terça-feira, 15 de agosto de 2017

Pano – Joaninha

Arredio, fugidio, escorregadio, um pano que divide uma sala fazendo duas. Mais que um biombo, pois este apenas define um espaço temporário, onde nos podemos refugiar para uma intimidade momentânea, e em que até as suas dobradiças revelam contingência, pois pode facilmente ser armado ou desarmado conforme as eventualidades, encostado a um canto para libertar espaço, ou recolhido e arrumado num sótão. Sim, pode-se dizer que o biombo é arredio, que promove o retiro, mas não é presumido como o pano que se estende de um lado ao outro, parede a parede, teto ao chão, interpondo-se, não permitindo uma fisga por onde se aponte a vista procurando vislumbres, e, contudo. Contudo, define uma fronteira que exalta mais do que esconde, de uma debilidade contagiosa, cuja aproximação provoca erupções epidérmicas, vermelhidão, a atração do corpo pela doença. Sim, pode-se dizer que o biombo é fugidio, que não se lhe pode tirar os olhos de cima senão escapa, um pouco mais à frente ou mais atrás, ou encolhe-se de vergonha, ou desaparece mesmo de todo, mas o pano é intransigente, impondo-se implacável, e, contudo. Contudo, se observado de perto, não consegue esconder as lesões no entrelaçado provocadas pela força da distensão, que lhe dão um ar abaulado aqui e ali e abrem uma janela gradeada para o outro lado sala. Sim, pode-se dizer que o biombo é escorregadio, que não é sólido ao contacto, que não é de confiança, que se não tivermos cuidado pode fugir das mãos e tombar no chão, denunciando-nos com um baque seco e definitivo, mas não é dissimulado como o pano, que está pintado a preto e vermelho com irrefutáveis teses, e, contudo. Contudo, entreabre questões devido à firmeza das asserções, pois uma dupla afirmação é uma negação, e depois esquiva-se fazendo finca-pé repetindo-se. E, contudo, naquele dia, naquela sala, quando recebe a notícia, Joaninha, vê claramente o pano à sua frente, desdobrado, corriqueiro, e, ainda que sentada, afasta-se mentalmente para melhor o observar, na sua magnitude, como engloba toda a parede, o pano transforma-se num ponto lá ao fundo, um ponto de fuga, segundo a perspetiva, perdendo o seu aconchego, acaba por sentir uma tontura devido à distância, e é por isso obrigada a regressar, a reaproximar-se, os dizeres a recuperarem o significado, uma lufada de ar para colocar o cérebro de novo a funcionar, ainda assim os tremores persistem, deixa-se estar enquanto pode, mas não resiste, aproxima-se, sentada, estende a mão, abre os dedos que tocam a tela, passam de cima abaixo, acentuam a irregularidade, abaúlam, procura ver por ali, mas é difuso, pestaneja três vezes, não mais, onde não está pintado é mais fácil, faz uma estranha figura, a cabeça revirada num cone cujo vértice é o olho, focando-se na tela, como se estivesse ao junto a ela, sente então que tem a mão vazia, uma sensação de frio devido às transferências de temperatura, a ter retirado a mão do pano, as tonturas engrandecem, tenta mover os dedos para desfazer o formigueiro e cai com a cabeça na mesa, overdose, disse o médico.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Salpico – Romeu

Caímos em queda livre. Braços soltos. Pernas bamboleantes. Splash!. Ao entrar as páginas engolem-nos num rápido movimento, como um soluço para dentro, fechando-se de novo. Somos um nódulo. Uma irregularidade. Ainda assim pequena. Apenas se percebe ao contacto da ponta do dedo. Uma singularidade. Miúda gira que nos saúda com um sorriso neste lado da página. Contínua em excelente forma na outra. Sustemo-nos pelo pontapear das pernas. À tona do texto. A cabeça enfrentando a legenda da fotografia. Livre e pronta para amar de novo. À espera que um marinheiro dê à costa. Parece-nos que não vai ter que esperar muito. Sentimo-nos aprisionados pelo agigantar do sorriso. Uma onda gigante que ameaça nos arrastar. Mergulhamos a tempo. Escapamos pela nesga livre entre a fotografia e o texto. Damos à costa. O corpo lambido pelas ondas. Brasil. Belo areal. Frondosas árvores. Densa floresta. Hermoso! casal este. Merecidas férias estas. Finalmente com algum tempo um para o outro. Vida sobrecarregada. Duas carreiras. Sempre a viajar. O que vale é que há muita cumplicidade. Uma quarta lua de mel. Bela barba rapaz. Ar de marinheiro. New Look!. Vaidosa a rapariga. Como este não há em todo o lado. Ficam bem atrás do sugestivo coqueiro deitado. Está-se a criar um clima. Não queremos importunar. De bruços atravessamos a página de fininho. Ao virar não podemos de lançar um olhar de felicidades para trás. Parece que viajámos no tempo. Não é que já estão a comemorar os anos do terceiro filho. O Manuel é como um pai para os miúdos. Um pai presente. Os manos gostam muito do António. O António ao colo. O António a gatinhar. O António dá os pequenos passos. O António não quer a chucha. O António apaga a vela. O António vestido de marinheiro. Tem boa onda o garoto mas agora necessita de mudar a fralda. Pedem-nos gentilmente para sair. A desprazer concedemos pois estávamo-nos a afeiçoar à criança. Dado o aperto saímos a crawl. Exaustos de tanto esbracejar desembocamos neste delicioso jardim. Que linda mansão. Elegante decoração. Que calma. Que paz. A gentil senhora mostra a sua nova casa. Ah, o jardim tem reminiscências das frondosas árvores brasileiras. Guardando as devidas distâncias, claro. Porque as idades são o que são. Que porte, que postura, da senhora no cadeirão. Cadê! o marido? Não surge figurado. Zarpou? Não, está a preparar as bebidas. Gostaríamos de ficar a fazer sala mas somos capturados pelo Sunset!. Que esplendor. Isto merece uma mariposa. Braços bem abertos. Cabeça à frente. Pernada forte. Salpicos pelo ar. Mergulho destemido. Eh pá. Nem percebemos como é que aqui fomos parar. Assim de repente. Um pouco à bruta. Então não é que a atriz francesa Sylvie Affranché, sim, aquela que tem uma tatuagem na omoplata, a da clave de sol, tem sido vista com o Romeu Santana, sim, o da novela L’Ancien Régime, aquela recentemente cancelada, as fotografias são um pouco desfocadas, é necessário puxar pela imaginação, mas ele não é casado?, dizem que é da velha guarda, um amante da cultura francesa.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Estupor – Afonso

