos que quando se encontram quase sempre há turbulência. Dela gozam as cegonhas, que de asas desfraldadas ascendem nas correntes de ar que a rocha quente da montanha atira para cima. Por isso, se vos revoltastes com o tratamento de que o Zalo era alvo por parte da trupe do Armindo, digo-vos que o fizestes mais com base na emoção do que na razão. Sereis também vós voláteis? Sim, volúveis, instáveis, inconstantes, inseguros, até mesmo um pouco voantes, volantes e voadores. Sim, o contrário de estáveis e constantes. Ou deverei dizer, não. Não sois firmes, fixos, assentes e seguros. Ah, sentis já o estremecimento que cada uma destas palavras provoca nas vossas entranhas, tirando-vos do sério, atirando-vos para cima. Deixai-me dizer-vos então que vos deixais levar facilmente pelos calores. Porque não sois como as cegonhas que usufruem da matemática da vida, da diferença entre o seu peso e a velocidade do ar que sobe? Vede como se mantêm sérias e impassíveis, como quem vai numa montanha russa apenas a efetuar cálculos, sem um grito nem um esgar. De olhar impassível, quantas operações farão por segundo? Que máquina tão perfeita é uma cegonha e inventámos nós o parapente para nos emocionarmos, eh, tão lindo visto daqui. Sim, também eu tive veleidades de cegonha, tirei as fotografias com duas impercetíveis contrações da íris, mas logo fiquei de olhos esbugalhados, como um aprendiz a quem o mestre nada diz, tempo, necessita de mais tempo, pensa. Mas isso sou eu, pois a Joaninha já tinha as contas feitas. Está lá na fotografia e não vi. Fala com os braços estendidos marcando cada palavra enquanto vai avaliando com os olhos ora no Zalo ora no Armindo, sem se emocionar, que para isso já lhe bastou o pai. É verdade que o Zé fixa o Armindo, como se mantém tesa a rédea de um animal recém-domado, mas acreditar que a psicologia bastaria, que não seria necessária a matemática, é como acreditar que o ar nunca mais pararia de subir e que a rocha continuaria a aquecer, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah é tão lindo isto visto de aqui, ah, ah, ah. Não, existe um intervalo no qual o ar sobe e volta a descer, dá um pouco de corda ao Armindo parece dizer a Joaninha, deixa-o estar sem sentir o aperto no pescoço, é verdade que o conquistaste, mas o triunfo é uma cegueira pois é feita de apenas um estado, instável e suscetível, aquele que agora docilmente te lambe as mãos em breve sentirá a propensão de um impulso. O mesmo se aplica a Zalo, o fim do pavor a Armindo seria como deixar de voar e tudo o que planou tem pavor ao aborrecimento terreno. Que Zalo mantenha o receio de Armindo, que Armindo não deixe de ser Armindo, decretou Joaninha. Baixo os olhos como numa celebração e espanto-me porque entre mãos tenho uma terceira fotografia, eu que me recordo de ter apenas duas vezes contraído a íris. Esta é em tudo semelhante à segunda, com o Zalo e o Armindo, mas sem a aura do Mouco nem o peso da anterior, sente-se antes o equilíbrio de uma equação.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Da conquista de um colosso - Zé

Do choque provocado pelas duas contrações da íris, procuro restabelecer-me com a ajuda da matemática e da psicologia. A juntar à inconcebível conquista do Armindo assombra-me também a sua coexistência física neste circunscrito local com o Zalo Aires. Para explicar a primeira recorro à psicologia, para a segunda necessito de lhe adicionar a matemática. E esta ciência dos interiores não parece que se aplique ao Armindo, que está cheio de peripécias inteligíveis, sem nuances, que são como são, de uma tal objetividade que ainda que muitas vezes recontadas não se lhes consegue encontrar um desvio digno de nota. O corpo matulão é assim um excelente objeto de análise objetiva, focada na ação, sem necessidade daquelas apreciações que vasculham seres encolhidos com queda para uma poesia húmida que se declama baixinho em esconsos de personalidade apagada, uma água com anseios de húmus, com a matéria orgânica que se vai encontrando no suor de um corpo redondo, onde a distância que os líquidos têm de percorrer para desaguar nos poros é suficiente para os inebriar de odores, ditos pessoais e munidos de rabiscos com tiques de estilo. Não se podem, portanto, aqui aplicar essas visões intimistas e negadoras da existência das grandes classes categorizadoras da matéria humana com argumento que cada caso é um caso. Pois se o Armindo tem estilo, ele pertence ao grupo dos dois ou três grandes traços que estão deste sempre associados à espécie humana, e que pode ser facilmente caraterizado pela distância que o separa da resolução de um problema, que se noutro pode levar à desmesurada reflexão filosófica, nele é dada pelo espaço que necessita de percorrer para entrar em contacto com a origem da contrariedade. Duas exceções ocorreram, no entanto, em que esse intervalo não foi galgado, e de ambas fostes testemunha, Armindo quedou-se imobilizado, enrubesceu, começou a emitir calor e, quiçá traído pelo corpo, internamente foi vítima da segregação de líquidos com tiques pessoais e não de espécie. Nunca digais que desta água não bebereis, estávamos aprontados a seguir pela análise clara, norteados pela ação, e eis que agora nos vemos na iminência de cair no abismo do intimismo, essa caverna onde as qualidades caseiras se cozinham com os piores ingredientes, resultando num guisado espapaçado que tolhe o apetite e se engole por misericórdia. Mas as coisas são como são, e existem de facto tendências inatas. Não sei se foi pelo cheiro, ou de uma outra forma puramente intuitiva, que o Zé sentiu o calcanhar de Aquiles daquela catapulta pesada, que por entre as cordas e o braço lançador, tudo trambolhos pouco refinados, existia um animal que se deixava conduzir com doçura. Ainda assim foi necessária coragem. Todos estendem a mão quando sabem que o cão é manso, mas o Zé conquistou o colosso quando sobre ele tudo era epopeia. Duas conquistas numa só, pois o triunfo desperta a inveja e o amor, e, ainda que ambos venham mascarados das mesmas manifestações de admiração, mais tarde ou mais cedo revelam-se, e no caso do Zé foi mais tarde.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Das vantagens da fotografia - Clube