Estupor, e ele imóvel, com os olhos abertos, em trajetória retilínea em direção ao teto, intercetada por cabeças que trazem perguntas e regressam sem resposta. Bom, isso foi depois, antes, antes do ti-nó-ni ou do ni-nó-ni, não consegue recordar com certeza, estupor, em cima da cama, imóvel, com os olhos bem abertos fixos na racha do teto, nunca tinha reparado naquela racha, estupor, um odor a gordura entra-lhe forte pelas narinas, estupor, move a cabeça para o lado para saber a sua origem mas os olhos continuam teimosamente fixos no teto, na racha, estupor, uma racha, não, duas ou três quase paralelas, estupor, tenta ver fora do teto com os olhos fixos mas o mundo desfoca-se a partir daqueles riscos criando uma abóbada abaulada de horizontes arqueados, estupor, talvez tenha sido assim que alguém intuiu que o mundo é redondo, estupor, cruza a perna direita sobre a esquerda tombando com dificuldade sobre o lado e os olhos fixos no teto, estupor, o corpo começa a reagir e move-se leve sem esforços dos músculos, estupor, ah é a pizza, ou a caixa de cartão impregnada de manchas escuras, assim vista de cima, ao pé das rachas no teto, parece uma boca escancarada, ou será antes um aspirador pré-histórico do tempo dos Flinstones, um pequeno bicho que se move sozinho tragando tudo o que cai ao chão, estupor, mas se é assim porque é que aquele pedaço se encontra lá dentro, incólume, estupor, talvez o bicho regurgite, ou pior, como um crocodilo, goste das delícias da comida podre, temperada de pequenos vermes, estupor, não, é um isco para a porcaria, robô preguiçoso, em vez de ir pela sujidade espera que se lhe agarre à gordura, que lhe entre pela boca a dentro, as maravilhas do magnetismo, estupor, as delícias do magnetismo, e Afonso ri encostado ao teto, rir é uma força de expressão, não há transferência de ar para dentro dos pulmões, pelo menos mais do que aquela que a imobilidade necessita, não um ar saltitão que contamina o exterior aos solavancos como um motor de arranque, estupor, é um riso contido, que abdica da missão de contágio, numa alegria inteira, estupor, a Susana deitada sobre a barriga, linda de costas nuas, estupor, a cara afundada na cama, os joelhos no chão, as palmas dos pés expostas, brancas, estupor, os cabelos corridos para cima, eriçados sobre a cama, descobrindo a pescoço, branco, estupor, sorri com os olhos fixos no teto, dá-lhe a mão, estupor, consegue ali de cima ver-lhe a cara, as feições escorridas, os dentes brancos, o nariz, estupor, o nariz entre o abatatado e o intrometido, estupor, tem os olhos fechados, pelo menos visto daqui de cima com os olhos fixos no teto, o rosto sereno de quem insiste em dormir, estupor, tanta paz interrompida por esta gente, ti-nó-ni, ni-nó-ni, que assim não há dúvidas, não se levantam questões, como foi que isto aconteceu, é como quiserem, ti-ni, pelo menos daqui de cima, estupor, a pairar, encheu-se isto de gente, para quê toda esta correria, estupor, está-se bem, para quê tanta presa, tanta correria, não veem que aqui não cabem todos, estupor, intrometidos, entra-lhe pelos ouvidos os comentários do miúdo mais novo, estes estão bem feios.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Tatuagem – Sílvia

Por detrás de uma língua esconde-se outra. Por detrás de uma tatuagem... uma clave de sol azul, sobre o ombro, descaída para a omoplata, como se tivesse escorregado, quando ainda fresca, perdido definição, a precisão da agulha esborratada, alongada, pronunciando a parte de cima com um acento sobre um corpo alargado, um acento grave devido ao decaimento, como uma balzaquiana sobre um divã, deslaçando-se das almofadas aos pés em rosca sob o encosto encaracolado. Sílvia, Sylvie em francês. Dito assim, carregando no i, em qualquer das línguas, ainda que numa mais do que na outra. Ainda assim uma questão de pronúncia. Talvez também tenha as suas variações. Esta prolongada, como um silvo, agudo este, à laia de chamamento, atirado à tatuagem, no meio da rua, para provocar o franzir da omoplata, do lado direito, esqueci de precisar, antecedendo a ligeira torção da cabeça, revelando o canto do olho e um sorriso, que visto daqui até pode parecer malicioso, pois a malícia é assimétrica, feita de uma parte que se expõe para sugerir a outra que se esconde. E quem não gosta de ser chamada assim na rua, Sylvie. Ça va, Romeuô? Soprado assim, euô. A sensualidade de pronunciar um nome de outra língua, introduzindo-lhe acentos, dilatações, influências climáticas. Por detrás de uma língua esconde-se outra. Sílvia e Romeuô. Acabado de sair do apartamento de Madalena, logo ali ao virar da esquina, aquela tatuagem recostada para o ouvir com atenção, não ao que diz, mas ao diseur, como um boxer que num ringue observa o outro que entra, impreparado ainda, pelo menos comparando com aquele que já lá está dentro, em calção, apenas com as luvas calçadas e a proteção dos dentes, quase desnudo, e observa com um sorriso o alçar da perna do outro para entrar, com as cordas ao meio, um movimento ridículo para quem se dirige para um combate, obrigado a sentir as cordas aflorando o reto antes dos assomos de valentia, essa a vantagem de se chegar primeiro. Romeuô, tu es un diseur! Poderia ser tomado como um elogio, daqueles que despertam uma satisfação que desarma, faz baixar os braços, mas ninguém gosta de ser reconhecido fora das suas artes, e por isso Romeu não desiste, especialmente agora que vem determinado a trazer o Tavares à pedra, a obrigá-lo a reconhecer a sua culpa, a expor a sua maldade. E cada frase é como um soco bem entre os olhos do Tavares. Coitado, tanto abanão. Felizmente que é soco en sac. Pas très vite, Romeuô. Pede Sílvia que gosta destas cenas au ralenti, fã confessa do Peckinpah, que um soco qualquer bruto dá, mas a pinga de suor que ressalta do impacte abrindo uma pequena cratera na poeira do chão, o dente que se solta debaixo de um repuxo de sangue, girando sobre si e projetando-se à distância, o golpe bem no centro do olho, atirando a cabeça para trás, em contínuas vibrações que parecem trazer a cabeça de novo um pouco à frente na sua queda e que melhor descrevem o que vai lá dentro do que cá fora, isso sim Sylvie. Por isso, prolongando as silabas, alongando os acentos, Sílvia questiona, Tavarrés, qui est Tavarrés, mon cher?

domingo, 30 de julho de 2017

Últimos Dias – Susana

Últimos Dias. Não, são não aqueles que vedes a letra branca sobre o fundo vermelho de uma faixa, garrafais, a uma porta por onde prometem camisas baratas ou salvação eterna, e se os questionais com as promessas passadas, euforias, quase clímaces, reasseguram com uma confiança tranquilizadora, não, agora é que é. Últimos Dias. Não, não são eles que formam o vórtice do homem tântrico, escravo de um códice, estonteado, hesitante, entre o dever, o não dever e o prazer. Últimos Dias. Nem sequer são os de uma morte anunciada, bem real, corridos com revolta e incompreensão. Dias que se sentem passar cheios de minúcia, de detalhes asfixiantes que clamam a sua existência quase com maldade. Estes últimos dias de que vos falo são mais esparsos, perfurados pelos buracos das ausências, quase sempre a dois. Dois corpos estirados, cada um para seu lado, formando um rendilhado por onde a luz do sol vai passando, traçando linhas no chão, que se movem, lentas, colapsando ao fim do dia na parede do quarto. Dia, noite, amanhecer, anoitecer, manhã, tarde, claro, escuro, não interessa. São dias que se alongam como se fossem um único, onde a passagem do tempo é marcada pelo esvaziamento do pacote de heroína e sequências de figuras geométricas. No quarto de Susana tudo o resto é desordem. Enormes bocas de papel escancaradas sobre o chão, repassadas de marcas de gordura e de um ou outro triângulo arredondado, já frio, que tendo sobrevivido a ser engolido deteriora-se como um pedaço de comida preso entre os dentes. Por entre as caixas, roupas derrubadas por súbitos fervilhares, corridas ao sprint, entusiasmos tombados com as formas do acaso. Calças cujas pernas tropeçaram uma na outra, umas, semi do avesso, outras, expondo um rabo branco sobre pernas azuis, bronzeadas pelo ardor químico do corante. T-shirts deixadas cair em ondas que se sobrepõem sobre si mesmas desenhando sulcos cuja adição forma pequenas colinas. Desfavorecidos pontos de observação, de onde se pode almejar quanto muito um pé gigantesco, descalço, o dedo grande à frente criando a ilusão de uma cordilheira de montanhas que se perfilam à distância. O dedo mindinho, longínquo, assomando fugidio ao fundo dos restantes, como o destino mais desafiante. O que se verá desde lá? Pergunta-se daqui. Deste aglutinado de t-shirt. A questão é interrompida por uma trepidação vulcânica, pelo deslizar do pé de encontro ao chão, esmagando os dedos, sujeitando-os a numa pressão anunciadora de novas réplicas. O pé atira-se então de borco para a frente, libertando os dedos, expondo-os como iguais, revelando uma passagem para o corpo desmedido descoberto pelo deslocamento. A perna de Susana transformada numa subida em duas partes. A primeira, de uma doce inclinação sobre uma superfície lisa onde um ligeiro planalto nos oferece o deslumbramento da segunda, um espanto dos olhos, um desafio à vontade dos que almejam experimentar, não livre de perigos, das avalanches, dos tremores de terras que agora lhe contraem os músculos.