É clara a vantagem da fotografia sobre a pintura, ainda que esta última seja mais prestigiada, protagonizada por artistas de pincel baloiçando da mão, enquanto os olhos se fixam ora para fora ora para dentro, conforme professem um estilo mais realista ou mais abstrato, sendo a diferença de escola caraterizada pelo tempo que permanecem em cada um dos estádios, em que o de menor duração pouco contribui para a obra, foi desenhado a pensar no artista, com o objetivo que faça um rápido teste de realidade. É assim, todos as ordens vêm munidas destas válvulas de segurança, tanto mais meticulosas quando mais elaborada se tornou a técnica, mais enredada em si própria, sim, particularmente a realista, capaz de conceber corpos monstruosos que nenhum ser humano digno desse nome alguma vez imaginou e cujo vislumbre arranca risos do demo, até porque nenhum rei vai nu. Por isso vos asseguro, a fotografia é imensamente superior à pintura. Primeiro, não necessita de pincel. Segundo, não obriga ao vai e vem do olhar. Terceiro, é precisa na captura da realidade. Debruça-se um homem sobre a máquina, carrega num botão, e já está. Não vou, portanto, pintar a primeira reunião do clube, prefiro tirar-lhe a fotografia. Fico estático por uns momentos, para não sair tremida, olhos bem abertos, pois a luz não impera dentro do casebre, e contraio a íris não uma, mas duas vezes, para poder depois escolher a que ficou melhor. E, tendo sido tiradas tão de seguida, as únicas diferenças deverão ser puramente técnicas, influenciadas por um pequeno oscilar da mão, o súbito movimento de uma nuvem lá fora, ou um relampejar de neurónios que provoque uma ténue mudança de semblante. Coisas pequenas, é certo, mas que numa fotografia fazem toda a diferença. Pois tal como o fotografo se debruça sobre a máquina, também depois o olhar de cada um dos fotografados se verte sobre a fotografia para se certificar da sua fidelidade à realidade exposta. Vamos então a uma delas, não sei se a primeira ou a segunda, pois a memória entregou-me as sem a indicação da ordem, nela, dos principais figurados, nada surpreende, a Joaninha foi apanhada a falar, curvada para a frente sobre as pernas cruzadas no chão, à sua esquerda, encostado a um barrote, o Zé fixa o Armindo que continua com o tronco hirto, ignorando a exiguidade do espaço, e é neste ponto focal que sou assaltado por um sobressalto, por detrás do Armindo está a figura do Mouco, difusa é certo, mas a meia lua no topo da orelha é indisfarçável, dá-lhe um ar ameaçador, o que nesta reunião com indícios de conjura incute um peso que perpassa todos os restantes figurados. Não caibo em mim com o que vejo. Como não foi isto o que testemunhei no momento em que me debrucei sobre a câmara? Também nisto é a fotografia superior à pintura, prefere a realidade ao criador. É com mãos débeis que puxo da outra, não sei o que procuro, mas a busca da tranquilidade está pespegada de movimentos inúteis. Nesta, tal como na anterior, continua presente o Mouco ameaçador, e é quando afasto os olhos com desalento da sua figura carcomida que vejo, entre a Joaninha e o Zé, o Zalo Aires.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das vantagens de se pertencer a um Clube - Joaninha, Zé e Armindo

Mais uma vez, devo começar com um reparo sobre o título. A palavra se. Pois desconfio que a lestes como pronome pessoal, como pertencer-se a um clube, como se descreve nas brochuras de angariação de sócios, escritas com o único intuito de aumentar as hostes, essencialmente os incautos, e quantos ingénuos pertencem a clubes apenas para lhes dar corpo, sem nunca chegarem efetivamente ao caroço, ao âmago, mas se a lerdes como conjunção, e se com propriedade pertencerdes a um algum clube decerto a tereis lido dessa forma, pois é para mim certo e sabido que, assim sendo, não andareis neste mundo com os olhos fechados, nesse caso, bom nesse caso, peço-vos para vos irdes embora deste texto, e faço-o por duas boas razões, a primeira é que já sabeis o que aqui se irá escrever e por isso podeis gastar melhor o vosso tempo a fazer outra coisa qualquer, sei lá, ide jogar xadrez, entretende-vos com peões, cavalos, bispos, torres, rainhas e reis, estes últimos de incalculável valor, ainda que só consigam dar um passinho de cada vez, como uma delicada gueixa, a segunda, porque me entedio de escrever para vós, agoniam-me as táticas e as estratégias, tudo muito posicional, muito estático, cheio de disposições, e acordei hoje com vontade de escrever sobre árvores, regatos, casebres e pedras de granito que nos rendilham as nádegas quando nelas nos sentamos, comunicando-nos pela parte menos nobre o estado da mãe terra, debitando-nos pacientemente para o corpo calor ou frio, conforme a estação do ano, e, neste mecanismo de desapego eletrostático, nada melhor do que ir olhando para as árvores dispostas em xadrez, intrometendo-se no acesso ao casebre, tornando penoso o progresso em sua direção, e porventura, quase sem querer, reparamos que escasseiam por alturas deste, quando se impõe a encosta do monte onde ele se empoleirou solitário, talvez porque o criador é do tipo aventureiro e descurou a retaguarda, tenha sido por entusiasmo que lançou a bolota para a frente, na sofreguidão que carateriza a procriação, ou tenha sido por falta de amor, e nada melhor que a guerra para justificar a ausência do leito, porque entre um casebre em ruínas e uma gueixa vai uma indisfarçável diferença de carga, ainda que ambos tenham já visto tudo, mas, qualquer que tenha sido a tática ou a estratégia, e não me vou perder agora no esmiuçar das diferenças, o que é certo é que a calvície prematura na cabeça com coroa derreada pode ser um estratagema, engendrado com algum sacrifício, uma entrega, como uma oferenda aos deuses destinada a obter o favor das próximas jogada, senão quando, vemos dirigir-se para o casebre, cada um à sua vez, primeiro o Zé, como um cavalo ligeiro e um pouco nervoso, fazendo repetitivos acenos com a cabeça, como quem vai a pensar, não a saudar, dando duas voltas ao casebre perscrutando ao horizonte, com ele ainda cá fora sobe encosta acima o Armindo num movimento lento e retilíneo, caminha como que hipnotizado, talvez emparedado pela carga e, finalmente, chega a Joaninha, ziguezagueando, destra, em direção a eles, como uma rainha. Qual será a senha?

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Retrato psicológico de um - Caramelo

Sei que o título tem tiques humoristas. Eminentemente visuais, dados pelo travessão que procura atirar o Caramelo para fora da frase, pudesse eu, pontualmente, adotar a forma tategaki. Sei também que já antes vos foi dado um retrato psicológico de um caramelo, endereçado ao Mouro pela voz do Hilário. Se não tendes presente relembro-vos, aquele em que se exalta a dissolução provocada pelos sucos salivares. Sei ainda da ironia dessa situação, em que o Pinote é caramelizado por forma a embrulhar o Mouro com um lindo papel colorido, capaz de fazer salivar uma criança. Notai a circularidade do processo, do húmido ao seco e de volta ao húmido, não fosse o Hilário um alquimista do quotidiano. E, se ficasse por aqui, seria um retrato neorrealista, puramente mandibular, como aqueles em que as pessoas sorriem com desmesura, onde o traço se faz dos maxilares para dentro, da forma física para a textura psicológica, do todo para o detalhe, descrevendo o que acontece a um caramelo quando se coloca entre os dentes. Prefiro, contudo, traçar o Mouro de outra forma, de dentro para fora. Sei que não é uma abordagem utilitária e tem tendência a encabelar-se nas narrativas, esquecendo os fins. Mas eu não consigo deixar de olhar para o Mouro com alguma ternura. E o que é a ternura senão a vontade de passar a mão pelo pelo, e depois disso todas as desculpas são possíveis, todos os defeitos são compreensíveis, engraçados até, vistos como tiques de personalidade, sinais que não incomodam. Gosto do Mouro, é senhor dos seus humores, húmidos e frios, segundo a formulação clássica, mas que aqui, neste ermo do império temperamental, ganham a forma vulgar, aquela que troca o frio pelo lento, que é a melhor maneira de resistir aos calores. Gosto do seu arrastar previsível de argumentos, da sua lengalenga entediante, não pelo que ela diz, mas pelo que me provoca. Se a preguiça é um pecado capital, o deixarmo-nos enlaçar pelo torpor é divino. Gosto sobretudo das suas fraquezas, aquelas que o põem a falar, dos pequenos arranques que o tiram da inércia de máquina adormecida. Desculpo-lhe o favor que fez ao Hilário pela extraordinária interlocução com o porco, pois sei que separar um do outro é ter nenhum. Ambos irrompem como um soluço e abrandam de seguida, voltando o Mouro ao estado inicial de uma máquina sem memória. Assim se explica a sua suscetibilidade à pressão, a facilidade com que se aviva, esbraceja e atira uma resposta. Tem por isso a Joaninha a missão simplificada, até porque o próprio Mouro se enternece pelo destino da pequena. Mas, para o completo retrato de um caramelo é necessário juntar os dois pontos de vista, o do Hilário e da Joaninha, uma vez que no segundo se alimenta e cresce o caramelo para ser tragado pelo primeiro, num movimento inicial de dentro para fora seguindo de um movimento oposto de fora para dentro, como se pode observar numa qualquer série sobre a vida animal. Por isso, quando Joaninha lhe perguntou sobre o que sabia acerca da prisão do pai, o Mouro encostou-se à parede e respondeu naa.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Da arte de bem atirar – Armindo