domingo, 9 de julho de 2017

Selva – Madalena

Certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. Dos aventureiros? Questionais-me vós. Não será que queria dizer dos aventurados, sugeris. Mas qual é a diferença? Pergunto-vos. Quem pode estar mais convencido de possuir o dom da ventura que o aventureiro, para se lançar ao desconhecido, desbravando luxuriante vegetação, à catanada, se necessário, na demanda de safiras, esmeraldas, rubis, diamantes. Todas pedras em bruto, à espera de serem delapidadas, libertarem-se da aspereza da natureza para rodopiar em refrações sobre a palma da mão, despertando a cobiça refinada, e serem possuídas pelos bem-aventurados. Ah, pelos aventurados, não pelos aventureiros, exclamais vitoriosos. A teimosia não vos trará boa fortuna e, nesta matéria, por aqui me fico. Repito, certas mulheres são como a selva, são dos aventureiros. E vede, as vossas interrupções fazem-nos chegar atrasados. Madalena e Romeu já não estão sentados lado a lado no sofá longo. Madalena atentamente ouvindo Romeu, desejando que no desfolhar da conversa vão surgindo as referências, à pele dos ombros, ao canto dos lábios, à curvatura das nádegas. Não, já não falam pausadamente. Melhor, Romeu já não fala. Madalena agita-se em pé, impondo-se intransponível para um Romeu que a olha apreensivo, sentado. Estou farta de te ouvir falar do Tavares. Nos últimos tempos quando vens ter comigo só falas do Tavares. E eu? Pergunta, apontando simultaneamente com ambos os cotovelos para as ancas bem rodadas, ao fundo de um ventre que insiste em se esconder, como o parente pobre, e envergonhado, do corpo de Madalena. Sabes que não é bem assim, Romeu procura tranquilizá-la. Não? Mas falaste de alguma outra coisa desde que aqui chegaste? Que o Tavares te fez a folha. Que devias ter suspeitado. Que bem te avisaram. Que as sugestões dele apenas te prejudicaram. E eu, aqui sozinha, à tua espera, com vontade que viesses, e agora essa conversa. De certeza que não é disso que falas com a Catarina. A última palavra é puxada por um soluço que desata em choro. Rapidamente as lágrimas lhe percorrem as faces, precipitando-se do queixo para a camisola onde deixam marcas que colam a blusa de alças ao corpo. Romeu sente-se incomodado pela erupção daquele ambiente húmido que tenta se intrometer nos seus pensamentos, se soubesse não tinha vindo. És um egoísta, diz Madalena, numa forte bátega de lágrimas que agora alcançam mais longe por se lançarem dos lábios retorcidos. Se soubesses os homens que estariam aqui se eu quisesse, atira já em desespero de causa, dado o silêncio de Romeu. Alguns nem sequer és capaz de imaginar, e tu preocupado com o Tavares, diz num riso escarninho que enche Romeu com os calafrios do desconhecido. Não devia ter vindo. O apartamento tornou-se inóspito, tem que sair rapidamente dali. Levanta-se e diz, tu hoje estás impossível, assim não se pode conversar contigo. Num instante está do lado de lá da porta, descendo pelas escadas, vai pensando, a culpa disto tudo é de terem cancelado a novela, e esse Tavares vai ver como elas doem.

domingo, 2 de julho de 2017

Suzanne – Afonso

Arroz de cabidela tem que ser de galo. De galo pica no chão. Como aquele que se presta a ser servido no restaurante santa isabel de abrantes. Pois só um galo tem sangue na veia. Imaginem uma música dos anos 80 tocada melodiosamente no século xxi, com o consentimento, senão gáudio, daqueles que a ouviram então, porque les bourgeois c’est comme les cochons, e não é demais repetir, comme les cochons, em refrão, pois a barriga, atirando-se por cima do cinto, é como uma barreira insonorizada. Uma língua como a dos porcos dos Rolling Stones. Sim, esses que se revigoram com transfusões de sangue. Está tudo bem? Tudo. Responde-se tentando apertar as nádegas, procurando trazer a barriga para uma onda harmónica, mas nada mais inestético do que a satisfação, e logo ali vamos rua abaixo. Felizes, porque para baixo todos os santos ajudam. Não é assim com o Afonso, e muito menos com a Susana. Melodia, sim. Muita. Sussurros. Confissões entre orgasmos. Não sei se da coca se do sexo. Que interessa. Quando se quer é fácil. Companheirismo, como camaradas de combate. E depois os frémitos. As revoltas da Susana com a Clara, uma falsa. Um rufar de tambor. Seguido de laranjas e de desprendimento, pois o apego mata, e vai mais um chuto. Les bourgeois... não preciso repetir. Para que é preciso amor quando há fervor. Nem se percebe bem a diferença. Quero-te comer, está tudo dito. Afonso deixa-se extasiar com a palavra salva-me. Tira-me daqui. Leva-me contigo. O instinto de fazer ninho ao deus dará. Para esplendor da mãe natureza. Esplendor na relva. Se bem percebem. Tudo muito rápido. Como se tivessem sido atirados para dentro duma caixa contendo simultaneamente todos os êxtases e todas as contenções. Ainda falam do cinema. Bah, o cinema. Esse remédio dado em pequenas doses de 24 imagens por segundo, durante duas horas. E isso são os filmes bons. Os maus, placebo. Mas nem sequer é mau, quando se atira para a veia até a seringa dá tusa. Uff, só de imaginar. Imaginem, disse, uma música dos anos 80, ou dos anos 90, ou do fim dos anos 60. Ainda o Afonso não tinha nascido, muito menos a Susana. Mas que interessa. O importante é a pele. Tocar o corpo perfeito, liso e sedoso, antes que encarquilhe. E esse é imortal. Disso são feitos os rituais. Cada volta uma perspetiva. Esplendor na relva, se ainda não vos esquecestes. Só o galo tem sangue na veia, disse. Coisa mais redutora. Desculpo-me de então estar com a barriga cheia. O que interessa é o mar. De que serve o sangue da veia do galo se não desaguar no arrozal, ser aspergido de vinagre. Mais um pouco, perguntam. Há quem goste de mais vinagre. Para mim está bem assim. A conta certa, nem mais nem menos. Ah, Afonso, como olhas para mim. Quanta reprovação há na adolescência. A conta certa. Les bourgeois c’est comme les cochons. O que é isso da conta certa. Será que é preciso repetir vezes sem conta, les bourgeois c’est comme les cochons, comme les cochons. Parece que já esqueceste quando visitavas a Susana junto ao rio. De que serve o sangue na veia se não desaguar no oceano.

sábado, 1 de julho de 2017

O que os olhos não veem – Amália

Ter duas mulheres é sinal de hombridade, mais é devoção. Senão vejamos o culto Mariano e a sua obsessão com a castidade. Mas deixemo-nos de abstrações. Amália tem os seios volumosos, o que não é de somenos importância, e não pelas razões que podereis prontamente ponderar. A boca a saber a papéis, diz-se. Eu não sei, mas se não foi assim que Romeu acordou pela manhã, então um qualquer outro incomum gosto o terá despertado. Áspero, surpreendido primeiro, envergonhado depois, arrependido então, justificado finalmente. Não pela boca, pois tudo terá ocorrido na solidão do leito, à semi-luz que não deixa adivinhar a hora do dia, mas pelo pensamento que aproveita estes vazios de conjuntura para se desenfrear em relações tão lógicas como absurdas. Contudo, assim não foi com Romeu. A justificação saiu bem equilibrada, e capaz de ser repetida pela língua a Catarina, que já teve de sair a esta hora. Já a decisão que tomou de seguida foi irrefletida e, se for surpreendida, terá fraca justificação. Mas o que os olhos não veem o coração não sente e por isso resolveu ligar a Amália para a convidar para jantar. Falar com um colega, para perceber o porquê de terem cancelado a novela, disse a Catarina. Vontade de voltar a vê-la, disse a Amália. Obter a compreensão de Amália, desejou para si. Amália ficou surpreendida. Tinham decidido que seria melhor deixarem de se ver por algum tempo. Tinham é uma força de expressão. Foi Romeu que decidiu ser o melhor. E Amália não é mulher para colocar pressão num homem. É uma mulher de recursos. A surpresa foi o tempo que passou desde que Romeu teve esse longo e cauteloso monólogo, em que lhe explicou o porque de se separem. Um emaranhado raiado por flores oferecidas à sua beleza, à sua paciência e, finalmente, à sua compreensão. Algumas semanas apenas e estão de novo sentados frente a frente. Uma pequena sala de restaurante, daqueles onde para se entrar é necessário descer alguns degraus. É Romeu que fala. Gesticula mais do que habitualmente. Amália ouve atentamente. A luta de espadachins, repete Romeu pela terceira vez, que problema ouve com a luta de espadachins, insiste. Subentendidos? Mas com o Tavares a querer o meu lugar qualquer coisa que filmasse seria vítima de um subentendido. Sim, já te falei do Tavares, o sobrinho do Dr. Osório, filho de uma irmã casada com o Tavares, o da banca. Impingiu-mo como assistente de realização. Eu devia ter desconfiado. Começou a meter o bedelho na história. Começou a dizer, Romeu precisamos de mais ação. O duelo foi por sugestão dele. Depois soube que andou a dizer que era irracional, que não fazia sentido, que era mais desenhos animados do que novela. Isto sei porque me o disseram. Que ele não é menino para isso. Soube que até afirmou que eu não tinha solução para o crime do Capitão Simões. Que a história andava aos empurrões. Agora compreendo as perguntas que me fazia. Eu respondia-lhe, não tenha pressa. Mas ele, pelas costas, insistia que faltava ação. A civilidade mantém Amália atenta, mas nos seios percebe-se um indisfarçável enfado.