Nada pode selar melhor um início de amizade do que um ato de generosidade seguido de um outro de compreensão. Comigo foi o mesmo, disse-lhe o Zé. Armindo sentiu derreter o corpo enorme, um calor subiu-lhe pelas pernas acima, apropriando-se da cabeça, deixando-o num estado turvo para o qual não teve nenhum tipo de preparação. Era a segunda vez que se deixava baralhar por insignificâncias, e tudo na mesma semana. Por razões diferentes é verdade, mas em comum, em ambas, sentiu vontade de abraçar quem tinha pela frente. Conteve-se. Não era rapaz para mariquices. Tinha uma reputação a manter perante a trupe que o olhava com uma atenção mediada pela interrogação. São estas situações que podem catapultar um chefe para a aura que será eternamente recordada, lembraste quando o Armindo se virou para ele e, ou, então, lançam as sementes da desordem, quando se começa a remoer das capacidades do chefe, sentindo-se a estripe de traição que resulta da desilusão, antecâmara do colapso, em que cada qual ao descrer do chefe se acha especial. Homem mesmo seria desdenhar da escopeta, fazer dos seis falhanços prova provada da sua inutilidade, dar um piparote no Zé e pô-lo a correr dali para fora à fisgada, mostrando a superioridade das artes tradicionais sobre as modernices do tiro de flober. Mas Armindo não estava para aí virado, e, tendo deixado passar o momento, deu a vez ao Zé que se ofereceu para o industriar na arte de bem atirar. Foi uma voz débil que assentiu perante uma audiência de boquiabertos rapazes de fisga descaída, com o elástico a baloiçar a descontento. Elásticos empoeirados todos, alguns já a necessitar de substituição pelas mordidelas sofridas de pedras mais pontiagudas que aproveitam o puxar do elástico, o refinar da espessura, para deixarem a sua marca. Se o descalabro de um exército perante o olhar dos seus generais é horrível o desconsolo dos soldados perante a renuncia daqueles que os comandam é um momento de uma beleza lírica capaz de encher salas. Filas de rapazes de calções, rotos, remendados, de olhos encadeados pela luz de palco enquanto o Zé ajuda o Armindo a encaixar a coronha no ombro, lhe diz para não fazer muita força, apenas a suficiente para lhe tirar o peso dos braços, para vencer a tendência para descair, passar-lhe o carrego do chão para o ombro, que coloque os pés em paralelo, um atrás e o outro à frente, torcendo o torço, numa leve reminiscência das gravuras dos antigos egípcios, posição de uma inegável presença cénica, que encoste levemente a face à madeira, sentindo-lhe o cheiro à medida que vai procurando a mira com o olho e o dedo tateia em direção ao gatilho, mirando o alvo através da argola com o piquinho no meio, alinhando este como outro lá na ponta do cano, e agora fazer pequenos movimentos com os braços, bailando o cano em volta da lata, como quem faz a assinatura antes de fazer a obra, e por fim, diz-lhe o Zé, que sustenha a respiração para que o movimento do dedo sobre o gatilho aconteça no mais completo vácuo, e o Armindo faz a lata soltar um lamento que desencadeia o coro dos rapazes tristes.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Mouro – Joaninha

O Mouro é castanho e tem uma forma engraçada de falar. O som abafado de palavras que sem sucesso se debatem para terminar, como se uma força se agarrasse aos dentes impedindo-os de se afastarem em demasia, trazendo-os de volta à palavra seguinte, produz um falar em surdina inacabada. É assim que Joaninha se recorda dele. Aos serões, sentada ao colo da mãe, no banco de pedra do lado de fora da casa, ouvia aquela que considerava por excelência a conversa dos crescidos. Percebia pouco. Percebia que se falava do pai, ainda que nunca o seu nome fosse pronunciado, e, juntando tudo, concebia que de um grande mistério se tratava. Porquê? A importância do assunto. O resguardo que lhe era devido. E, sobretudo, o linguajar do Mouro que vertia uma espécie de código que, acreditava, apenas os iniciados terem a chave. E isto dito com propriedade, pois eram frases cheias de inícios de palavras, sem vírgulas nem travessões, que ele pausadamente colocava umas atrás das outras. A mãe percebia, e ia assentando com um acenar de cabeça ou um olhar que com o tempo se tornou mais vago, fosse porque as saudades se metafisicam com o prolongar da distância, fosse porque a conversa repetida é desfocada como o eco, fosse porque se foi enfastiando dos ditos e dos não ditos do Mouro, não sei. Fosse o que fosse, Mouro não parecia dar por nada, talvez devido ao seu apego às coisas terrenas, manifestado naquela mania de falar com os animais, ou porque o que falava era determinado pela urgência do momento, ou porque a lentidão que imprimia ao que dizia permitia o esquecimento. Mas para Joaninha isso não era problema, não lhe percebendo o conteúdo podia encantar-se com a solenidade da forma, e aí as repetições são soberanas, vão ansiedade da antecipação à emoção da confirmação. Por isso, foi aprendendo a lengalenga de cor, apreendendo o Mouro de forma puramente sintática, como o diabo rouba a alma a um homem. Quando anos mais tarde resolveu perceber o que estava por detrás da celebração, o que o Mouro efetivamente prenunciava, partiu em vantagem. Já sabia que o Mouro era um caramelo, que debaixo do seu ar escorreito e falador estava um corpo amalgamado e suscetível ao calor. E não era difícil encontrar o Mouro, o apetite pela conversa trazia-lhe o gosto da rua. Quando se cruzavam trocavam a saudação, boa tarde Sr. Mouro, bo tard Joan cumprim tu mã, dizia encostado a uma parede caiada. Mas naquele dia, Joaninha ia decidida a entabular conversa, e tirando partido da visível moleza em que o Mouro se encontrava, aquela que é dada pelo sol matinal de novembro depois uns dias de frio e chuva, disse-lhe, sabe, tenho saudades de quando nos visitava à soleira da porta, j lá va tem, respondeu o Mouro entre o surpreendido e o deliciado, num movimento lento de lagarto, te notí de te pa, não resistiu a perguntar, sim, tivemos carta esta semana, ele pergunta por vossemecê, o corpo de Mouro, seja pelo calor do sol, seja pelo inesperado da notícia, arqueia enquanto pergunta, q di ele?

domingo, 31 de dezembro de 2017

Da Fisga a Flobert – Armindo

Educai os vossos moços na fisga, serão exímios na lança, pode-se ler num tratado da Grécia Antiga sobre a formação da juventude. Quando pela primeira vez encontrei esta citação não queria acreditar. Pareceu-me conter duas imprecisões que a esvaem de credibilidade, a primeira de ordem social e a segunda de ordem técnica. Debrucemo-nos primeiro sobre a segunda. Estareis de acordo comigo que não é de todo verossímil que no manejo da fisga se possam desenvolver as competências requeridas pela lança, e, contudo, de facto não é esse aspeto técnico a que me refiro, mas sim a que na Grécia Antiga não haveria fisgas, dado que um dos seus constituintes principais é a borracha. Mas a dúvida instalou-se em mim quando me ocorreu que talvez o tradutor, procurando dar uma tonalidade mais atual e apelativa, tivesse preterido a palavra funda, que seria mais fiel, pela de fisga, capaz de provocar uma imagem mais consonante na imaginação do leitor moderno, transmitindo com maior eficácia a intenção da frase. E é assim que também através da segunda chego à primeira imprecisão, a de ordem social. Suponho que já na sua origem o dito enferma dos problemas técnicos que refiro, agora não os linguísticos, mas os do uso e manejo de armas, e que eles são propositados. Senão vejamos, a funda é uma arma menos nobre, historicamente associada a pastores, usada contra animais e nas suas refregas pessoais, enquanto a lança está destinada ao uso da aristocracia e com ela se traça a história, senão vejamos todos os corpos traçados por lanças na Ilíada. Ocorre-me assim que talvez esta citação seja uma das muitas reformulações de uma mesma estória de que a história é feita, e que terá um dos seus expoentes na formulação Bíblica de David e Golias, em que o primeiro com uma simples funda e meia dúzia de pedras derrota o poderosamente armado Golias. Tem este introito o único objetivo de dar alguma universalidade ao que aconteceu naqueles meados dos anos sessenta em pleno Alentejo. Desconfiando, ou não, do caráter intemporal que os pequenos gestos podem ter, sai o Zé armado da sua flober em direção a um descampado onde sabia de antemão que o Armindo e o seu bando se dedicavam à prática do tiro de fisga. Não se enganou, pois quando lá chegou estava Armindo chefiando um exercício de acertar em latas velhas que, por lhes faltar a carapuça, se encontravam a amofinadas por todas as pedradas que levavam. Dois aspirantes situavam-se do lado de lá do muro onde as latas assentavam com a responsabilidade da sua reposição rápida, o que faziam de uma forma brusca, levando a supor algumas situações de imprecisão de tiro ou falta de organização. Do lado de cá o Armindo dava instruções sobre a arte de bem fisgar. Zé fez-se distraído e passou com a flober ao ombro tão junto ao grupo que foi impossível a Armindo inibir-se de pedir para experimentar dar um ou dois tiros. Claro, disse o Zé, passando-lhe a arma para a mão e meia dúzia de chumbos que Armindo colocou entre os dentes. Seis vezes se fez silêncio e em todas elas o Armindo falhou.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma Pista Doce – Mouro