terça-feira, 13 de junho de 2017

The Weeping Song – Zé

Se o que inicialmente o paralisou foi a surpresa de sentir a água pastosa a escorrer por entre as pernas, agora também o incomoda o cheiro. Quando já se julgava em segurança, ter deixado o Ernesto para trás, recuperado a cabeça da descarga de pensamentos. Quando finalmente voltava a sentir as pernas no chão, a barriga prega-lhe esta partida. Uma borrasca sem aviso que o atira por uma porta aberta para um esconso vão de escadas de madeira castanha, entre o amarelado e o desmaiado, carcomida por gerações de larvas, famílias inteiras, que roem a infindável herança, não só a escada, mas o prédio todo, onde cada qual parte à aventura, traçando sulcos, rásrás, rásrás. Mas, àquela hora, o que se ouve é uma criança. Chora no andar acima, enquanto um cheiro almiscarado lhe entra pelas narinas. Uma mistura de bicho e madeira, em partes que não consegue discernir. Destes segredos são feitos os perfumes. Pungentes, como as tempestades que ensopam até aos ossos. Instalam-se e desencadeiam um rumor que rompe nas extremidades. A criança não se cala. Já chega, diz uma voz de homem, quando é que o puto para. Estou farta, responde uma mulher. Uma porta bate com força. O prédio estremece. Deve ser isso que explica as pequenas perturbações encontradas nos sulcos. Bichos cegos não são dados a sobressaltos. Talvez não tenham assim uma vida tão sossegada. Tentam, mas o mundo não é só feito de boas intenções. Não é só o prédio, são as pessoas que o fizeram, que acham que também têm direito. Ou, pensáveis, bichos que o prédio tinha sido feito para vós? Para a vossa delícia? Afonso faz tenção de se ir embora, mas sente as pernas paralisadas por uma cola peganhosa. Delícias. Larvas transparentes, sem vitamina D, assomam cá fora apenas pela calada da noite. E mesmo assim muito a medo. Quase por engano. Uma ida fugidia a uma sessão de esclarecimento. Apanhados à porta. Trazidos para dentro. Passei por aqui, mas já estou de saída. A vida não é só delícias, diz o conferencista. Usa uma qualquer analogia. Forte, como uma boa analogia. Inútil, como uma boa analogia. Analogias são como as cerejas, pensa Afonso. Cada uma tão convincente que nos faz esquecer a anterior. Esta é que é essa. Delícias. Afinal estas minúsculas lagartas também têm os seus alvoroços. Espasmos. Pasmo, pai, neste esconso de escada. Cheguei aqui num transe, não consigo recordar bem porquê. Tremem-me os dedos. Doem-me os ossos. Suores. Vai passar. Daqui a pouco já estou em casa. Só mais um pouco. É como se já tivesse aí. Não te preocupes. Já percebi. Delícias. O choro redobra de intensidade. A porta abre-se e o peso de um corpo pesado solta uma chuva de pó sobre Afonso. Foda-se, cheira a merda, anuncia a voz do homem sobre a sua cabeça, enquanto dedilha os degraus, a um a um, fechando a porta do prédio com estrondo. Passos precipitados trazem a mulher à entrada do apartamento. Com uma praga que dilata o edifício, atira, não penses que voltas, cabrão. Bate a porta com força para se proteger da reverberação da sua imprecação.

sábado, 3 de junho de 2017

Poor Little Alfie – Amália, Madalena e Sílvia

Mais do que a cara mergulhada no vomitado, onde os restos de uma encenação de almoço navegam à vista num banho de gin que foi fazer a apneia ao estômago, o que realmente incomoda é o cheiro. Um cheiro acre, que recorda a existência das entranhas e, finalmente, de um ser vivo formado à volta do tubo digestivo. Como se o aparelho respiratório fosse a consciência, e um esbirro invejoso, do outro, o único que atravessa o corpo de lés a lés. Por isso mete duas vezes dó Romeu no chão. Mete dó porque tolhe ver um homem emborcado na manifestação externa das suas vísceras. Dó, porque não consegue levantar o rosto, entontecido que se encontra pelos vapores que não retornou. Catarina ainda o tenta erguer, mas Romeu faz-se pesado e começa a gatinhar combalido, numa passada cega de animal possante. Bamboleia o corpo com o nariz roçando o chão. Pelos lábios semiabertos passa ar em ambos os sentidos, trazendo dos pulmões o bafo que vai soltando num rasto que marca o caminho. Catarina passa-lhe uma toalha molhada pela cara. Romeu interrompe a caminhada, surpreendido. Os lábios alargam e sente por dentro o ardor da água que apaga o fogo. Começa a sugar levemente a toalha, fazendo com que pequenos jatos de líquido passem por entre os dentes, apaziguando a língua. Levanta uns olhos vagos e vê Catarina, desfocada, balançando-se de um lado para o outro. Faz um esforço para conciliar a vista com o cérebro, e vê a cabeça de Catarina desdobrar-se em duas, agarrada pelo tronco. A visão provoca-lhe náuseas e fecha os olhos. Na escuridão, o cérebro dá um mortal, desequilibrando Romeu que aterra a cabeça no chão. Duas mãos seguram-no pelos ombros e sustêm o que ainda pudesse haver de queda. Aproveita então para rodar o pescoço, repousando sobre a face direita. O solavanco deixou-lhe os braços ao longo do corpo. Mas as pernas não se dão por rendidas e, mais por descontrolo que por desobediência, insistem em avançar. A força do desgoverno desencadeia um ligeiro arrasto que, se consegue deslocar as mãos alguns milímetros lá atrás, cá à frente apenas serve para repuxar o lábio inferior, expondo a gengiva com despudor. Encostas de carne luzidia sob um castelo de esmalte que se abre para deixar passar uma corrente de ar que resvala pelo carreiro de baba até ao chão. Fica assim, prostrado, como um animal a repousar sobre o pasto. Quando as pontas dos dedos de Catarina lhe tocam a face, reabre o olho esquerdo e procura fixar um mundo sem profundidade onde três rostos sorridentes o observam. Lado a lado, trocam impressões sem deixarem de o fitar. Olhos dilatados, em simpatia com os lábios que descobrem dentes alinhados. Lábios que ondulam com doçura, nunca encobrindo os dentes, por onde as línguas enunciam danças do ventre. Bailam à vez, e em sintonia, reafirmando a mesma frase musical. As cabeças acenam, de baixo para cima, reproduzindo sins. Vão-lhe assim chegando melodiosas ondas sonoras que procura captar com ligeiros movimentos da cabeça. O olho de Romeu dilata quando reconhece Amália, Madalena e Sílvia.

sábado, 13 de maio de 2017

Hollow Hills – Ernesto

Um Deus triste com o sofrimento do mundo. Foi quando finalmente refreou o passo que Afonso se questionou se Ernesto estaria mesmo morto. Invadiu-o um sentimento de culpa. Se calhar estava vivo. Precipitou-se quando o viu revirar os olhos com a agulha ainda na veia. Eh pá, Ernesto, deixa-te de merdas. Disse-lhe duas vezes, abanando-o com cautela. Mas ainda assim, a seringa a balançar, decaindo do antebraço para o chão. O gajo já tinha ido, nada mais havia a fazer ali, melhor pôr-se na alheta. Era a primeira vez que estava no apartamento. Parece que era de um primo do Ernesto, que estava fora. Surripiou a chave à mãe, fez uma cópia, e agora era um paraíso. Ideal para dar um chuto na boa, dizia. Sem stresses. Não tinha culpa de nada, certificou-se. Não conhecia o local. Sabe-se lá quem podia por lá aparecer. O Ernesto dava-se com gajos bué de esquisitos. Pessoal da pesada. Não andavam só a curtir, tinham responsabilidades, e na merda deste negócio não se brinca, meu. Na ausência do direito, um bom nome é tudo. Perdes o nome e tás fodido. Fazem de ti gato-sapato. Pagas uma meia, dão-te uma quarta. E depois riem. Puta de vida. Sempre a lutar entre o cavalo e a dignidade. Cada um a puxar para seu lado. A vida é um paradoxo. O cavalo exige dignidade para ser montado e depois passa o tempo a tentar atirar-te ao chão. Dizem que há gajos que se aguentam. Andam anos nisto. Tratam o bicho por tu. Em todo o lado há tipos regrados. Calculistas. Cavalgam e não se entusiasmam. Parece que o Ernesto não é um deles. Se é que já foi. Senão, sabe-se lá. A filha da puta desta vida dá voltas. Partes numa viagem e nunca sabes como regressas. Até podes regressar cínico, dizem. É capaz de ser verdade, mas o pior é ficar-se com a cabeça atrofiada. Nos últimos tempos o Ernesto andava mais para o contemplativo. Devia ser de ter deixado de meter na rua. Estas merdas contam. Condições são condições. Não venham com tretas. Com um pouco de conforto até a miséria dá frutos. Sim, contemplativo. Podes crer. Passava horas a olhar para as estrelas. Somos só um ponto no universo, dizia, e metia para dentro. Não sei por onde andaria, pois quando regressava voltava a olhar para as estrelas. Será que tirou por lá alguma selfie? Somos só um ponto do universo. Repetia. Coitado do Ernesto. Foi nesta fase meditativa que começou a usar o chapéu de abas. Ficava-lhe bem. O corcovado do alto fazia pendant com as maçãs do rosto chupado. Não, o gajo tinha pinta. Tinha vaidade no chapéu. Somos assim. Afeiçoamo-nos a estas pequenas merdas. É isso que nos traz agarrados à vida. Um mundo oco este. Se não for isso. Se não forem as estrelas. Estamos cá para quê? Comer, beber e cagar. Não, tem que haver mais alguma coisa. O chapéu do Ernesto. Devia-lho ter posto antes de sair. Ele havia de ter gostado de ser encontrado assim. Com a seringa e tudo. Mas foi tudo a correr. Não se faz nada com calma nesta vida. Não há tempo para nada. Ao menos ele teve uma vida cheia. Antes isto que morrer velho e passar uma vida a vegetar. O gajo era tramado, a contemplar, apenas um ponto no universo.

domingo, 7 de maio de 2017

A Strange Day – Romeu

Quando o rosto de Romeu entrou por entre os seios de Catarina imaginei que iria ser tão grande e intensa como uma obra prima da literatura russa. Grandiosa por fora e por dentro. Na imensidão das descrições dos campos de batalha, na acutilância dos detalhes da complexidade psicológica dos personagens. Mas não é que, nesse preciso momento, me sobreveio um tremor que me acanhou a mão e me impediu de expor, como pretendia, o que tinha para narrar. Assustada, agarrei-me à esperança que seria uma convulsão à Dostoiévski. Daquelas que por vezes o atravessavam. Um ataque de génio. Fui, na realidade, tomada por um rufar repetitivo que se instalou em mim como um vírus. Peço-vos desculpa, porque cada palavra que se atreve é imediatamente amassada, escravizada por esta batida. A epopeia que tinha em mente ficou reduzida a muito pouco, um dia apenas. Um dia bem estranho. E mesmo assim, só o favor da literatura concede transformar num dia os escassos momentos que a cabeça embriagada de Romeu passou ali. Poderia exprimir tudo numa única palavra, contradição. Romeu de joelhos. Com os olhos abertos de um cego. Brancos e revirados para dentro. Envolto num mar com uma praia de pedras. Enjoado do doce navegar. Precipitado em queda livre pelas contrações do estômago. Falhando-lhe as pernas. Sem a gravidade do planeta terra. Encho-me de vergonha com a trama psicológica que me foi destinada. Que paga por tanto desejar. É assim a juventude feita a correr. Mais um pouco. Por favor, só mais um pouco, depois faço de mim uma mulher. Só mais esta canção. Uma contradição. Um atropelado numa passadeira que se atira para fora da zebra. O corpo ao ralenti, à deriva entre o céu e o chão. Batalhando. Os braços trespassando inimigos invisíveis. Cada golpe um homem ao chão. Uma oportunidade para o seguinte. Estranhos inimigos, que desejam a morte do companheiro para poderem ver chegada a sua vez. Irónicos inimigos, que num sorriso dizem, esbraceja Romeu, esbraceja. Um dia bem estranho. E o chão que nunca mais chega. Negando-lhe o descanso em paz. E os tambores que não se calam. Rufam, rufam. Parem, estou farto desta guerra, diz Romeu, enquanto involuntariamente carrega no replay. E, quando se sente finalmente a chegar ao chão, uma mudança na batida, mais longa, como uma ordem de recarregar, eleva-o em nova exaltação, esbracejando agora mais que nunca. Como um batalhão cego de cansaço, vendo no campo inimigo o lar doce lar. Doce miragem. Como correm. Como abrem e boca e gritam. Mãe, pai, voltei da guerra, são e salvo. Os braços como asas. Fora da passadeira. Abraçando a Catarina. E pobre de mim. Preparada que estava para as paisagens. A bateria sobre a colina. A névoa lá em baixo. Envolvendo as árvores do bosque. O bosque que regurgita homens. Cegos do que os espera. Envoltos na humidade onde lhes vai brotar o sangue. A metralha cuspida lá de cima. Caem atordoados. Épico, sonhei. Mas coube-me em destino este chão de cozinha.