Quando foi da prisão do Pinote o Mouro várias vezes procurou Deolinda com intenção de ajudar. A intenção era boa, mas um pouco baralhada, pelo menos é assim que Deolinda a descreve. Agiu como amigo que era de Pinote e contudo pressentia-se uma hesitação. O Mouro tinha sempre uma achega de sua justiça a tudo que se dizia. Se por acaso se comentava que o casebre não tinha sido um bom local para Pinote se esconder, logo ele intervinha para dizer que não, que não havia outro como aquele, suficiente perto para ter o apoio da mulher e suficientemente longe dos caminhos mais calcorreados. Mas, se por ventura, se estranhava como teria sido possível terem sabido onde se ocultava, logo ele aventava que por aquelas bandas ninguém consegue estar muito tempo sem ser dado por visto, então o Ti Zé Ramires não foi encontrado morto lá para os lados da zurze, exemplificava, onde nem animal vai, e defunto como estava de certeza que Ti Zé não mexia nem mugia, vincava com os elementos bucólicos que, nem ele sabia porquê, enfeitavam a sua prosa, e lá deram com ele quando ainda não há muito teria arriado, tal que ainda nem os filhos tinham mostrado sinais de preocupação e já tinham o corpo do progenitor à porta para devolver à terra mãe. E lá ouvia Deolinda o Mouro, um pouco estupefata com a resposta pronta para as questões referentes às ocorrências que levaram ao encarceramento do Pinote. O Mouro colocava no tratamento deste assunto a mesma argumentação atrapalhada com que foi apanhado pelo Sr. Morgado. Não é que ele estava a falar com o porco, estranhava o Morgado, sem ironia nenhuma, que era homem pio e austero, pouco dado a imaginações. Mas nem todos são assim, e lá na terra zombava-se que o Mouro teria desenvolvido poderes de falar com os animais, e por isso, se tinha escapado a um destino pior foi decerto porque o porco intercedeu por ele, que o Mouro não lhe teria querido fazer mal, e que de certa forma até lhe estava agradecido pela companhia, que passar a noite sozinho na pocilga é um aborrecimento, e uma visita é uma visita. Salvo pelo suíno, galhofava-se. Mas menos certa disso andava Deolinda. A mulher de Pinote, depois das várias intervenções atabalhoadas do Mouro, e da confissão que o Aires lhe fez sobre a conversa da Marquesa, e do rumor que se dizia o Mouro ter lançado da boca do Pinote sobre a intimidade desta última, deu-lhe para juntar um mais um e mais outro, para concluir que o Mouro sabe coisa. Passou a recebê-lo cada vez mais em silêncio, de tal modo que este, sentindo que a nascente onde se alimentava secava, foi espaçando as visitas de tal forma que passado pouco tempo já não era aparecido. Deu graças Deolinda, que não era mulher de ressentimentos, mas a quem, devido ao resultado da soma, a presença do Mouro passou a criar uma sensação de mal-estar no estômago, daquelas que provocam úlcera. Nos serões, quando à noite à porta de casa a filha lhe perguntava sobre o pai, a mãe lá lhe ia dizendo que o Mouro tinha sido um caramelo.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Uma Pista Difícil – Mouco

O Mouco não gosta de crianças. Quando as vê corre logo com elas. Aquilo nem aproximar, levanta a cabeça do chão, puxa o braço acima, cotovelo e mão à mesma altura, não se percebe se como ameaça, se para proteger os olhos dos raios do sol, e rosna, arre daqui. E é no rosnar proferido com uns olhos faiscados de vermelho que fica claro, o Mouco não gosta de crianças. E não deitem a culpa à bebida, coitada, que tem a costas largas. Na taberna do Manel encontram-se bêbados bem ternurentos. Sempre na brincadeira, trocando trocadilhos de camaradagem. É claro que às vezes as coisas azedam, há desafios que se transformam em desaforos, isso sim, o álcool é o responsável pelas derrapagens, mas nada que possa desresponsabilizar o Mouco do seu fel. E nem sequer é coisa que compreenda, quando não bebe sente aquele frenesim, e depois de beber fica na mesma. Não exatamente na mesma, senão de que serviria beber, é um frenesim ao ralenti e isso faz diferença, como uma forma de consciência. Nesses momentos o Mouco sente-se como o protagonista de um filme, enquanto corre atrás do Armindo em volta da mesa está também sentado na plateia, lá bem na fila da frente, com o ecrã a entrar-lhe pelos olhos adentro, a observar-se, como um cavaleiro engalanado pondo em debandada um grupo de inimigos. Por isso, quando levanta o braço e expele para os garotos, arre daqui, fá-lo de modo tão contundente, tão cénico, que já se sabe que o melhor será guardar distância. Sendo o Mouco uma pista, não é, por conseguinte, uma pista fácil, pelo menos não como aquelas que se encontram na neve fofa, feita de peugadas, seja de botas, de cavalos ou de pneus, e que se pode docilmente copiar para uma folha de papel. A Joaninha contou ao Zé que foi o Mouco que agrediu o pai dentro da prisão, e não os guardas na sequência da sua fuga, como se disse nos jornais. Quando o Pinote encontrou a porta da cela aberta já tinha levado a zurra do Mouco e foi muito a custo que se arrastou pelos corredores da prisão até ser de novo apanhado. O Mouco deve saber alguma coisa. Quem é que o chamou à prisão quando o Pinote foi preso? O Zé anda às voltas com isto. Como saber o que sabe o Mouco. É verdade que na taberna ele se vangloriou naquele dia, mas nunca disse quem foi que o lá levou. E isso foi nessa altura, porque com o desenrolar dos acontecimentos a bravata desapareceu do currículo oficial do Mouco, passou a fazer parte apenas de um ligeiro cerrar das pálpebras, acompanhado por uma propositadamente impercetível contração dos lábios. O Zé já perguntou ao Manel se sabia de alguma coisa, mas ele fechou-se como uma ostra, o molho por fora apetitoso e ela cerrada, de dentes que nem à faca se conseguem abrir, não fosse o Manel um taberneiro, trabalhando no ramo das profissões onde juntamente com o produto vendido vai a presteza para ouvir, concordar e calar. Mas o Zé não é rapaz para desanimar com dificuldades, independentemente do seu tamanho, e ocorreu-lhe que o Armindo pode saber algo.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Clube – Zé e Joaninha