sábado, 29 de abril de 2017

Spellbound – Susana

Não se consegue separar o som da luz. A sua intermitência mergulhada em fumo. Fumo que se agarra ao suor dos corpos, apanhado entre os encontrões. Sou testemunha da descontinuidade. Afonso viu Susana num clarão. Depois fez-se escuro de novo. Esperou até voltar a haver luz. Ela já lá não estava. Fechou os olhos antes de se fazer noite outra vez. Concentrou-se nas guitarras e numa voz que repete uma palavra mágica. Quando reabre os olhos está ao seu lado. O que fazes aqui? Vim com a minha irmã. Onde está ela? Foi à casa de banho fazer um caldinho. Ah. E tu? Eu não. Não? Não. Fez-se noite de novo de novo. Afonso fecha os olhos. Ondula o corpo. Reabre os olhos e Susana continua à frente dele. Séria. Diz-lhe, salva-me. De quê? Não sei. Preferia ter ficado em casa. São empurrados, ficando lado a lado. Na música repete-se again, and again. Onde já ouvi isto, pensa Afonso. Quem ficou em tua casa? Ninguém. Porque viestes? Tenho medo de ficar sozinha. Uma bateria bate em cadência de combate. É só disso que tens medo? Não. Uma luz atravessa os olhos de Susana. Grita-se um refrão qualquer em unanimidade. Costumas vir aqui? Às vezes. Às vezes. Às vezes. A resposta reverbera. Afonso faz tenção de ir embora. Susana não se move. Afonso fecha os olhos. Deixa que tremores lhe percorram os músculos. Entreabre os olhos para que alguma luz vá entrando. Solta o corpo ao compasso da música, deixando-se surpreender por cada novo acorde. Susana pergunta-lhe. E tu, costumas vir aqui? Às vezes. Queres uma cerveja. Sim. Serpenteia em direção ao bar. Quando regressa, a Susana não está. Deixa-se ficar. Pouco há no que acabastes de que presenciar, mas são disso feitos os feitiços. Se tivessem substância não seriam feitiços. Os feitiços, como os ardis, contêm um pedido de ajuda seguido de uma espera. No pedido exalta-se a matéria. Na espera forma-se o caráter. Como se forja uma espada, com fogo e água. Sei que levantais dúvidas. Dizeis, pobre rapariga, pobre rapaz. Quem os deixou lá ir. Dizeis isso porque nunca lá estivestes. Ignorais o êxtase de um cão que se deita no chão, de barriga para o ar, com uns olhos suplicantes ao fundo de um focinho molhado. Ou o ardor de seguir um desconhecido pelas intrincadas ruelas duma cidade marroquina para nos levar a um vago lugar prometido. Tudo coisas que o bom senso não aconselharia. Mas voltemos ao feitiço. Imaginemos um feitiço cheio de bom senso. Como uma aventura paga. Empolgada no cartaz. Inócua e assética na realidade. Como uma prostituta legalizada. Tudo by the book. Sem o mais ligeiro ameaço de ardor. Sem um assomo de súplica. Que feitiço é esse? Com que fogueiras podereis intimidar tais feiticeiras? As do IVA, talvez. Achais mesmo que o que atormenta a alma de Afonso é o IVA. Que quando a sua mão aperta a garrafa molhada da cerveja o que sente escorrer por entre os dedos é a percentagem do imposto. Que por isso passa horas sem fazer nada. Deixando-se perturbar por todas as músicas que vai ouvindo. Achais mesmo? E da Susana? Uma miúda ainda atrapalhada com o fogo. Uma aprendiza de feiticeira.

sábado, 22 de abril de 2017

Zona de Conforto – Catarina

Envolvo a carraça bem encrustada sob o pelo do cão. Podem dizer mal dela. Apontar-lhe a acomodação. Mas qual é o bicho que quer deixar a sua zona de conforto? Andam agora por aí com essa conversa. Até parece que pretendem que se transformem em melgas e partam à aventura, a sugar por aqui e por ali. Não sabem que é assim que se apanham as doenças? O próprio Napoleão tinha mais respeito por uma corrente de ar que por um batalhão de cossacos. Um inimigo bem mais traiçoeiro, dizia, que de manhas percebia ele. Não deveis estranhar, por isso, que a carraça se aconchegue lá fundo, junto à raiz dos pelos, como um vinhedo costeiro protegido por um canavial. E depois é toda uma impossibilidade construída pelo hábito. Acomodou-se, criou rotinas, arredondou-se, passou a almoçar sempre no mesmo restaurante, às quintas, tripas à moda do Porto, por vezes, que uma vez não são vezes, ou melhor, quase sempre, a tarte de coco, hum, delícia, tome lá uma ginjinha para ajudar, bem bom. Devido a tanto divinal suco, tornou-se mais sangue que músculo. Malditos hábitos que nos fazem fracos. Soubesse e teria sido pirata toda a vida. Não passava agora por isto. Perder peso. Ganhar asas. Mas eu não abandono os meus. Por isso, ali vou, feita passarola, vela enfunada, bandeira desfraldada, a caveira com os ossinhos a fazer um laçarote. Ou pensáveis que a iria deixar ficar sozinha? Exposta. Não, comigo é até que a morte nos separe. Afeiçoei-me a ti minha carraça, meu pirata. Também os estúdios se tinham tornado a zona de conforto de Romeu. Mas, quando saiu não levava vontade de regressar, tanta era a revolta. Mantendo uma aparente compostura, quem dele se acercasse poderia sentir uma vibração resultante de um linguajar interior, indistinguível. Um zunzum, em que discorria razões, inconformado com a decisão de cancelar a novela. Uma enorme injustiça. As audiências estavam altas. É verdade que o tio bem o tinha avisado, naquele dia em que o apresentou ao Dr. Magalhães Osório. Há mais para além do Dr. Osório, disse-lhe, quando saíram. Ligou ao tio, agora já não há nada a fazer, assegurou-lhe, desculpa, mas eu próprio me devo manter afastado. O regresso a casa é feito aos ziguezagues. Já duas vezes se enganou no caminho e voltou atrás. Quando abre a porta, Catarina imediatamente se apercebe como vem. Lança-lhe um olhar interrogativo. Não lhe apetece falar. Vai à cozinha, recusa o copo de vinho e retira a garrafa do gin. Apenas se ouvem os ruídos da rua abafados pelas janelas de vidro duplo. Serve-se outra vez de gin. Catarina está expectante. Romeu tomba sobre os joelhos e senta-se no chão, encostando-se às pernas da mesa. Catarina junta-se a ele. Romeu bebe o resto deste segundo gin de um trago, enquanto estica o braço para trazer a garrafa. Serve-se de novo. Então? Pergunta-lhe Catarina. Cancelaram a novela. Mas as audiências não estavam boas? Estavam. Então? Dizem que exagerei. Exageraste nada! Vais ver que é um mal-entendido e que tudo se resolve. Abraça-o. Romeu coloca a cabeça entre os seios de Catarina.

sábado, 15 de abril de 2017

Chama – Afonso

Quando abre a mão revela uma chama bem no meio da palma, que vai do azul junto à pele ao laranja das extremidades. Sou como a chama que arde no coração de Cristo, em antigas gravuras que ornamentavam casas modestas. Um Cristo belo. Sim, o fogo fascina, eu sei. As chamas têm chamamento. Atração que captura os olhos. Chama que desperta uma loucura que se quer calada, como um amor secreto, escondido dos comentários comezinhos dos outros. Por isso vivo no segredo guardado pelo punho fechado de Afonso. Sou uma pontada de calor bem no centro, onde as linhas se cruzam. Dormente, persevero-me na ânsia do oxigénio que me dá forma. Afonso sente-me ali como um incómodo, mas mantém a mão cerrada. Sou a presença constante que o acompanha ao longo do dia. Por isso é ligeiro. Sorri. Não se atormenta perante as dificuldades pois sabe que mais tarde soltará a mão e abrirá os olhos à minha chama. Talvez por isso, por ter a felicidade periclitante dos que acreditam, o pai não procure mais. Dirão que é desleixo para um psiquiatra, mas na azáfama de concertar as almas dos outros, com os próximos, tal como consigo próprio, vive numa espécie de alheamento. O enfado de quem por cautela não traz trabalho para casa. Já da mãe não poderei dizer o mesmo. As mulheres não se conseguem desligar dos seus rebentos. Mas prefere não saber. Engendra uma multitude de pequenas causas que expliquem o que suspeita. Causas sociais. Objetivas. Alicerçadas num materialismo dialético que coloca tudo numa rede lógica que traga os novos factos e os digere em velhas associações. Mas Joaninha está enganada. Como vos disse a minha origem é de uma ordem religiosa, que não se explica. Não que não se tenha tentado. A religião é o ópio do povo. Ah, ah, ah. Não posso deixar de crepitar de riso. O que seria do Afonso sem mim? Como seriam os seus dias se não tivesse a garantia da celebração da chama. De se ajoelhar perante a minha redenção. Pobre Joaninha, sempre tão perspicaz e tão cega para o essencial. Deveis estar a pensar que sou como a canção na cabeça do Afonso. Sim é verdade, não sou é tão passageira. A canção é a fuga do Afonso, eu sou o Afonso. Dou-lhe o desprendimento que faz a camaradagem. Um afastamento do material consubstanciado numa desambição mãe da partilha. Quem não é generoso depois de um farto almoço? Ou, após soltar a alma numa adoração? Tudo isso eu dou a Afonso e há, contudo, nele um sofrimento de ter de fechar a mão. De se sentir obrigado a esconder a chama. Não, não sou eu que, como uma amante possessiva, o atormento com a necessidade de declarar publicamente o seu amor. Não sou vítima dessa insegurança. Não há no fogo condições para a consciência. O sofrimento do Afonso advém da minha força. A dúvida atormenta qualquer relação e Afonso teme que possa abrir a mão e já lá não encontrar a chama. Por isso a dor na palma da mão. A forma como ele não a consegue separar de mim. A inquietação de não perceber claramente onde termina a dor e começa a paixão. Como se de uma crise de fé se tratasse.

domingo, 9 de abril de 2017

Mercado – Romeu

Ficastes pendentes do homicídio do Capitão Simões? Tenho então más notícias para vós. L’Ancien Regime não terá continuação, fica-se por uma única temporada. E não é por causa das audiências, essas até são razoáveis. Romeu esmerou-se a colocar todos ingredientes necessários. Nem sequer necessito de vos dizer quais, uma vez que chegastes até aqui, semana após semana, vítimas das ênfases, insinuações, ausências e prolongamentos. Por conseguinte, quando soube da notícia, que não tiveram a gentileza de lhe comunicar pessoalmente, Romeu sentiu-se injustiçado. Andava tão entusiasmado a conceber a novela, a acrescentar-lhe fios narrativos, a atar-lhe as pontas, criando uma rede sem princípio nem fim, feita para durar, fadada a apenas desaparecer por enjoo, por excesso, quando os espetadores já são dependentes, e não necessariamente poucos, mas doentes, e, como tal, quando a sua conclusão pode ser justificada como um ato de saúde pública. Nessa situação, até o realizador está de acordo, pois, o píncaro do sucesso de um ilusionista é desmontar o truque, mostrando a sua grandeza. A grandeza da criação e a grandeza da renuncia, juntas numa só. Quando finalmente ouviu da boca do Dr. Magalhães Osório, diretor de programas da estação de televisão, pois é, meu caro, as coisas nem sempre são como nós gostaríamos, Romeu apenas conseguiu balbuciar, mas, e as audiências? As audiências, ai as audiências, repetiu abanando a cabeça o Dr. Osório, com alguma incredulidade. Olhe, sabe o que eu acho? O Romeu entusiasmou-se. Mas deixe estar, é frequente, especialmente no princípio. Todos gostamos que gostem de nós, e depois as audiências sobem, e lá vamos repetindo o que resultou, aumentando-lhe a amplitude. Sabe, fica o realizador tão viciado como o seu público. Mas qual é o problema? Insistiu Romeu. Não são as audiências que atraem a publicidade, que dá lucro, que viabiliza a estação? Meu caro Romeu, nunca pensei, saiu-me um neoliberal. Bom eu, também o sou, mas você é do tipo ingénuo. Como é que pensa que funciona o mercado? Julga que funciona sozinho? O mercado tem que ser regulado, senão é o caos, e começa a tragar as pessoas. Romeu, mostra-se surpreendido. Ai Romeu, Romeu, um neoliberal ingénuo é pior que um comunista. Sei que foi o que apendeu na escola. Compreendo, uma boa educação faz-se com uma base teórica sólida. Mas tem que ser cimentada na prática. Quer dizer que não foi por causa audiências que cancelaram a próxima temporada? Interrompe Romeu. Olhar só para as audiências é muito redutor, caro Romeu, responde-lhe pedagogicamente o Dr. Osório. Mas eu coloquei tudo o que era necessário, justificou-se Romeu, como um bom aluno numa revisão de provas. Não nego que se esforçou, Romeu, mas exagerou, frisou o Dr. Magalhães Osório, está tudo de acordo com a teoria, feito como deve ser feito, não nego, até lhe dou os parabéns. Mas, vejo-me obrigado a repetir-lhe a pergunta, como pensa que funciona o mercado? E perante a expressão espantada de Romeu, explica-lhe. São as forças vivas da sociedade civil que fazem do mercado o mercado.

domingo, 2 de abril de 2017

in extremis –

Uns grunhidos? In extremis? Não é coisa bonita. Estávamos à espera de mais. Uma carta dedicada a uma causa não pode deixar que as suas últimas palavras sejam uns grunhidos. Se a Igreja se regozija com a conversão in extremis dos não crentes, uns grunhidos não poderão com certeza ser interpretados como uma conversão, um arrependimento no momento da partida, mas dão margem ao pequeno comentário. Pobre diabo, tanta conversa e lá foi como todos os outros. Se calhar pediu para ser recebido do lado de lá. Lá está. Se calhar. Venho por isso em defesa da carta republicana. Não, não houve arrepiar de princípios. Achais porventura que uma carta fadada para ser engolida pela boca negra de um diabo vermelho teme a morte, ou parte na esperança de um além. Ah, dizeis vós, pois é, mas entram com a certeza de serem entregues ao Destinatário. Tendes aí um ponto, concedo, mas isso é porque usais as imagens deste mundo para inventar um outro. Dir-vos-ei mais. Apenas podeis empregar esse argumento porque é o progresso que garante a entrega da mensagem. É a vitória da civilização, da máquina racional, que com os seus bem oleados mecanismos assegura que chegam ao destino. Nessa idade média, de que éreis senhores, poucas missivas escapavam à intempérie, à desventura, ao acaso. E o que dizíeis então? Vede como as mensagens do homem para o homem são nada. E tínheis então um ponto. O que perfaz dois pontos. Mas não vos parece que foram somados com alguma batota? Dais agora uma volta sobre as vossas razões, revoltados, e atirais que um homem sem alma é como um animal. Por isso grunhiu. Não, não foi falta de alma, foi falta de ar. Pois foi, vireis vós de volta, mas se tivesse alma, teria a vontade que não cala, não precisaria de ar para falar. Mas que falar é esse sem ar? Um milagre? Bom, contra milagres já nada posso. Desdenhais dos milagres, dizeis a rir, esperai o momento da morte e depois falamos. Acho que voltámos ao princípio. Um elo, como o que enlaça a carta republicana no seu leito. Coitada, perdeu a cor rósea, está lívida, presa na mão do Sr. Capitão Simões, que jaz no chão. Tombado da cadeira, tem em volta do pescoço o garrote com que foi estrangulado. A polícia diz que deve ter sido alguém em que ele tivesse confiança, para se ter colocado por detrás do capitão antes de este dar o alarme. Não costumava estar no gabinete aquela hora. Era um homem de hábitos. Alguma situação excecional o deve ter levado a romper a rotina. Foi um encontro combinado, com certeza. Uma amante? Para o garrote é necessário um pulso forte, determinado a não parar. Um golpe certeiro. O corpo foi deixado no local onde ficou, paralisado com a falta de ar. Não há sinais luta ou de ter sido arrastado. Também não se deu pela falta de nada, gavetas e armários não têm aspeto de terem sido mexidos. Qual seria o motivo do encontro? Um assunto pessoal? O que ocorreu in extremis? Terá percebido a razão do seu triste destino? O que terá dito? Com a carta do Dr. José Galvão na mão, esse ateu confesso.