Pertencer a um clube tem o seu quê. Não àqueles cuja admissão apenas requer a convicção, mas aos propositadamente faltos de espaço. Normalmente meia dúzia de cadeirões de pele numa sala impregnada de madeiras, castanhas escuras quase sempre, tenho que carregar nos plurais para descrever com precisão o tom carregado destes lugares. Clubes onde não se vai para falar, mas sim para trocar umas esparsas palavras, de uma íntima circunstância, como quem convive com um parente há muito amado e morto. Tudo o demais acontece com cada um na sua aura, folheando longamente o jornal, no vagar de quem o que possa acontecer no mundo já pouco ou nada lhe diz respeito, a não ser para uma observação curta, dita para dentro ou para o cadeirão ao lado, carregada de uma confirmação que nem sequer pode ser cínica, pois os que por ali assentam nunca chegaram a desacreditar das convenções sociais. Lugares conservadores por natureza, onde a leitura de jornal é como um sossegado jogo de paciência em que com cada notícia se preenche uma entrada na ontologia que descreve o universo. No caso do Pinote não podia ser mais simples, agitador mata capitão responsável pelas forças da ordem, diz-se no título principal, seguindo-se, a letra mais modesta, a indicação que foi durante uma tentativa de fuga que se deram os factos. Já no fim da notícia se informa que o indivíduo, de alcunha Pinote, muito embora tenha oferecido resistência, foi rapidamente detido pelas autoridades e que terá ficado ferido com alguma gravidade. Está a acontecer, diz um membro ao fundo, por entre as folhas grandes do jornal que segura com mãos brancas, de dedos compridos salteados por pelos tranquilos. A observação é tão certeira que não surte nenhum comentário. Não para de chover, observa o Zé para preencher o silêncio que se criou no casebre desde que chegou. As chegadas inesperadas dilatam o espaço, mas não de forma uniforme, dão-lhe um jeito alongado do lado do que chega à custa de uma contração no sítio do que estava, provocando incómodo a ambos, ao primeiro, a sensação de ligeiro resvalar no sentido oposto ao movimento de chegada, e ao segundo, uma tração sem explicação em direção ao chegado. Ou seja, o imprevisto provoca um deslocamento, o que neste caso nem pode parecer surpreendente dado o estado do casebre, descaído de um dos lados. Assim, se quando Joaninha ali se arrumou parecia que não caberia mais ninguém e todos os ruídos eram próximos, agora com o Zé sentado ao seu lado o interior do casebre afunda-se, para além da porta, até à janela triangular, e os sons da água a bater nas traves quebradas mal se percebem ao longe. Sim, quando eu cheguei estava a começar, confirma Joaninha, é capaz de ainda demorar um pouco mais. Ficam assim a olhar pela porta resignados a que a borrasca passe. O teu pai não é o Pinote, não resiste o Zé a questionar, não tirando os olhos do branco aberto pela porta. Se Joaninha respondeu ou não, não sabemos, pois nesse momento a chuva disparou em tal saraivada que o melhor é calar e ficar à escuta.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Casebre – Joaninha