domingo, 26 de março de 2017

Papillon – do Bigode

Pois é, quando parecia não ter fim, eis que tudo se precipita. Não, não foi o corte no canto superior da folha cujo ângulo até lhe deu um ar marialva, tivesse ela um palito entre dentes. Foi o bigode chinês. Não tinha já dito, antes caísse. Pois é, mas não caiu. São os apegos. E pasmai, nem sequer foi obra da carta anónima. Coitada. Muito ela ficou surpreendida. Quer porque tinha planeado retalhar a republicana pedaço a pedaço. Quer porque tinha planeado poupá-la. Vá-se lá saber o que vai na alma de uma anónima. Aconteceu tudo muito de repente. Não podemos isentar de culpas o bigode, mas também terá como desculpa que apenas foi o que é, e o que é o que é a mais não é obrigado. Um bigode passa uma vida a robustecer-se em balanços constantes, como resultado dos movimentos da carta. Uma verdadeira cordoaria ao ar livre. E depois fica como aqueles homens que, após passarem largas temporadas no ginásio, olham-se ao espelho e sentem bruscamente um enorme vazio. Então, pobre daquele coitado que se lhe atravessa à frente. Ainda mal o viu e já está em cima dele. Pumba, que tu és isto. Pumba, que tu és aquilo. E o azarado pode ser todo ouvidos, mas dificilmente compreende. Pois é. Aquilo que no duelo se tinha tornado diversão para a carta republicana, para o seu bigode foi o alimentar de uma ânsia, uma cega vontade de agarrar na anónima e a apertar tanto que viesse a desfalecer. E tomem nota na palavra cega. Um bigode pode ter fibra, mas falta-lhe retina. Se os derradeiros acontecimentos são da irresponsabilidade do bigode, um observador externo até pode atribuir todo o mérito à carta anónima, que se aventurou numa manobra arriscada. Desdenhou da fibra do bigode com o objetivo de provocar desconcentração e reduzir a precisão de movimentos da carta republicana. Para isso, aproveitou o breve desacerto resultante do corte no canto superior para deslocar o teatro das operações mais abaixo, na zona onde o bigode permanecia pespegado. Entrou então num jogo do gato e do rato, chamando o bigode a si e rapidamente se lhe esquivando. Estava, portanto, a parte cerebral da carta republicana a refazer-se do corte enquanto o bigode entrava em roda livre, como um desaçaimado cão treinado para matar. E não é que na sua cegueira se atira ao próprio dono?! A ponta comprida do bigode deu uma volta, entrelaçando-se com a ponta curta, enlaçando a carta republicana a meio, convencida que estava apertando a anónima, que olhava sarapantada. Nenhuma forma de morrer é bonita, mas esta tem requintes de malvadez. O aperto começa por selar, amarfalhando a parte atrevida da folha que ficou enredada na língua do envelope, soltando pequenos grunhidos. A asfixia provocada pelo nó fez engrandecer os lados, que aumentaram de volume e enrubesceram como dois pulmões à procura de ar. Ao centro, o laço dado pelo bigode aumenta de força, pois a falta de oxigénio destruiu as zonas de controlo e a fibra do bigode contrai irrefletidamente. No seu aperto máximo, quando de dentro só vinha silêncio, a carta tinha a forma de um papillon. Não é uma forma bonita de morrer.

sábado, 25 de março de 2017

Mas Quando É Que Acaba – o Duelo

Mas Quando É Que Isto Acaba? Sim, faço questão de perguntar assim, começando cada palavra com maiúscula, com os faróis acessos para a condução da noite. E pergunto-o na preguiça de quem sabe que chegou a hora de terminar e se deixa estar. Por isso interrogo-me para atiçar o prazer e depois rir. Quando estamos envoltos em técnicas, táticas, golpes, e outros estratagemas, somos capazes de passar toda a noite nisso. Comprar uma cave, enchê-la de mesas, cada uma com a sua batalha, o seu jogo, em que se enfrentam papel e plástico, encharcados de significado, e regressar à cama pela madrugada, exaustos e satisfeitos, quando os vizinhos saem para o jogging. É assim que eu me encontro, mero espetador deste jogo de cartas. Quantas combinações há naqueles dois magros paralelepípedos. As três dimensões do espaço não são suficientes para explicar a subtileza de um arrastar de canto, nem a determinada intenção de uma leve pressão, ou as ligeiras oscilações de dentes dos selos. Talvez se deva ao facto da carta anónima ter suspeitado que a republicana não é quem diz ser. Que tenhamos não um, mas dois mascarilhas. Subitamente desconfortáveis, sem saberem o que fazer. Um mascarilha aplica um golpe à mascarilha ao que o outro mascarilha responde com uma técnica de mascarilha. Um duelo existencial e sem sentido. Um empate. Poderá conter todas as técnicas e táticas do mascarilha, mas emoção nenhuma, o grau zero do inesperado. Porque digo então que estas figuras são dignas de passarmos a noite a observá-las? Porque comprei uma cave onde todas as noites mergulho? Porque após o sobressalto do reconhecimento resolvem continuar a representar o seu papel, fingindo que estão a fingir. Se tendes dificuldade em perceber imaginai um baile de máscaras organizado por um grupo de amigos de longa data. São por isso agora mais afincadamente o que fingem ser. A republicana mais republicana e a anónima mais anónima. A primeira, repleta de ênfases libertadores, aplica táticas que expõem. Desafia a anónima a mostrar o que tem escrito. Para isso, alterna movimentos lentos com repentinos arranques, procurando soltar a língua do envelope. Mas a cola da anónima resiste ao destempero. Para cada movimento, finge que adere, flete, e depois faz-se plana. O que atiça a republicana, para quem um revés não é derrota. Recorre por isso ao ardil do agora vou-me embora, colocando-se, através de uma rápida viravolta, fora da visão do endereço. Infelizmente, o célere movimento é denunciado pelo bigode chinês, que a anónima ainda vê escapulir-se por baixo de si. Sorri, porque o sorriso é o escape da memória, e faz-se tonta, finge-se atónica. A republicana não sabe se há de acreditar, indecisão que a anónima aproveita para numa dupla pirueta à retaguarda raspar a outra num golpe de navalha. Da manobra há a lamentar a perda do canto superior da folha republicana, que no seu afã libertador, nem nos momentos de maior refrega procura a segurança do envelope, na ânsia de tudo observar, e poder dar instruções informadas. Pensais que este foi um golpe fatal? Qual quê, isto nunca mais acaba.

domingo, 12 de março de 2017

Ainda Outras Técnicas, Táticas, Golpes e Outros Estratagemas – do Duelo

Pois é, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O selo dado pela carta republicana à anónima desencadeou em mim a doce sensação da compreensão dos princípios básicos do duelo de cartas. A isso não terá sido alheia a boa disposição da carta republicana que, após obrigar a anónima àquele faiscar de olhos, gritou com alegria, Vive La Repúblique, sim, assim mesmo, em francês, com um forte acento jacobino, que como sabemos é um bolchevismo permeável à participação aristocrática, e, maravilha das maravilhas, deu um pequeno pulo no ar, se é que a palavra pulo se pode aplicar a um movimento que não tem o seu início no chão, agitando simultaneamente ambos os cantos inferiores, o que descartou imediatamente a hipótese de a vibração singular de cantos ser uma caraterística congénita, pelo menos nos momentos de alegria. E agora sim, a alegria da republicana e a raiva da anónima deu origem a toda uma variedade de técnicas, táticas, golpes e outros estratagemas do duelo de cartas que, abri bem os olhos, é um gosto observar. Com a cabeça fora de si, e por favor imaginem como cabeça de uma carta a aba do envelope que impede o fácil acesso ao seu conteúdo, ou não seja dito dos desmiolados que têm a boca junto ao coração, a carta anónima aplica um golpe conhecido por gancho em cunha, em que mais em força do que em jeito, se atira perpendicularmente com todo o seu peso contra a republicana, procurando asfixiá-la contra uma parede ou outro objeto que ocasionalmente possa estar na trajetória. Esta não consegue conter o riso, não sei se ainda por via da alegria do selo ou pelo contacto do corpo quente da anónima, que, de inesperado, provoca involuntárias contrações musculares da folha dentro envelope. Não se encontrando numa situação completamente desconfortável a republicana usa uma tática conhecida, na gíria popular, por deixa-tetar quetás bem, mas que na linguagem militar, mais formal, é referida como retrocesso manhoso, em que se simula a intenção de avançar seguido de um retrocesso, com o objetivo de experimentar o adversário e convencê-lo que tudo lhe está a correr de feição. Apenas quando está quase em contacto com a parede é que a republicana resolve aplicar a técnica conhecida por chave mista, embora outros se lhe refiram como chave invertida, mas que resulta da evolução de uma técnica antiga, anterior ainda à luta de cartas, quando não havia correio e os povos deste lugar comunicavam por uma técnica conhecida por a passada. No que consiste então a chave mista? Bom, a republicana liberta-se do abraço asfixiante, deslocando a parte inferior para fora, num movimento que tem de ter tanto de rápido como de inesperado para poder passar pelos cantos inferiores sem eles começarem a vibrar, ficando as duas cartas agora encaixadas na parte superior, mas permitindo à carta republicana conduzir a seu belo prazer a anónima, desgastada que está da investida contra a parede, e obrigada agora a recuar, um pouco em contrapé, dada a ligeira torção a que se encontra sujeita. Esta folha está a chegar ao fim, pelo que me vejo obrigado a deixar o estratagema para a próxima.