Se quisermos descrever um lugar no Alentejo, então o melhor será utilizar o outono como pano de fundo. Assim, escapamos aos estereótipos do estio, da acalmia, dos silêncios afogueados. É quando dois nomes nada parecem ter a ver um com outro que o seu cruzamento nos pode trazer algo de novo. Há, por isso, duas formas de dizer. A primeira, preguiçosa, é como um insulto, feito de uma única palavra, na certeza de abrir um dicionário do outro lado. Desta se fazem as exaltações para fora e por sua cautela se inventou o politicamente correto. A outra, lânguida, revela uma entrada em branco, produz um instante de vazio, como o momento em que água ameaça lançar-se num pulo. Desta outra se fazem as exaltações para dentro e por sua cautela se criaram os grémios literários. É por isso que vos descrevo no outono o casebre alentejano onde Pinote se escondeu há mais de dez anos atrás. Sabemos que esteve lá com o verão, tão dado a contemplações, não como imperativo metafísico, mas como uma estratégia de contenção do suor, feita de movimentos pausados. Sabemos que foi isso que fez durante o dia, mas que de noite se entregou a conversas com a natureza, argumentações descabidas, a não ser que venham a ser apresentadas como fontes de profecias e encontrem algum seguidor. Não foi esse o caso, até porque não sabemos o que se transacionou e para encontrar num sapo alguma manifestação do divino é necessário regressar a tempos mais primordiais. Portanto, um casebre. Derrubado, quase todo ele. Telha chapada, enegrecida pelo calor. Janela triangular, pela fraqueza de uma parede. Traves em vê, com espigões secos de revolta. Branco tingido, pelo azul dos rodapés. A laje poeirenta, onde Pinote se deitou. Podia ter-se transformado numa ermida. Daquelas aonde se vai em romaria durante uma tarde quente de verão à procura de vinho fresco do barro e conforto na ordem existente. Mas isso é no verão. O outono é áspero. Quem por aqui vem é a Joaninha. Não teme o azul escuro cinzento, que atormenta dos céus. O vento que se levanta rápido, trazendo o cheiro a chuva. Põe a capa e diz à mãe que já volta. Quando se afasta já as mulheres estão a tirar a roupa dos arames. Não faz o caminho do Aires pois o ribeirão já leva água. Ainda assim, tem que saltar por entre rochas pontiagudas, que por aqui a chuva é de visitas brutas que não amaciam pedras. Quando chega junto do casebre, as escassas pingas grossas, que voam oblíquas puxadas pelo vento, reduzem o espaço de permeio. Rapidamente se abriga de pernas cruzadas sobre a laje. Ajeita uma ou duas telhas para impedir a entrada da água. O vento entra pela janela triangular e escapa-se pela porta, fazendo uma tangente ao corpo de Joaninha. A água escorre das telhas molhadas para cima das traves quebradas, enchendo o casebre dos cheiros quentes do verão acumulados na madeira. Uma atmosfera de estufa que é por rajadas empurrada para fora. O repentino aumento do ruído da água a correr no ribeirão leva Joaninha a desviar a atenção das traves ensopadas, quando enfrenta dois olhos molhados e um bafo quente que pedem para entrar.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Nabo – Zé

Pode-se gostar ou não, mas nabo sabe a nabo. O resto, as repulsas e as delícias, é já uma questão cultural, e, como tal, uma questão de grupo. E o avô pertencia ao grupo dos homens formados na clareza de espírito, que cultivam uma ligação direta entre a mente e o corpo, sem rodopios, como quem tem um carro para se deslocar de um sítio ao outro e não para fazer piões. Com essa máxima montava o diapasão com que orientava a formação educativa do neto. Com este, procurava provocar ruídos bem pautados, nos antípodas do chiar da borracha do chão. Naquele tempo, quando já se ouviam uns zunzuns sobre outras possibilidades, do esbanjar da existência em curvas e contracurvas efetuadas para não chegar, e, mesmo sendo um progressista, não podia deixar de mencionar de si para si, que o Dr. Galvão cultivava a discrição com uma quase religiosidade, que estava a ficar velho. Nisso têm os conservadores vantagem, nunca se podem sentir atraiçoados pelo tempo. Assim, pode-se ler no ritual do nabo um processo formativo, no qual, consciente do fosso criado pelas diferenças de idade, o avô simulava os ruídos a que não achava sentido, raspando a fibra do nabo no esmalte dos dentes, para extrair sucos límpidos, sem voluptuosidade. Numa frase, efetuava malabarismos de juventude com bolas antigas. Podeis achar rebuscado, mas de igual modo se pode ler na pressão de ar o mesmo máximo cuidado, uma precisa delineação geométrica entre o gatilho da espingarda e o corpo do pássaro. O Dr. Galvão era um liberal de linhas diretas, e não é que não tivesse os seus vícios, os charutos que partilhava com Sr. Marquês, por exemplo. Mas a república é plural, e no seu panteão jaz a tolerância de muitos deuses, sendo missão do homem experimentar as várias roupagens com que se pode cobrir. O que ele verdadeiramente temia era o oblívio prematuro, a vida numa única veste. Por isso o nabo, que despe a boca de sabores. Mas nabo sabe a nabo. E se para o avô havia uma espiritualidade racional no seu exercício, para o Zé, objeto da pedagogia possível, ainda que cuidadosamente elaborada, o nabo sabe a isso mesmo. Foi esse o gosto com que ficou na boca, tendo-o assaltado uma dúvida forte, porque é que os avós não disseram nada, já saberiam que não tinha sido o Pinote, ou desviaram o assunto por ele ser delicado. Como vedes, na altura o Zé já vivia com interrogações, mas era então mais dado à procura de respostas. Começou a fervilhar por dentro. Sentiu-se investido da responsabilidade de que foi empossado. Era igualzinho ao avô, disse a avó. E a questão do Pinote não era alheia à família Galvão. Ouviu uma vez na taberna do Manel, enquanto este passava os pássaros por um fio de azeite quente, o Mouco dizer entredentes, para que ouvisse, olha, olha, o netinho do defensor do Pinote, o que perdeu o pio. Foi assim que foi sabendo da história que se contava baixo, porque o Hilário tem muitos ouvidos, de um Pinote que não tinha medo de ninguém, que enfrentou o Hilário e que o avô o defendeu em tribunal da acusação de ter morto o Capitão Simões. O Pinote haveria um dia de regressar, dizia-se.